Platonismo

Uma história sempre começa de um ponto. A não ser a própria História que não se pode principiar, mas que invariavelmente teve um início. Essa história que ele começava, aparentemente não havia começado. Poderia ter sido uma frase dita sem pensar, ou um olhar que cativasse o fragmento de um segundo qualquer, mas até o momento não era possível identificar o começo, o alfa dessa história.

Havia ela e havia ele. Um bom começo já, mas não “o” começo. Poderia ter sido no dia do festejo de uma criança qualquer, mas não. Não teria se principiado algo naquele dia. Ela ainda deveria estar imiscuída que fosse com sua vida sem ele e ele era só uma completude despretensiosa com alguém bem pequeno.

Quem sabe teria sido no contemplar de uma vida nova e entre algumas cervejas e uma amiga? Mas também não. Aquele dia não merecia tanto sentido para começar algo, aquele dia era algo como um simples dia, desses que não se principia nada.

E o terceiro encontro dos olhares? Haveria algo naquele dia em que a inteligibilidade ficou bem lá atrás? Um pedido de socorro estranho, um convite aceito sem paixão, um encontro surgido às vésperas da madrugada. Teria este conjunto de fatos iniciado a história que se passava nele?

A uma análise mais atenta, talvez pudesse ter sido o início, principalmente pelos fatos ocorridos após o encontro (ou a própria continuação do encontro): o diálogo, o riso, o pensamento, a audição do silêncio, a cama e o sono compartilhado, o enlace de pernas… Mas não, não era aquele o início. Aquela já era uma continuação de algo feito.

Talvez tivesse sido durante o beijo. Um encontro planejado, o desencontro grupal e o pedido providenciado: outro sono compartilhado, o sexo tenso e frustrado, a noite ao lado e a manhã de afago. Mas não era aquele o início ainda. Com certeza não.

Ele lembrou-se então da noite continuada em que o máximo contato foi o pedido: “Posso segurar a sua mão?” e que durara não mais que dez segundos – e ele se lembrava bem que havia sido dez os segundos passados entre o contato sugerido de uma mão sobre outra mão. Nesse dia foi forjado o mito do perigo e não havia chance alguma de querer ver nesse a aurora dessa história. Esse dia já era a própria história se elaborando, se completando, se trançando em vias inesperadas.

O ver-se casual de uma manhã atípica poderia ter tido muita coisa de um primeiro raiar, mas ainda sim ele apenas se silenciava. Vê-la em trajes simples, vestida de verde tinha sido algo muito bom para ele: sabê-la de outro jeito. Mas a ela o fato não havia sido bom e poderia até ter se configurado em experiência traumática. Disso tudo já se pode tecer que essa casualidade não seria o ponto nevrálgico de toda essa história.

Ele se esforçava por tentar lembrar – ou quem sabe sentir – onde estaria o início. Pensou então no último. Só conseguia ver novamente o estado de perturbação plena sentida num misto de corpo falido e álcool nas veias. Muitas coisas ditas e um universo de coisas mais sentidas e caladas. A mudez dos sentimentos consciente, pois que o perigo de desestabilizar o mundo dos outros é um fardo por demais grande para se carregar. Daí ter sido esta última uma noite falada e muda.

A constatação desse último encontro nas palavras ditas por ela, onde a maciez de um passado ainda vivo se fez tão doce, acolhedora e afetuosa, foi tal, que ele acreditou findo o fato supostamente não iniciado – ou pelo menos não encontrado até então – e, ao mirar o passado frente a frente, foi como se o início não pudesse ter sentido algum e foi justamente nesse dia que ele começou sua história.

Ele chegou em casa cansado, um corpo inerte sobre o chão, um som qualquer passando despercebido por seus ouvidos, a cabeça tentando compor uma história que fosse plausível e a revelia plena de um significado possível.

Escreveu um bom tanto nesse dia e viu que realmente era esse o início de sua história: um porvir de sentimentos que se desenrolava só nele, enquanto ela se ia com seu passado – vivo.

E logo ele que era existencialista.

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