Harry

Harry sempre usava os mesmos caracteres para escrever suas notas. Tinha esse apego por uma forma de letra que nada mais era que seu passado tão quisto e nunca vivido. Reminiscência do não acontecido no talvez uso de uma máquina de escrever. Quando colocava uma palavra ela saia como se fosse um documento de repartição pública na década de 1960, pura nostalgia desmedida e não concebida. Cada palavra ganhava a forma de uma dor que nunca tinha se passado e, mesmo, nunca havia sido.

Harry digitava sempre com a mesma fonte, usava sempre os mesmos símbolos e começava sempre com a mesma intenção: dizer algo especificamente a alguém. É certo que de quando em quando ele pensava em utilizar artifícios para que as palavras pudessem ser lidas por outras pessoas e que também as trouxessem algo mais que o percorrer dos olhos por sobre algumas letras à toa. Dissimulava palavras para todos enquanto transmitia sua verdade para alguém.

Harry não sentia neste fato o ato mero de ser mentiroso, afinal, escrevia simplesmente e de fato e se a alguém caberia mais que as particularidades da ligação da palavra à mente, isso não cabia a ele. Constatava esta proposição, mas não lhe competia a autoridade de se ater a ela, pois que escrevia também e somente.

Harry no fundo era um escroto, ao que sabia que o que quer que ele escrevesse seria filtrado como bem aprouvesse a quem lesse, já que todos e todas são ilhas a milhas de uma coerência num mar pleno de inteligibilidade. Sabia disso e dissimulava tantas vezes não saber. Escolha própria mesmo, daí não ser nem tanto um escroto, pois que se assumia, mas sim um louco, já que tal moralidade escapava a um aceno maior com qualquer intenção de manter-se íntegro.

Harry escrevia então para alguém. Alguém que poderia ter ficado para trás em alguma curva estranha, alguém que poderia ter se instalado sorrateiramente sobre seus devaneios, alguém que talvez nem existisse, mas que lhe marcava a presença de seu próprio ser no estado de então. Alguém com letra maiúscula: Alguém. Diferia do ninguém pelo fato mesmo da não existência não cabida e até mesmo por uma significação desmedida. Alguém que separava o objeto de sua escrita do resto do mundo e que já permitia para ele que classificasse o mundo de sua escrita em Alguém e Não-Alguém, dois pólos como no ímpeto – quase? – humano de estabelecer dualidades e dicotomias.

Harry entendia então que sua escrita baseava-se agora em alguns pressupostos: os caracteres de nostalgia, a dissimulação aos outros e outras, a – má? – intencionalidade de um escroto talvez louco e a destinação a Alguém. Já havia mais que um quê de motivação, havia a própria escrita neste então.

Harry passava para a parte mais primordial, quase que a essência de todo o fato. Harry buscava o quê dizer. Já havia prospectado toda a sua consciência na ânsia de trazer à tona o sentido e o significado de seus caracteres nostálgicos, mas perdia-se no ato mero de elucidar seu ímpeto de escrita. (A inconsciência então era domínio que nem se sonhava adentrar.) Suas letras escureciam-se no ocaso das linhas e ficavam pejadas de matéria inerte. Talvez tivesse fincado-se no mesmo lugar que a (in)definição de Alguém, na mesma curva estranha, mas talvez fosse o tanto que se dizer que o cegava a ver o além. Talvez o tanto (in)definisse os códices possíveis e não permitisse a dualidade do específico e do total, do particular e do universal.

Harry constrangia-se por não conseguir preencher o vão das letras, por ficar na intenção e na existência mera do ato de escrever. Harry queria ir além de seus atos e significar tudo para além dele mesmo, queria ser meta, ser para, ser trans.

Harry escreveu, por fim, assim mesmo: só ato, só fato – de fato –, só letras com caracteres saudosos, só intenção, só a escrita turva para Alguém. Harry escreveu e pensou que pelo menos isso lhe aliviasse a existência por alguns segundos. Conseguiu um bom tanto, desejou o imponderável e alcançou o que o ligava ao perdido do não vivido.

Harry sorriu ainda uma vez. Talvez Alguém também.

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