1689. Daisy

Ela dizia coisas de português
E tinha aquele sotaque engraçado
Que todos do mundo lusófono têm, menos a gente
Falava como que procurando figuras de linguagem
Para abraçar esse mundo
E eu nem ria do sotaque dela
Achava lindo, cabia
E ela sempre tentava achar as palavras:
“Ai, como dizes por aqui?”
E eu acariciava seu cabelo crespo:
“Em Moçambique eu não sei, mas aqui é flerte mesmo…”

1686. Capim

Um reinado qualquer
Bastaria pra ter a lucidez
E o xeque-mate dado
Destruiu as possibilidades do rei sair
A morada dos loucos
Sei que o quatro de paus não está no jogo
Ele está dentro do bolso da minha camisa
Escondendo o reino da alegria
Ali no meio de todos você me beijou
Poderia ter sido um beijo doce
Acre que fosse
Mas o reinado não teve vez
Talvez voz
O castelo de mato seco que eu erigi
Desabou ao toque do fogo
Faltou uma carta possível para que o peão não ficasse só
E eu jogo xadrez como se fosse truco

1683.

O braço teso
O músculo que dilata
O peito aberto sob o sol
A pá no seio da terra
A picareta que não erra
A enxada, o chão
A pedra que desponta
O caco, a peça,
Fragmentos que eu
Componho o passado
Em uma visão
Peneiro, a lasca surge
Um instante que urge
Alguma explicação.

1680.

Tio Irã costura a barra
Uma bainha bem feita
na máquina velha
Cada ponto um palavrão,
desses cabeludos que não
se colocam em poesias
que pintam quadros ensolarados
Um gatinho na varanda
Vovó fritando lingüiças
Pai com o jogo na tv
e seu sono sempre acordado
Alguém compra dim-dim
Debaixo do pequizeiro,
a sombra e ao lado do
Araguaia e dentro da sombra,
eu

1645.

Tava ali em frente
bem na minha frente
queria ficar ali onde
ela estava, não tomar
seu espaço, ocupar algum
apenas
Dividir
aquele espaço
que já é naturalmente dividido
colocar algum espaço meu
em seu espaço
Aí eu fiquei meio inerte
ansiando o movimento
que nos levasse a uma
junção qualquer
Talvez fosse a tez
que condizia com o pouco
sabido
Talvez fosse a voz
que fluía como se nunca
houvesse a distância
Quem sabe mesmo foi
a voluptuosidade da carne
que afirmou absurdamente
as palavras trocadas
E quando o encontro de
espaços houve eu não
gozei, mas gozei
ainda assim

1640.

Quando de menino
eu via aquele garoto
no espelho d’água
do banheiro.
Era um mundo opaco
de um azulejar quase
branco e de um teto
infinito no meio do chão
a morada daquele que eu
contemplava.
Naquele que eu via
tentava ver aquele que
me via, um estranhamento
da visão dele na minha
própria visão.
Naquele mundo de águas
e azulejos e tetos
sem fim eu via a figura
nua de olhos miúdos
cabelos pretos a escorrer
pela cara, a miudeza
daquelas partes
de abaixo do umbigo,
as canelas finas e os
braços esguios,
que via um rapaz
que via um rapaz
que se via no
estranhamento
de não ser em si mesmo
apenas
mas sim qualquer coisa
entre um olhar e outro.