2552.

desestruturar as
bases de uma neurose,
encontrar o alicerce
que sustenta essa
casa escondida
por detrás de algum
amontoado de notas
imemoriais, escondidas
por detrás da linguagem,
banidas do palpável
e entranhadas no
mundo onde escorrem
os desejos, as pulsões
e as vontades
explodir essa edificação
e construir sólido
palacete de apatia
e intolerância ao
mundo: a morada
de deuses não humanos

2549. dias quentes

dias quentes
consternados
ornados com
água salgada
derramada:
lágrimas
e suor pela
pele quente

dias quentes
inflamados
flamejando em
água fervente
lágrimas que
fazem chá,
café e banho
de descarrego

vazios dias
quentes que
atentam
as têmporas
a tatear na
noite azul sem
estrelas uma
possível
companhia

preenchidos
dias quentes
com o calor
de uma solidão
vertida pelos
olhos e poros

dias quentes:
ilusão diuturna
iluminura aquosa
líquida e ardente
que não
preenche

2548. Por onde andei aquele verão?

Caminhei por debaixo das sombras de árvores aguerridas
que penosamente tentavam sobreviver ao massacre indistinto
Chorei copiosamente três manhãs inteiras
posto que ao meio dia não se é horário apropriada para chorar
passei as tardes desses dias cavando buracos no chão duro
atravessando rios e brejos
regurgitando informações esparsas sobre a vida

Naquele vale afluente do rio das araras
passei dias inteiros conjuntamente solitário
vi o azul do céu desabar sobre o vermelho da tarde
vi o romper da escuridão entre o lampejar de vaga-lumes
Lumiei a noite com a lamparina da esperança acesa

Ao retornar para casa
chorei mais três noites seguidas
pois que em casa é bom chorar de noite apenas

Foi naquele verão que todos chamam de inverno
que banhado de lágrimas e suor do trabalho
tomei o prumo da inocência outra vez

2541. urgência

digo que se um rio vai ser o lócus
de palavras que se quis deixar,
me faço rio

que se existe alguma busca por alívio
que correntes podem trazer,
líquido, sou rio

que se a carga da linguagem presa à cabeça
bloqueou o uso do sensível,
como rio eu levo o que puder

carrego em minha sinuosa vacância doce de água
além do sedimento flutuante
as dores que devem ir
os humores que já gastos
o entrave entalhado na boca do céu

porque quero o bem maior
eu levo sendo rio
o que não couber para a paz
porque mesmo quero

2534.

padre nando queria distribuir o amor
a todas as que dele precisassem
e ensinar como os homens devem proceder
com as suas próprias amadas

eu não sou padre nando
apenas um aluno medíocre
buscando a amada que deseje
o procedimento que existe em ser amor
antes mesmo de ser verbo

2530. Esquecimento

tentar tirar o que existe
como deixar alegorias eufemistas
para os garbosos de si
sofrer sim o que couber
e ver diamantes saltando dos olhos
cortando retinas e sangrando
pingando pequenas pedras rígidas
embebidas pelo tom do sangue diluído

róseo rio de pedras que desmorona face abaixo
devastando tudo o que tocar
levando a tirar e matando o tentar

2527. Samba ao pé de um piano

Como uma composição feita
de pausas, silêncios, de rimas e tons
compassada no exato instante
em que o meu coração dilatou
expandiu além da medida
ocupou um espaço e se fechou
você veio permeando os vazios
que o peito rompido não deixou

Veio leve com olhar sereno
mexendo por dentro
meu peito azulou
Deixou céu feito unguento
com um sol ardendo
levando o sangue como
água de chuva que de cima tombou

2526.

“agora o meu coração toca no vazio
agora o meu coração não queima nem pavio…”

daí dizer que eu espero
mas o vazio abre espaço
para a ventania

o fogo precisa de ar
e o vento precisa apagar

nada para carburar
a não ser meu próprio coração
se auto-consumindo
num fogo-morto

2522. Jenny IX

Quando pediu a terceira
caipirinha
e se perdeu um pouco
falando em espanhol
que eu que tinha charme
e que era “muy interezanto”
eu firmei meus
olhos flutuantes
pela quarta dose de pinga
preparei todo o resto
do meu ar de latin lover
que ainda podia existir
e sorri o sorriso mais
possível que podia ter
e falei que ela é que
tinha as medidas certas
para o imprudente

Quando ela se recostou
na cadeira como uma
lagartixa meio bêbada
pernas por cima dos braços
da cadeira
eu me deixei cair sobre a mesa
e ainda tive forças
para fazer uma flor de origami
num resto do maço de cigarro
ela ficou lisonjeada
mas aí veio o garçom com
a saideira forçada,
mas deu tempo dela escrever
no meu caderno:
“Cucillez aujourd’hui les roses de la vie”
e saímos a subir ladeiras
cantando a plenos pulmões:
“Non, rien de rien,
non, je ne regrette rien…”

Noite de boa essa,
sem nada além de uma boa companhia
para dividir caipirinhas…

2504.

Cada beleza é própria, é uma.
Sem fórmulas, padrões, bases, mistérios.
Cada uma com seu ponto médio.
É só destapar, não os olhos,
mas o peito e retirar os
grilhões da imagem.

Tantas belezas, todas reais, próximas,
tocáveis ao ponto mesmo do prazer.
Tanta beleza pra se ver
e o mundo insistindo no primado da feiúra.

Ouro Preto/MG