2185. Sabe?

A gente nem
sabe
em que fim
de tarde
é que a vida
vem e vaza
pelos poros
da noite
até sangue
ser pelas
veias e
supurar o
corte do
açoite

A gente nem
sabe
quando isso
basta,
se abate um
alento de
que a vida
lenta pare
e toda noite
nunca seja
tarde

A gente nem
sabe
porque o
coração,
por si só,
bate

Tangará da Serra, MT.

2175. Poema sobre a totalidade da eternidade em paz VIII

Todos esses
desejos,
os ensejos,
primeiro
e último beijo,
os anseios,
os seios,
os segredos,
os medos,
realejos

Todo o desleixo,
o caído queixo,
os receios,
os enleios,
e os maneios,
aqueles trejeitos,
os sujeitos
o bem, bom, mau e mal feito,
todo o reino,
os pedaços de queijo,
o mergulho nos veios,
os selos,
os pêlos e os pelos,
os inteiros e os meios,
o derradeiro,
o esteio,
o que creio
e o que leio

Tudo aquilo
que veio
acaba a sete palmos,
sentido X
do eixo

2169. Poema sobre a totalidade da eternidade em paz II

Um toque que
quase consegue
captar a própria
existência numa
fração de segundos
condenada ao
espaço entre uma
partícula e outra
a não se tocar
infinitamente

Cabe tudo nesse quase
como o que é
como uma onda
e matéria
inerte mas
à velocidade da luz

A onisciência no fim
Uma língua tesa
entre o sorvete e
a impressão
do doce gelado
Um toque que
não consegue
nunca ocorrer

A ciência de um
fim sem começo

2148.

As coisas não
podem ser assim
sem motivo

Nesse mundo
de imagens
mais reais
que sua pele

De idéias
com mais
materialidade
do que o aço

Não
Não nesse mundo
Não sem motivo
Notívago
Não vago

As coisas
tem que ser
motivo, mesmo
que cínico,
mesmo que tímido,
mas que se tenha
um motivo

De vazio o mundo
já está pela tampa

De sem sentido
o mundo já é
todo sentido

Tem que haver
pra que
Tem que ter
pra onde

Antes que o amanhã
descambe em
ontem

Um ontem
de 1 bilhão
de anos antes

2145.

São lilases suas pernas
que percorro calmamente
e tua voz francesa
é poente, agradável e viva
como se parasse
o tempo em sua língua

Nos intervalos comerciais
e em todo interlúdio musical
eu coro à contemplação
dessa música do Djavan
que toco suavemente
até chegar em teu mister

Eu sonho
e cada vez mais
você é o absurdo,
condição que me faz
ficar no mundo
ainda apenas para
tocar o timbre dos
teus tons
Essa poética vespertina
que embaralha as retinas