0723.

Opções escusas
zoo serial killer
o maior brasileiro de todos os tempos
a descoberta de que a carne tem sentido
os carboidratos interferindo na dieta
esse aspecto londrino
que logo se torna torridamente tropical
aqui na Ceilândia…

Disso tudo, tento ficar com
o tudo e escolho a última opção.

0718.

cuidava das minhas plantas
quando fez o baque seco
não era do maracatu
não era o pancadão do rap

a multidão fez-se logo
o corpo, só corpo, no chão
um fulano ajoelhado ao lado

cuidava da vida naquele

não fui ver o corpo
agora era só um
à revelia de que vermes
fossem agora viver

0711.

Lavei bem os meu cabelos
Até enrolei os rebeldes
Botei a camisa pra dentro
Usei cinto e limpei o tênis
(Só não deu tempo de fazer a barba)

Vim num passo meio apressado
Peguei até lotação
(Quase morri cinco vezes)
Tinha medo da chuva desarrumar meus cabelos
E deixá-los um tanto lisos

Quis ficar bonito hoje
Pra você
Juro que tentei…

Mas aí agora eu já estou amassado
E os cabelos são só um fuá
Já suei a camisa
Sujei o tênis
Fiqui como sempre sou

Aí só resta o regozijar:
Quis ficar bonito hoje
Pra você
Juro que tentei…

0709. Da menina azul

Era uma menina azul,
embora mulher róseo-alba fosse
Tinha ares de lagoa
Não sei porque cargas d’água,
mas como ela tinha ares de lagoa
Por vezes parecia mais um açude,
mas sempre retornava à lagoa

Um dia dormi ao seu lado
E nesse dia o quarto pareceu um
imenso aquário
e meu sonho foi azul
E por mais que corrêssemos
pela relva selvagem
ela continuava a ser uma menina azul

0706.

certa feita disseram que
seria uma questão toponímica
(questão não, problema…)
careceria de uma raiz de
algo intrínseco e único
não só esse nome à revelia
de um projeto.
só depois descobriu-se que
não era o nome que trazia
a coisa consigo, mas sim
a coisa que se fazia nome
e quando se viu isto
a cidade já estava viva

0703. sobre este estado interessante

um dia eu pensei:
num universo paralelo
até talvez seja meu também,
mas aí eu vi: é você
e fiquei imaginando:
será uma quentura na barriga
ou algo como um
formigamento frio nas entranhas
aí pensei que poderia ser
como um sentimento
mas aí pensei: deve ser mais
como um sentimento material,
uma sensação viva
e aí pensei mais uma vez:
deve ser maravilhoso poder dizer:
“tenho um sentimento vivo no meu ventre”
e maldisse minha condição de homem

0693.

a fila do box 9 da rodoviária era grande
a maioria mulher, a maioria negra
a maioria com saia abaixo do joelho
a maioria com uma sacola no meio das pernas
sacolas do Tatico, Caprichoso, Espírito Santo
Cada um e uma na fila se excluindo mais um pouco
são todos reais e também estatísticas
ah, chega! perdi a poesia
isso tudo era só mais um dia de visita

0692.

será que a palavra em mim morreu? e só sou agora esse amontoado de materialidades superpostas sem conexão alguma com uma alma? a folha que cai do flamboyant não mais me toca nada? ou será mais uma máscara que ponho não ver minha verdadeira face? e esconder-me ao ponto de desconhecer minha face de simplicidade? será que isso tudo sou eu ou será se sou o próprio mundo? sinto cá nesta quase poesia, mais diário de adolescente doidão que qualquer outra arte, que mais uma máscara cai, ou mais uma (outra) máscara se acomoda. Não faço rima, não faço verso, pontuo mal e parcamente minhas idéias. Ao que tentarei mostrar isto a alguém (o ego sempre tenta fazer-se ser aos olhos de outrem) e certamente em nada como verá qualquer um sobre o além e aquém dessas minhas palavras. esses signos todos jogados sem nexo, sem alma, sem norte… essas informações aplainadas pelo vento, essas elucubrações desditas pelo tempo (e enfim uma rima neste momento). e outras idéias podadas pelas máscara infinita. mais um nada produzido e minha morta alma alimentada.