Metáfora

(ou Do fim ao começo)

Eram umas dez horas da manhã quando chegamos Miguel e eu ao bar. Dispostos estávamos a beber até a queda se preciso fosse. E preciso era. Sentíamos que necessitávamos beber, pois acabávamos de nos encontrar imersos em tristes e melancólicos fins. Ângela e eu, Marisa e Miguel, se é que vocês entendem: fim. Quando um fim se faz presente n’alma, quando ele se consolida é o momento de senti-lo de todas as formas existentes, para se crer realmente nele. O álcool nos dá outra percepção de um fim. Por vezes místicas, algumas dramáticas, outras tantas depressivas simplesmente e numas mais, indiferente até, não se esquecendo é claro das faces cômicas, trágicas ou tragicômicas quando possível.

Dois eram os fins a serem sentidos pelo amargo do álcool: o meu e o de meu amigo Miguel. Duas mulheres seriam condenadas, apedrejadas ou talvez ovacionadas por nossas bocas alcoolizadas. Ou até quem sabe, nem isso.

Pedimos uma cerveja. Sentamo-nos defronte ao mar – havia mar onde nos encontrávamos. Cada um sorveu seu primeiro gole de cerveja como um católico faz o sinal da cruz ao adentrar uma igreja, num ritual sagrado. Estava estupidamente gelada a cerveja, que mereceu um comentário estúpido saído de minha boca:

– Gelada como meu coração!

– Boa! Esta foi muito boa, merece um brinde: os nossos corações antárticos! – Pediu Miguel. E brindamos àquela estupidez.

O sol já dourava forte nossas costas. O mar quebrava à nossa frente em ondas azuis absurdas e um vento sutil balançava os cabelos, a toalha da mesa e até fez voar um guardanapo. Miguel tendo observado o vôo do guardanapo atentamente quebrava o silêncio aéreo do vento:

– Uma vez Vinícius, há muito tempo atrás, você falou do amor como se fosse o mar em um poema teu, me lembro bem, foi num sarau lá na universidade. Metáfora interessante, elegante talvez… embora um tanto desgastada, mas e hoje? Dez anos depois, ainda acredita nisso?

– Se pergunta é porque discorda ou crê mais ainda. Responde primeiro.

– Talvez por causa da bossa, da poesia em geral, sempre acreditei nisso. Mas hoje penso diferente. Vê esse vento que sopra agora? É assim que vejo o amor.

– Fugidio? Passageiro? Fugaz? – Questionei.

– Possivelmente. Fugaz poderia ser a palavra: vento. – Ele olha para o horizonte. – Amor… é o vento que vai em busca do horizonte e se perde em obstáculos medíocres. Uma hora derruba até prédios, outra não atravessa papel e sempre desejando o impossível, nunca se contenta com a existência que possui. Sempre querendo o infinito.

– Não tinha feito tal comparação ainda – disse um tanto pensativo –, faz sentido…

Pedimos outra cerveja e ficamos perdidos em nossos pensamentos. Eu a interiorizar o que Miguel explanara. Miguel com cara de vazio, de horizonte infinito almejado, pensando em vento.

Ao longe o mar dançava em suas ondas. Parecia que o vento se declarava ao mar e este, estremecia em ondas. Ambos querendo o infinito.

Quebrando tal quadro avistamos uma cena, num certo ponto do início do almejar infindo (ou no mar se preferir) acontecia uma cena curiosa. Era uma imagem de dramaticidade cômica: um bombado, desses grandões malhados, subia e descia à água pedindo ajuda. Provavelmente era câimbra. Logo uma multidão se juntou para olhá-lo e dois outros grandões entraram n’água para socorrer. Tiraram-no com dificuldade – ele devia pesar uns cem quilos –, estava inconsciente ao que parecia. Fizeram-lhe uma respiração boca-a-boca. Sobreviveu.

– Será mesmo que me enganei com a metáfora? – Perguntei a Miguel.

– O cara não morreu…

– Eu também não, mas que o mar pode matar pode. Assim como o amor.

– Assim como o vento…

Calamo-nos novamente. Pedimos outra cerveja e a bebemos em silêncio. E a quarta, e a quinta e a sexta. Quebrei o silêncio na oitava:

– Sabe o que escrevi outro dia? Que estava enganado, que o mar não era o amor e sim, que o céu era o amor.

– Essa eu não vi. Explique.

– Na época em que escrevi não sentia que dizer ser o mar o amor era restringi-lo muito. Aí olhei para o céu e pensei: “isso é muito infinito” e, como estava no auge do amor, disse: “o amor é o céu”. Ele te envolve, te dá o ar, te faz viver. É azul – como o mar –, é lilás, é negro, ou seja, é felicidade, é amenidade, é treva. E creio que agora acertei na metáfora.

– É… – balbuciou Miguel um tanto confuso – desbancou meu vento…

Continuamos a beber. Eram cinco da tarde quando tomávamos a vigésima cerveja. Não conversávamos muito durante as horas passadas. Entornávamos diálogos de olhos encobertos por óculos escuros e monologávamos cada qual consigo mesmo. De quando em quando, uma saída estratégica para verter a cerveja no banheiro era o máximo de movimento brusco que fazíamos, quando não, era o esticar de braços para chamar o garçom.

Olhamos para os cascos amontoados ao nosso lado, os quais pedimos encarecidamente que os deixassem ali, como que para demonstrar a todos que aquelas cervejas bebidas simbolizavam a quantidade de lágrimas que não vertíamos por conta de nossos fins tão nobres quanto nossos egos.

Não estávamos de todo embriagados, apenas mais tontos do que o normal, talvez mais por causa da fome – não comíamos desde as nove da manhã – do que pelas cervejas. Pedimos uma porção de carne de sol e dois caldos verdes. Os devoramos rapidamente e decidimos por consenso que era hora de tomar algo mais forte. Pedimos duas caipirinhas só para adocicar um pouco nossas bocas e para iniciarmos com as bebidas quentes.

Tocava um chorinho no som do bar, afinal havia um revival do choro na atualidade e minha veia poética começava a acordar, desperta pela doçura do sopro da clarineta, pelo elegante espetáculo do pôr-do-sol que se produzia aos nossos olhos e pela sutileza do momento que o álcool provocava. Lancei mão de uma caneta e escrevi num guardanapo:

do mar só resta o espelho ao sol

ao vermelho que desponta

às quinze para as seis

do céu só resta ser o amor

e ser negro agora

ser-me luz difusa a um fim

Miguel leu em voz alta. Olhou para o céu e para o horizonte que ardia em hidroxélica paisagem lilás:

– Engraçado não termos pronunciado esta palavra até agora.

– Qual palavra? – Disfarcei.

– Fim. – Respondeu Miguel. – Será por medo de que não paremos mais de pronunciá-la?

– Não sei.

– Será que ela realmente existe?

– Pode ser como o começo. Será que ele existe, uma vez que pelo começo já se começa algo que vai ter fim? Ou talvez pelo fato de que, para começar, já se infere um fim?

– E o que é o fim, senão um possível começo não percebido?

– É… – Despenquei em nirvanicamente, não saber se pensava algo ou não. Olhava o horizonte (sempre o horizonte!) que se entorpecia de negrume e viajava nas notas do bandolim que chorava um chorinho muito triste, mas irremediavelmente esperançoso, como creio ser o chorinho: uma música triste, mas com uma esperança de que por si, por suas próprias notas, a felicidade há de se tornar possível.

Respirei fundo, engoli junto com um belo gole de caipirinha um choro que parecia querer se formar. Olhei a primeira estrela que despontava ao céu e fiz um pedido, recordando minha infância, onde sempre fazia o mesmo pedido. Pedia para namorar uma certa garota que nunca me dera bola. Como eu era (sou) idiota! Dessa vez pedi paz.

– Ainda fazes pedidos à Dalva? – Inquiriu-me Miguel.

– Não consigo parar de crer no mundo que forjei quando criança, ele ainda me é muito caro.

– É difícil nos livrarmos de nós depois de tanto tempo em companhia própria…

Depois desse lampejo psicanalítico começamos a observar que o bar enchia. Vários tipos: grupos em excursão, casais de todos os tipos, boêmios solitários virando uísques e mais uísques, amigos em férias de uma repartição pública qualquer… vários tipos por fim. Olhei a mesa ao meu lado e reparei duas moças muito simpáticas que tomavam algo que, creio eu, fosse Campari.

Uma tinha o cabelo muito negro e curto, quase raspado. Um rosto fino e pequeno com os traços um tanto quanto índios – uma dessas morenas irreais. Os olhos muito negros eram verdadeiras jabuticabas. Mas a boca é que se destacava naquele conjunto, o lábio superior levemente avantajado em relação ao inferior e ambos curtos. Não era uma boca que irradiasse desejo, mas sim lábios miúdos que denotavam paixão. Por fim, era uma morena dessas que não se vê em qualquer lugar: uma beleza que quase incomodava.

Sua companheira era uma moça deveras branca, sardenta, com um rosto comprido, parecia uma nórdica. Os olhos verdes muito claros e os cabelos ruivos, encaracolados e muito grandes aparentavam uma naturalidade não mais vista nos dias de hoje, onde qualquer um pode transformar-se em qualquer um (basta ter os requisitos necessários – $). Ela possuía um nariz tão perfeito que não cri quando o vi e até ele denotava ser natural a ela. Não posso dizer o porquê, mas tudo nela parecia ser realmente dela, nada implantado, pintado ou levantado e ela era imensamente linda.

Repensei minha primeira impressão e conclui que não só simpatia elas possuíam, mas profunda beleza também. Notem que uso o termo profunda beleza, não querendo dizer que estas fossem bonitas, mas sim que superavam tais conceitos, iam ao âmago, às profundezas da estética.

Fora o espetáculo que produziam àquele contraste, de peles, de bocas, de sorrisos; só se inferia um traço comum: as duas vestiam-se muito simplesmente. Vestidos floridos até a coxa, sandálias de couro e comportados brincos e colares hippies, nada de mais, mas um conjunto lindo com toda a certeza.

Olhei Miguel. Ele as olhava. Dei uma risadinha e perguntei:

– Há quanto tempo elas estão aí?

– Não sei. Realmente não sei. Só fui vê-las agora…

– O pior é que eu não olhei muito para esse canto. – Elas se encontravam ao nosso lado, mas do lado contrário ao mar e como se sabe, só víamos aquele horizonte aquático naquelas horas passadas.

– Será que pensam que somos veados?

– Espero que não… ou melhor, sei lá! Nos dias de hoje…

Comecei a reparar que a morena me olhava de quando em vez e eu fugia assustado quando via que ela me fitava, estremecia com aquele olhar. A ruiva também me encarava com um sorrisinho velado no canto da boca. Estremeci mais, meu ego foi às alturas: as duas me observavam!

Depois dessa pequena euforia inicial dei-me conta de que os mesmos olhares endereçados a mim tinham como destino meu companheiro Miguel, contive-me um pouco e perguntei:

– Será que ainda sabemos flertar?

– Não sei… acho que não se esquece. Né?!

– Sei lá, dez anos de fidelidade até de olhos… é difícil saber agora.

– Mas não é possível! Façamos o seguinte: vamos ficar observando mais um pouco, depois a gente age.

– Certo, mas vamos pedir um vinho também. Garçom! – E o garçom veio e nos trouxe a carta de vinhos. Pedimos um português seco que nenhum de nós dois conhecia. Caro, muito caro, mas felizmente aqueles eram dias de bonança e fartura, como nunca existiram antes ou depois.

Começava no palco o preparativo para um cantor que faria um show de voz, violão e mixers em cima de um repertório puído de MPB de boteco que agora, trinta anos depois de quando ele já havia se saturado, nos dava um repertório idiota, cheio de eletroniqueces estúpidas. Olhei aquele violão e pensei que deveríamos pedir para deixar-nos tocar uma música e em seguida a ofereceríamos às duas vizinhas de mesa. Contei a idéia para Miguel e ele se entusiasmou. Decidimos que ele cantaria e eu tocaria. Depois de um desacordo quanto a música – ele queria “Na ilha de Lia, no barco de Rosa” e eu “Rapte-me Camaleoa” –, optamos pela escolha dele.

Levantamo-nos e pedimos gentilmente para deixar-nos mostrar nossos dotes musicais antes do cantor começar sua apresentação. O moço do som não quis ser deselegante com os fregueses que mais lhe davam dinheiro naquele dia e permitiu que nos apresentássemos. Sentei-me à cadeira e Miguel ficou de pé. Tocamos e cantamos a música sem fitá-las. Por certo que só os músicos idiotas cantam olhando para quem se deseja. O olhar só deve vir durante os aplausos, pois assim se ganha mais pontos, afinal o objeto de desejo é contemplado por aqueles que são ovacionados (percebi que ainda sabíamos flertar). E assim o fizemos, declarando afinal que oferecíamos a música às duas vizinhas de mesa.

Voltamos confiantes. Havíamos tocado bem, não desafinamos, demos até um toque intimista à melodia. Estávamos com nossos egos beirando a imprudência. Sorrimos às moças e elas nos sorriram de volta, levantaram e passaram por nós como se não nos tivessem visto.

Àquele momento não entendi nada, senti uma vergonha profunda e fiquei vermelho qual pimentão. Olhei Miguel e ele estava um tanto desconcertado também. Rapidamente pus-me a pensar se teríamos perdido assim, tão rápido quanto foram nossos minutos de sucesso ao palco. Não, não era possível, estávamos confiantes… Cri que iria entrar numa de deprê, mas foi aí que uma voz feminina fez-se ao ar acompanhada de um violão suave:

– “Chega de tentar dissimular e disfarçar e esconder…”.

Olhei para Miguel e não me contive:

– Olha! São elas no palco!

– Não boto fé! Será que cantam para nós?

– Gonzaguinha irmão! Elas estão cantando Gonzaguinha para nós!!

– Não acredito…

E cantavam. A morena cantava e a ruiva tocava. Ambas magníficas, excelente técnica e apuro no toque pessoal. Eu me extasiava.

– “Não dá mais pra segurar: explode coração!”

As aplaudimos de pé, aí então finalmente elas nos olharam. Sentamo-nos e as duas vieram à nossa mesa:

– Podemos juntar as mesas senhores? – Perguntou a morena.

– E também as contas…? – Completou a ruiva.

– Será um imenso prazer tê-las por companhia – disse eu.

Sentamo-nos de maneira que não pensei ocorrer: eu e Miguel um de frente para o outro e as duas também, uma de frente para a outra. Um clima sem graça prostrou a todos e rimos um riso alto, daqueles que exorcizam situações constrangedoras.

– Nos apresentemos, não? – Perguntou a ruiva. – Meu nome é…

– Não! Espere… – Interrompi-a. – Desculpe, mas vamos fazer algo diferente, façamos o seguinte: quem estiver a sua direita escolhe um nome para você e assim por diante. Quando estivermos mais íntimos, se é que isso ocorre, não que eu não o queira, declaramos nossos nomes reais, ok?

– Gostei muito da idéia! – Disse a morena. – Comecemos pela Eli… ou melhor, por ela – aponta para a ruiva – e ele escolhe um nome para ela.

– Bem – iniciou Miguel fitando-a –, esses cabelos, esses olhos. Não sei, vou te chamar, ou melhor, vamos te chamar de Rita.

– Gostei – disse ela –, nunca fui Rita. Rita, Rita. – Ela repetia o nome como se fosse um eco. – Gostei: Rita!

– Agora sou eu. – Disse Miguel olhando a morena.

– Hum, deixa-me ver… que tal Milan?

– Como o Kundera? – Perguntou Miguel.

– Exato! Milan será teu nome. Agora o meu, vamos diga – e olhava no fundo dos meus olhos.

– Iracema.

– Uau! Virgem dos lábios de mel. Adorei! Pegou legal esse nome. Agora é você El… digo, Rita. Escolha um nome para ele.

– Pensei Moacir, quando você falou Iracema, mas não… não combina, esse nome traz muita dor, você não passa isso. – Ela pausou um pouco e depois continuou. – Que tal Menino do Rio?

– Excêntrico, mas confesso que gostei. Me deu até arrepio… – Falei tentando ser engraçado e todos ensaiaram uma risadinha de apoio. – Mi… – quis falar Miguel… – lan? Menino do Rio eu, quem diria?!

Naquele instante tive uma idéia. Peguei quatro guardanapos e escrevi os quatro nomes neles: Rita. Milan, Iracema e Menino do Rio. Sabia que a partir daquele momento, íamos representar um papel cada qual. Coloquei os guardanapos na frente dos respectivos atores e todos concordaram que era uma boa idéia. Olhei Miguel – agora Milan –, e sorri. Tenho certeza que ele compreendeu o motivo de minha risada.

Secamos o vinho e pedimos outro. Suave dessa vez, pois seco só agradava ao paladar de Rita e ao meu, sendo o doce um consenso.

– Vocês estão nesse hotel? – Perguntei.

– Sim. Hoje é nosso penúltimo dia. Só mais amanhã de curtição e domingo vamos embora. – Respondeu-me Rita.

– Pois então hoje e amanhã hão de ser dias de deixar a sincronia dos acasos guiá-las, não? – Perguntei encarando Rita.

– Com certeza – se adiantou Iracema –, o que vier há de ser bem vindo.

– Só uma curiosidade – perguntou Milan –, há quanto tempo vocês duas bebem aqui, digo hoje, nesse bar?

– Creio que chegamos umas duas horas depois de vocês – disse Rita –, porque vimos vocês lá no restaurante tomando o café da manhã e indo para cá.

– Fomos comprar umas lembranças – completou Iracema – e resolvemos vir aqui ver se encontrávamos vocês dois, mas convenhamos… vocês são bem lentos heim?

– Por acaso não nos viram? – Perguntou Rita.

– Não queria entrar nesse assunto agora, porque até a avistarmos, e isso era uma sete horas, nossas cabeças só pensavam em uma coisa…

Calei-me pensando que Milan completaria, mas surpreendentemente foi Rita tomou a iniciativa:

– Deixa eu adivinhar: foi o fim de um relacionamento?

– É tão óbvio assim? – Questionei.

– Só um pouquinho – disse Rita –, o tanto pra sentir o ar de dissabor em suas faces.

Esta Rita tinha alguma coisa de misterioso, um ar bem mais formal do que o de Iracema e aparentava uma sapiência maior que qualquer um de nós. Ainda não sei porque pensei isso, mas tinha quase certeza naqueles instantes. Provavelmente era por causa do seu olhar. Era arrebatador e ao mesmo tempo suave, como se soubesse o que emanar a cada instante, em cada situação.

– Como sabe? – Perguntou Milan, referindo-se ao fato do fim.

– Fora a cara de desengano dos dois, escutávamos a conversa de vocês e ouvimos quando falaram sobre pronunciar ou não a palavra fim. – Explicou-nos Rita.

– Como duas lavadeiras mui atentas! – Acrescentou Iracema.

– E nós, dois burguesinhos idiotas chorando dores de amores! – Riu-se Milan.

Conforme o tempo corria, o papo ia ficando mais amigável, ajudado pelo vinho, pelo bom tempo que soprava uma brisa fresca, pela lua que crescia e principalmente por Iracema que sabia ser muito engraçada. Nunca havia visto uma mulher com tamanha facilidade para fazer os outros rirem. Riamos muito. A noite prometia muita coisa, nem pensava em fim. Tudo parecia começar de novo.

Aquelas duas eram muito especiais, não se encontra uma dessas a qualquer hora e em qualquer local. Tenho certeza de que há dez anos atrás me apaixonaria pelas duas e viveria em constante aflição até que uma decidisse por mim. O engraçado era que naquele momento eu não havia sequer escolhido uma para um flerte mais direto. E mesmo assim, queria que a noite terminasse com uma das duas ao meu lado numa cama, como que para mostrar que mesmo após o fim eu ainda estava vivo, que poderia ter tudo sobre controle mais uma vez.

Eu olhei para Milan e ele parecia dizer o mesmo. O bar já ia fechar e fomos ao banheiro, aproveitei para conversar com Miguel e não com Milan:

– E aí, gosta de alguma?

– Vou te confessar uma coisa, as duas são lindas, inteligentes, interessantes, mas eu preferia ir dormir.

– Não sei. O que ganharíamos indo dormir? E o que perdemos indo?

– Mas e vice-versa?

– É, ta. Vamos fazer assim tentemos nos interessar por uma especificamente, se até as duas não der, vamos embora, OK?

– Eu fico com a Iracema.

– Como?!

– É, já que é assim eu quero a Iracema.

– Tudo bem, tudo bem… acho que a Rita é uma boa companhia esta noite.

Saímos e pedimos uma garrafa de uísque, fomos procurá-las e quando as encontramos elas estavam com uma de vodka em mãos. Rita dizia saber onde haveria um show e que ela colocava todo mundo para dentro. Entramos no carro de Iracema, Milan ao seu lado e eu e Rita brincando de palitinho com a vodka no banco de trás.

Chegamos ao local pretendido ao show, mas não havia movimento algum. Rita desculpou-se, crendo não estar mais certa do dia do evento. Elas então sugeriram uma praia mais longe do burburinho caótico dos centros e nos deslocamos a uma praia a uns vinte quilômetros de onde nos encontrávamos. Não era uma praia muito grande, mas era limpa e bonita. Havia algumas rochas nas proximidades e a água estava calma, mansamente servia de espelho aos céus. Perto de onde estávamos havia restos de uma fogueira, Milan e eu juntamos mais alguma madeira que por perto se espalhava e acendemos a fogueira. Iracema tirava um violão do porta-malas e começava a afiná-lo. Rita molhava seus pés na água. Eu deitei-me ao lado da fogueira e olhei as estrelas, suspirei fundo e me forcei por crer: “a vida ainda é”. Milan sacou de sua gaita e entoou uma melodia deveras melancólica, mas muito linda. Notas límpidas, um som claro, nada de conturbação de iniciante. Com certeza ele estava praticando muito depois de seu fim.

Rita aproximou-se, sentou-se ao meu lado e deitou-se em meu colo. Contemplei aquele rubror capilar e afaguei-lhe os cachos. Iracema acabava de afinar o violão quando disse:

– Tenho uma idéia. Cada um vai cantar ou tocar uma música e depois diz o motivo pelo qual escolheu, OK?

– Boto muita fé – disse Milan –, eu começo. – Ele pegou o violão e começou:

“Eu já esqueci você, tento crer

Nesses lábios que meus lábios sugam de prazer

Sugo sempre, busco sempre a sonhar em vão

Cor vermelha, carne da sua boca, coração…”

Ele cantou como nunca o vira cantar antes. De certa forma entendi o porquê daquela música, mas eu queria ver o motivo que ele daria àquela música. Sabia que quem estava na memória de sua pele naquele instante era Marisa e seja lá o que ele falasse negando isso, seria mentira.

– Uau! Arrepiei até. Não conhecia essa música – disse Iracema em tom de entusiasmo –, quem canta?

– João Bosco, a música é dele e do Wally Salomão – explicou Milan –, eu escolhi essa música porque creio que você pode dizer que vai esquecer as coisas, relegá-las à poeira que se vai com o vento, mas dentro de você, na sua pele, nada se apaga. E eu não quero apagá-las de minha pele.

– Nossa! Profundo… – falou Iracema pedindo o violão –, não conheço muito João Bosco, mas vou tocar uma que, pelo menos para mim, não perde em nada para esta, é mais ou menos assim:

“Já te vejo sair por aí

Te avisei que a cidade era um vão

Dá tua mão

Não faz assim

Não vai lá não…”

Cantou com maestria Chico Buarque. Aplaudimos-na de pé:

– Obrigada! Mas diz se essa música não é bem atual: as vitrines, a luz, a cidade, é só um vão… sei lá, adoro essa música. Acho que hoje, dois mil e dezessete já… está bem atual.

– É uma das minhas preferidas do Chico – disse eu –, se não, “a” preferida. Agora é você Rita.

– Bem – levantou-se de meu colo e pegou o violão –, lá vai:

“Todos acham que eu falo demais

E que ando bebendo demais

Que essa vida agitada, não serve pra nada

Andar por aí, bar em bar, bar em bar…”

Com toda a certeza, essa havia sido a melhor: triste na medida, nem forçada, nem desmedida, nem faltando. Foi o “Demais” mais na medida que já escutei em toda a minha vida. Quase sussurrado, mas ainda assim gritado como uma cantora de jazz dos anos cinqüenta. Genial! Contive-me e disse:

– Nem precisa explicar o motivo. Depois dessa interpretação…

– Eu também nem iria ter mesmo… – disse Rita voltando ao meu colo –, mas agora é você Menino do Rio…

– Hum, deixa-me ver, eu pensava em uma música, seria “Trem das cores” do Caetano, mas pensei outra que, não é que me agrade mais, mas com certeza me marcou a infância. Vou explicar o motivo desde já – me desculpei –, tinha eu uns dez, onze anos quanto me encantei por três cantores em especial: Chico, Raulzito e Cazuza. Minha mãe tinha uns vinis lá em casa e eu os escutava quase todos os dias e uma música me marcou muito, ela é algo assim:

“Perto do fogo, eu queria estar perto do fogo, umbigo de um furacão e no peito um gavião…”

Cantei à capela, sem violão. É óbvio que cantei aquela música em especial não só por me ter feito recordar minha meninice, e sim, pois mesmo com trinta e cinco anos, minha meninice continuara quase intacta. Escolhera aquela música sabendo que o “eu quero ser uma flor nos teus cabelos de fogo” comoveria Rita a ser-me por àquela noite, como certamente ela já era. Assim, necessidade não havia em brincar com o quer dela, mas brincava.

Sentir desejo de a ter realmente eu não sentia, era mais algo de conquista simplesmente, ou de adentrar em relacionamento perigoso só para me machucar e ver o quão vivo me encontrava, pensava em fazer aquela pequena apaixonar-se por mim estando eu indiferente, só para ver do lado de fora o que se passara comigo até o fim que amargava ainda em minha boca. Ah, meu espírito maquiavélico estava prostrando-se em mim, queria ter poder em minhas mãos e usufruí-lo da melhor (ou pior!) maneira possível.

Milan e Iracema levantaram-se e foram para beira do mar, ficamos sozinhos eu e Rita. Ela me olhava estranho, parecia estar triste, mas não uma tristeza de falta de seratonina no cérebro, ou algo como lágrimas de álcool: ela parecia triste por mim. Não me pergunte como sei isso, mas sentia assim. Ela me olhava com olhos de mágoa: cheios de amor, arrependimento, amargura e lágrimas. Algo em mim a deixava triste.

– Você quer ser uma flor em meus cabelos de fogo? – inquiriu-me ela – Ou quer somente brincar?

Engoli o que ela disse e quase ia proferir mais mentiras. Quase lhe disse que ela estava me ofendendo com aquela pergunta, mas me contive. Falei:

– Ia mentir, mas vejo que não merece. Realmente estou aqui como num grande jogo. Há poucos minutos deu-me uma vontade de te ter em minhas mãos, como um bebê, que lhe dá toda a necessidade de amor e cuidado. Queria que você se apaixonasse perdidamente por mim.

– Seu bobo! – Falou Rita já com um sorriso ao rosto. – Não vê que apaixonada eu já estou?

– Como?! – Perguntei visivelmente assustado.

– Não percebe? Desde o primeiro momento em que te vi eu te amo, talvez desde antes, pois já predizia tua existência. – Disse ela ficando cara a cara comigo.

– Você está brincando, não?! Que conversa esquisita…

– Te digo que antes de qualquer coisa, não foi amor à primeira vista. Não creio nestas besteiras. Foi amor à primeira sentida, entende? Assim que te senti, te amei: fácil e indolor. Só doeu agora há pouco, quando senti que me mentia.

– Não estou entendendo… – Pensei que ela estava embriagada, mas na realidade, embora já tivéssemos bebido deveras, ela não aparentava. Então começou a me olhar no fundo dos olhos, parecia querer entrar na minha alma, acariciou minha face e me beijou. Beijei-a também. Entreguei-me. Foi um beijo confuso, intenso. Ela tinha uma boca suave, esse era o termo, não uma boca de lábios macios ou molhados, mas suaves – leves –, e ao mesmo tempo, de uma intensidade tão forte que senti um calafrio na espinha.

De repente ela parou de me beijar, eu continuava de olhos fechados e de boca semi-aberta tentando entender tudo o que passava. Quando abri os olhos, vi um sorriso tão puro que quase acreditei que ela me amava. Deitei na areia e fiquei olhando o céu. Passou uma estrela cadente, tentei fazer um pedido. Não consegui.

– E então? Ama-me agora? – Perguntou ela deitada em meu peito. – Ou pelo menos acredita em mim?

– Não sei, não estou entendendo nada. E também não faço força alguma para entender.

– É, as vezes, não é preciso se entender as coisas – ela falava pausadamente acariciando os cabelos do meu peito. Por vezes só se complica tudo ao meter a razão onde, por momento, ela não merece ter vez. Amo-te. Simplesmente isso basta.

– Sei lá… – balbuciei esta fuga afagando-lhe os cachos.

– Aquilo que você falou um tempo atrás, sobre o amor… acredita daquela forma? O céu, o infinito… até arrepia pensar.

– Sim, a quantidade de mistérios existentes nas profundezas do mar é elevada ao infinito no céu. E amar é um mistério muito grande. Olhe você, por exemplo… embora creia eu – me contive um pouco –, você esteja brincando comigo.

– Assim você me magoa! – Falou ela visivelmente transtornada apoiando-se sobre os meus braços e a me olhar. – Não vê que eu te amo demais para suportar esse tipo de insinuação?

– Não vê que dá medo?!! – Bradei com ela.

– Calma meu Menino do Rio, não quero te assustar, longe disto… só quero demonstra meu amor. Quer que eu lhe dê alguma prova?

– Não precisa…

– Mas mesmo assim eu vou dar. – Levantou-se. – Sabe nadar?

– Sei.

– Dou-te minha vida neste então. – Tirou o vestido e nua foi para o mar. Não entendi nada. Fiquei olhando ela entrar ao mar. Ia adentrando, adentrando… até que sumiu. Assustei-me. Levantei e cheguei mais perto da água. Olhei ao lado e não vi os outros. De repente desponta Rita berrando por ajuda, dizendo se afogar. Hesitei um pouco, mas percebi depois que não era brincadeira e me atirei ao mar. Pensei um monte de besteiras ao mesmo tempo: que uma mulher se atirara ao mar por minha causa, que ela me amava, que ela brincava comigo, que eu era um idiota, que eu que deveria morrer… Quando cheguei até ela percebi que ela realmente havia se afogado, e com muita força a levei até a praia. Meus músculos estavam exaustos e fiquei tonto por instantes. Ela tossia muito e parecia fraca.

– Você é louca?!!! – Perguntei eufórico.

– Desculpa, eu não sei nadar…

– Meu Deus do céu! Por que você fez isso?

– Eu te falei, queria te provar o meu amor. Dei-te minha vida e você a aceitou. Você está a um passo de me amar também.

– Não! Você é louca! Eu nem sei mais o que penso.

Fiquei olhando aquela garota nua, molhada, respingando água, tremendo de frio e dizendo me amar. Beijei-a na boca e ela me abraçou forte. A levei para a fogueira, dei-lhe o vestido e fui ao carro buscar um agasalho para ela e para mim. Quando voltei, ela estava sentada com o queixo sobe os joelhos dobrados e contemplava a fogueira que ainda ardia. Juntei mais alguns gravetos e coloquei também uma tora grande de madeira para aumentar o fogo, ela estava um pouco verde e começou a estalar forte.

– Adoro o fogo. – Disse a ela quando me sentei ao seu lado. – É algo muito forte. – Parei e me recordei de um verso: – “Amor – chama, e, depois fumaça…” – citei Bandeira e a abracei –, tem certeza do que dizes?

– Nunca amei ninguém como te amo agora… cada amor é um amor.

Ela me abraçou e beijou meu pescoço. Arrepiei. Beijei-lhe a boca novamente e seus lábios leves levaram-me a pensar em amá-la também. Que fosse por aquela noite somente, mas amá-la como nunca amei alguém. Foi aí que me lembrei de Ângela. Mulher louca. Mais louca que essa Rita. Ia do amor ao ódio num piscar de olhos. Era assim que eu sentia com Ângela. Ela me amava com o amor mais belo do mundo às segundas e me odiava como o diabo à cruz nas terças e assim se passavam as semanas até que chegava o domingo, dia certo para a indiferença.

Lembrei desse amor louco e fiquei um tanto com raiva de mim. Agüentar dez anos dessa loucura não faz bem a nenhum ser humano. Misturando a essa raiva ouvi essas duas palavras vindas da boca de Rita:

– Te amo.

Tão suaves quanto aqueles beijos que nós produzíamos. Tão leves como aqueles lábios. Tão verdadeiros como seus olhos. Pensei comigo: “acho que a amo”, depois estranhei: “devo estar louco”. Mas depois desdisse: “ah, que se dane, vou amá-la” e a amei deveras. Abracei-a ao meu peito e perguntei em seu ouvido.

– Qual teu nome Rita?

– Elis.

– Nossa… lindo. É o nome da minha terceira filha.

– Você tem quantos filhos?

– Quatro: Gabriel, Ravi, Elis e Lia.

– Não aparenta… onde eles estão?

– Com a mãe.

– Com o fim?

– Justamente. O fim de uma vida vivida, passada e esperada. Ou não!

– Por que “ou não”?

– Porque a vida que vivíamos eu e Ângela, já está dentro de mim, já me faz. Ela não acabou. Ângela já me é.

– Eu não me importo. Sou bissexual mesmo… – E Rita, ou melhor, Elis, deu uma risadinha gostosa e beijou-me de novo. Comecei a cochilar e num clima de sonho, via Elis flutuando e lhe disse:

– Elis… também te amo!

– Eu sei… – disse ela me acariciando a face. – Mas qual é o seu nome?

– Ah sim, é Vinícius.

– Vinícius. – Ela disse meio balbuciando. – Vinícius… Vinícius… – Repetia como um eco.

* * * *

Dormi profundo. Acordei meio zonzo do álcool passado, olhei ao redor e não encontrei ninguém. Sentei-me na areia e percebi então como estava frio. As nuvens encobriam o sol, o mar estava nervoso e o vento forte jogava cinzas em mim. Levantei e fui até o carro. Não estava lá, só vi Milan, ou melhor, Miguel sentado em uma pedra.

– Irmão! Que noite! Que noite! – Bradava Miguel. – Há quanto tempo não vivia uma noite dessas!

– É… – respondi seco. – Cadê as garotas?

– Eu não sei. Saí com a Raquel…

– Raquel? – O Cortei.

– Sim, a Iracema se você quer assim. Saí com ela caminhando pela praia. Trocamos confidências, tocamos violão e gaita. Discuti jazz… você noção disso? – Perguntou-me eufórico. – Discuti jazz! Hoje em dia isso é raro. Cara, estou apaixonado.

– Mas onde elas estão?

– Não sei. Agente fez um sexo louco nas areias, no mar, nas pedras, aí depois eu dormi. Quando acordei não encontrei mais ela…

Caminhamos um bocado e nos certificamos de que nossas carteiras estavam intactas. Confirmado que elas não eram ladras, continuamos a caminhar. Alguns quilômetros à frente, conseguimos uma carona. Miguel não conseguia parar de falar de sua pequena Raquel, tão linda e inteligente e como ele não pudera fazer nada, a não ser se apaixonar. Estava tão empolgado que nem se lembrou de me perguntar como tinha sido comigo. Não liguei. Não estava a fim de falar. Chegamos ao hotel. Só uma coisa se passava na minha cabeça: Rita, ou melhor, Elis.

Fui para o meu quarto e tirei a roupa. Tomei um banho demorado para tirar a areia, as cinzas e o sal do corpo. Quando voltei do banho peguei minhas roupas e vi que no bolso do agasalho havia um bilhete de Elis. Dizia assim:

Meu Menino do Rio Vinícius,

Assim como o amor veio, foi.

Não te amo mais (você já me faz).

Se quiser me encontrar algum dia o endereço está atrás.

Beijos,

Elis (Rita dos cabelos de fogo)

Li o bilhete umas dez vezes. Não acreditava. Olhei o endereço no verso: Salvador. Nesse instante não pensei muito.

* * * *

Metáfora.

Ah viver de mar! Quem dera entrar, nadar, afogar e ficar boiando novamente…

Ah viver de céu! Quem dera voar, cair, levantar, alçar vôo novamente…

* * * *

Peguei o telefone e liguei para o quarto de Miguel. Acordei-o:

– Miguel?

– Fala…

– Arruma as malas.

– Por que?!

– Vamos para Salvador…

Um comentário em “Metáfora

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