2432. Noturno

No fundo eu tento acabar com essa tristeza
acariciando os cacos da garrafa de pinga
quebrada dentro da bolsa

beijando voluptuosamente o ar que ainda resta
dentro da noite

sumindo dentro
subindo fora

liquefeito nos poros da noite
percolado nos vãos da terra firme
erosivo e turbrilhante morrendo a carne
feita água
sob o véu esperado da noite

2430.

quero sim perder
o que me restou de cabeça
e viver qual mula sem
meio cavalo meio homem
seta em riste ao alvo
impossível
troteando léguas
impossíveis
sem cabeça mesmo
fogo nas ventas
para encontrá-la
dentro de si mesma
e convidá-la a passear
pelos rumos do impossível
mãos dadas numa noite
possível
compartilhar-te toda parte que se pode
desse meu mundo de alguém
sem cabeça

2429.

que desgosto esse entulhado nos olhos
quase a desabar tudo por sobre a cara
a doer nos poros da noite
deixando o desejo para algum dia

que anseio faltoso faiscando os ânimos
desbotando toda cor do dia
pesando o universo às costas vagaroso
e essa distância que só lateja o desejo

2420.

Por amor ou euforia
Queria saber fazer coisas
Que me fizessem querer
Fazer tudo de novo

Não fiz

Agora faço o que se pode
Na tentativa de não
Se perder mais o prumo
Do que se poderia

E grudar o que se pudesse grudar
Brechando onde desse
Fazendo o que se pudesse
E quisesse
E podia
Isso mesmo que pedia
Cálido
Ainda que calado
A feita

2415.

tem gente que não dá pra engolir
talvez seja um lance de santo que não se bate
de astro que não se casa
ou de acaso mesmo do mundo
mas fato é que tem gente
que não deveria muito existir
talvez só existir meio
existir pouco
no máximo um tanto
mas fato é que existem esses que
não são tragáveis
esses tão intragáveis
– palavra boa que ela proferiu em boa hora –
aí a gente toma uma cerveja
se lança de corpo e alma sob a mesa
e pensa:
quão preciso é esse ser de bosta
que acha que não ter dignidade própria
é o objetivo de qualquer vivente
sob a terra?

Nova Olinda/CE

2411. Levando a noção de beleza ao patamar do desassossego

Sua beleza dói
e é por isso
que eu discordo
do paradoxo
entre prazer
e dor.
Sua beleza
é agressiva
ela explode a
qualquer tentativa
de se olhar.
Sua beleza maltrata,
pisa de salto alto
na cara.
É uma não possibilidade
que existe.
E eu me pego
desacreditado,
pois que pode ser
real a mais profunda
utopia da boniteza.
E isso deixa
como louco qualquer
humano sonhador
e esperançoso.

Por que diabos
mesmo que você existe?

Nova Olinda/CE

2410.

Eu tão índio
e você tão Mara
filha da Jurema
inebriando olhos
ouvidos, todos os
miolos,
com essas pupilas
de arco e flecha
seduzindo,
consumindo todo
o possível.
Mara você
dos cantos gerais
índia com olhar
de açude
azul-gris-de-morrer.
Beleza que nos
dá tapas na cara
e estocadas no coração.

Nova Olinda/CE

2409. Reagrupando sentidos

O primeiro passo
é saber-se só
retirar as muletas e
os óculos e
caminhar de cabeça
erguida

Depois se ama o mundo

Percorre-se uma
avenida vazia
de madrugada
contanto cinzas
e cortando o
vento que assinala
nos ouvidos

Aí vem o recaber
inteiro em uma
cama
o liquifazer-se
pelos cantos
o derreter-se
pleno dentro de
um dia quente

Tem que se debruçar
sobre as nuvens
e reaprender os
nomes das plantas

Sugar palavras
num momento de
imprecisão
tomar fôlego para
o tremor necessário
e sair cantando
pelo ar todo:

“nesse calor é bom
salada de manga
com abacaxia
manjericão a terra dá
alecrim a terra chia…”

Nova Olinda/CE

2408.

o bonito do
amor eterno
deve ser enxergar
naquela ruga
a certeza de
que, passado
tanto tempo,
a pessoa é

e é essa mesma
que te atinou
a cabeça
tanto até o
ponto de querer
dividir rugas

deve ser ver
na pele gasta
e mais áspera
a mesma pessoa
aquela pessoa
essa mesma
que está aí
na sua frente

metamorfoseada
pelo tempo
com rugas que
sejam

marcando como
num mapa
cada movimento
sentido
e trilhado
nesse ímpeto
de amor
e vida envelhecendo

Nova Olinda/CE

2402.

Dimensionar o corpo para que ele
se percole pelos poros do espírito
Turbilhar o sangue para que ele
percorra os rincões do espírito
Domar os genes para que eles
permitam o para além cármico do espírito
Dialogar com os hormônios para que eles
ponderem o momento de socar o espírito
Despencar para as entranhas para que
se imiscua esse resto todo com
esse todo resto do espírito

Nova Olinda/CE

2397.

não durmo
como se o urro
desse mesmo erro
gritasse ao peito surdo
ribombar em caixa de ferro
sentir tremer a caixa calcárea
envoltório de armazenar ar
grade óssea do coração
escada que sobe para
a engrenagem decisória
de sentir ou se ater à sensação
não podendo com a paródia
de algo como felação
relação torpe enganada
esganada na boca da entrada da saída
de ser algo maior

não durmo
em suma, sumo
solto no supra-sumo
da acidez da fruta em sumo
aziática percepção no estômago
trilhando subida qual junto à escada
escarro e frêmito
no vômito amaro do amor mor
te engastalhando em vibrações
epasmódicas quase no ritmo
de um músculo involuntário
voluntariosamente abnegado
em negar que passa mal