Talvez Adélia parecesse
um mosquito e zunisse
em luz tudo aquilo
que eu preciso.
Autor: Guilherme Carvalho
1291.
Se eu me deitasse na
bandeira do Brasil
e já possuísse o poder
de ter poder sobre alguém,
talvez naquele lugar,
talvez lá, eu tivesse
mais que o gosto de
ressaca na boca e
resguardasse algumas
sobras de sonhos para
depois do almoço
(self-service, é claro).
1292.
A inteligibilidade dos meus
atos fica no que vago,
no que não faço.
Entre a minha intenção
e o meu ato, nada
mais que tudo claro.
1288.
Queria ser como
as fotos apagadas
dos meus pais,
contornos mal definidos,
cores borradas,
lembranças de nostalgia
fixadas em papel.
Quem sabe assim,
eu me assentaria
melhor em mim.
1289.
Falta o um real para
o hambúrguer com
salmonelas da rodoviária,
falta eu definir o que é
a vida e re-significar
o que seria morte,
falta eu vislumbrar
que o espaço e o tempo
cristalizaram o meu ser
sem história,
falta eu adentrar na
fresta de luz que borra
a noite,
falta um pouco do
que falta,
para que a aparência
seja mais que o
infinito.
Talvez falte eu, mas
ainda não me apercebi
da falta.
1290.
Não adianta meu
amigo, você vai ficar
com essa cara de
umbigo e ela com
esse ar de “por que
eu fiz isso?”
1286.
Não não te amo
Te amo, pois, assim,
deixando a minha
face no primeiro
leito turvo do
esgoto corrente
1287.
É sempre assim,
chego na hora certa,
faço morada num
regato e vou-me
embora de repente,
querendo que nem
o nada sobre.
1284.
Minha imagem é o não
conforto, um estado
um tanto morto,
o muzak absorto.
1285.
Passava um homem
feito com seu rádio
de pilhas ligado,
escutava as notícias
como algo perdido no
tempo, como uma rugosidade
em movimento.
Quando vi o carro
que vendia leite,
quase vislumbrei o
meu estado de passado
eterno no rosto.
Desci da vida para a volta.
Como em 1960.
1282.
Eu enumero o céu
pisando palavras
no papel.
1283.
Ser a última escolha
da companhia de
um banco,
é certo que eu
mesmo mereça tanto.
1279.
Desculpe-me a existência
mal acomodada nas partes,
mas é que eu sucumbi antes
mesmo de ser.
1280.
Maldita a minha
condição de macho
que comprime as
mulheres no banco
ao lado.
1281. L (“E” para os anglicanos)
Esquece-me
Apaga-me
E a volta pra
casa
é o pior
dos martírios
1278.
O sonho se sucumbe
no ônibus das dez:
meia-hora de espera,
meio mundo de idéias,
meia vida inteira.
Entre eu e o último
degrau da plataforma
da rodoviária,
não há nenhum acaso.
1276.
Não me faltam pais
Vacila-me a paz
1277.
Vago,
o ato,
mas
válido.
1274. Solução I
Não me ative.
Parado estive.
Se quiser, duvide.
1275. Nem nirvana
Calar a mente
até que sobre
nem a inteligibilidade
do que se sente.
1272.
Sempre desconfie das
manhãs, é sempre um
esse algo luminosamente
esperançante demais.
1273.
Por aquela utopia
eu meus sonhos
rompia.
1270.
O sol repousava na parada
esperando o ônibus
e segurando sua pastinhas,
suas sardas eram lindas.
1271. Cerrado cá
Se pudesse resumir
isso tudo diria:
verde e azul.
1267. O pouco
Levar os fatos como
indícios de uma
anti-história.
Reverter qualquer
ímpeto dialético
em paz.
Abrir os braços
com coragem
de ter fé e
situar-se claramente
na solidão.
1268.
São os acordes tristes
que me comovem
e equacionam o
que insisto em
não ver.
1269. Marta
A blusa era vento
um contínuo fino de azul
tapa os seios sob o sol
Sutil movimento
1265.
Ô minha nega
eu não entendo você
Você falou em alteridade
mas quando eu disse que ia embora
não teve piedade
1266.
Atos vazios.
O ínfimo
já dez vezes
partido.
O nada sentido
e elevado
ao infinito.
Um vaso
partido e
etereamente
preenchido.
1263. Pirenópolis IV
Talvez fossem os encontros
que se fizeram tão bem
Talvez fosse um som
envolvendo passos que nunca
tinham compassado
Talvez fosse a cerveja
ansiada em um bar mais calmo
Talvez fossem histórias
que se deixavam contar
Talvez fossem as pedras
das ruas que não deixavam
o corpo flutuar em qualquer lugar
Talvez fosse o sono à tarde
e o sexo no chuveiro
Talvez fosse a embriaguez,
mel, frio, calor e torpor
Talvez fôssemos amantes,
amigos, conhecidos, vizinhos
Talvez, quem sabe, talvez
tudo isso se encontre novamente
e o desencontro seja só
mais uma lembrança qualquer
no limiar de ser esquecimento
1264. Pirenópolis V
na estrada ao pôr-do-sol
pelas calçadas
no coreto
chupando picolé
atravessando a ponte
cerveja
no atraso enrubescido
em preferências
música
mel
noite alta
em cantos inusitados
em sons displicentes
numa dança
hum… Goiás, né?
1262. Pirenópolis III
Não vi um copo de café
pela manhã e nem fiz
um chá de habu.
Mas ali ainda sentia
o que fervilhava
entre nós dois animais
– no limiar de uma temperatura
entre o chá e o café.
1260. Pirenópolis I
Já me perdera nas contas
Quantas contas de vidro
eu teria jogado?
Qual seria a conta a final?
Mas no final já nem contava
Éramos só eu e um anjo
dormíamos o sono não dos justos
mas sim, dos ajustados,
corpo a corpo.
1261. Pirenópolis II
Quando cheguei,
cheguei com gosto de sorvete
baratinho, mas bom.
Foi tudo assim, talvez,
como um sorvete.
Derreto uma, duas, três,
até entender que só
um só sorvete não faz a vez.
1258.
Ivana deve de estar
bem evil em algum
lugar entre o começo
do Piauí e o final do
Paraná.
1259.
Aline sublime
de novo aqui?
Nem ali nem cá,
no máximo
acolá.
1256.
Nella quase coube
para além de em
mais ela, o problema
é que Nella ficou
só nela.
1257.
Lyvian leviana
levava-me antes
e depois, hoje
Lyvian leva sua vida
sem minha vida,
continua a levar-me
sem nem saber.
1254.
Izis já sabia.
Quisera eu saber
que ela ia
isostática
mais isso
de ser enfática.
1255.
Angélica antes
de ser gélida cabia
num verso quente.
1253.
eu que tentei
hoje sei
que o que te dei
foi um hei
1252.
Se eu digo que não quero
Não é um ato mero
É que eu não desejo
Abafar meu desalento
Se você diz que quer
Não é pedido, é fé
De que o seu desejo
Seja enfim, meu alento
1251.
Ah se eu pudesse entender
que sem você o que sobra sou eu:
só, mente, só, físico, sofismo
solstício, só indício, só, suplício,
súplica, só.
1250.
Nada mais que um problema a mais
É o que eu carrego nas mãos
Sem dádivas, dívidas, dúvidas
Só um parco, pobre, pardo coração
Nada menos que a média geral
É o que me difere da multidão
Quando ando pelas ruas sou um vulto
Que em nada se difere do vão
Nada de cores em dores de seus tons
Só uma figura cinza no campo da visão
Mais esses meus passos apressados
Descompassando ato e sensação
1248.
Escolhi não
pensar e
nesse ato
pensei minha
escolha.
Sopesei tudo,
amei sem
pensar.
1249.
Há pouco foi
o marco,
mas os dias
e as noites
vêm e vão-se
tão facilmente
que não
entendo o
porquê de
fazer do marco
um menor
ato.
Amo e
ponto.
1247.
Teu (sinto o
meu), é teu
sobre o teu,
mesmo eu
sendo eu, é
o que é meu
no teu.
Só consigo
pensar (e sentir)
o meu
quando do teu.
(lógica? às favas
com ela!)
Quero sentir-me
em ti.
1245.
Minha libertação
é dizer-te:
amo-te, fico
contigo,
perder medos,
viver o
que sinto.
1246. Caderneta
As últimas
páginas são
minha vida,
As primeiras
o que me faz,
se te apraz
isso que sou,
dou-me a ti
assim: todas
as novas páginas.
1244.
Poente em teu cume
Um ocaso lindo
que resplandece
tuas idéias
Ficastes linda
com teu cabelo
não de cobre