1289.

Falta o um real para
o hambúrguer com
salmonelas da rodoviária,
falta eu definir o que é
a vida e re-significar
o que seria morte,
falta eu vislumbrar
que o espaço e o tempo
cristalizaram o meu ser
sem história,
falta eu adentrar na
fresta de luz que borra
a noite,
falta um pouco do
que falta,
para que a aparência
seja mais que o
infinito.
Talvez falte eu, mas
ainda não me apercebi
da falta.

1285.

Passava um homem
feito com seu rádio
de pilhas ligado,
escutava as notícias
como algo perdido no
tempo, como uma rugosidade
em movimento.

Quando vi o carro
que vendia leite,
quase vislumbrei o
meu estado de passado
eterno no rosto.

Desci da vida para a volta.
Como em 1960.

1263. Pirenópolis IV

Talvez fossem os encontros
que se fizeram tão bem
Talvez fosse um som
envolvendo passos que nunca
tinham compassado
Talvez fosse a cerveja
ansiada em um bar mais calmo
Talvez fossem histórias
que se deixavam contar
Talvez fossem as pedras
das ruas que não deixavam
o corpo flutuar em qualquer lugar
Talvez fosse o sono à tarde
e o sexo no chuveiro
Talvez fosse a embriaguez,
mel, frio, calor e torpor
Talvez fôssemos amantes,
amigos, conhecidos, vizinhos
Talvez, quem sabe, talvez
tudo isso se encontre novamente
e o desencontro seja só
mais uma lembrança qualquer
no limiar de ser esquecimento

1250.

Nada mais que um problema a mais
É o que eu carrego nas mãos
Sem dádivas, dívidas, dúvidas
Só um parco, pobre, pardo coração

Nada menos que a média geral
É o que me difere da multidão
Quando ando pelas ruas sou um vulto
Que em nada se difere do vão

Nada de cores em dores de seus tons
Só uma figura cinza no campo da visão
Mais esses meus passos apressados
Descompassando ato e sensação