hoje eu paro com isso de poesia
pra ver se me abate o tal do dia a dia
e me morre o amor e me vive apenas a lida
2546. Resolução
essa semana procuro um médico
pra ver se resolvo de vez esse intrépido
tremor revolto que me consome o cérebro
2545. Resolução
essa semana procuro um pai de santo
pra ver se encontro pelo menos um canto
onde possa repousar a falta que vem em pranto
2544. Resolução
essa semana procuro um psicanalista
para ver se descubro ao menos uma pista
de como fazer para que meu coração desista
2543.
não imagine o que não se deve
aqui palavras se agrupam desordenadas
não que não queiram dizer nada,
querem sim dizer algo:
o que for que seja na cabeça
de quem as leia
e a descrição nunca perfeita
do que se passou no instante
entre a mão e a condução da caneta
2542. não é mais segredo
queria mesmo
te dar um sorriso
só um riso
de perto
e possível
e ver
beija-flores
em polvorosa
2541. urgência
digo que se um rio vai ser o lócus
de palavras que se quis deixar,
me faço rio
que se existe alguma busca por alívio
que correntes podem trazer,
líquido, sou rio
que se a carga da linguagem presa à cabeça
bloqueou o uso do sensível,
como rio eu levo o que puder
carrego em minha sinuosa vacância doce de água
além do sedimento flutuante
as dores que devem ir
os humores que já gastos
o entrave entalhado na boca do céu
porque quero o bem maior
eu levo sendo rio
o que não couber para a paz
porque mesmo quero
2540.
esvair
toda
outra
presença
como
uma
mesa
só
considera
a
si
mesma
2539.
A mosca
solta
céu adentro,
preenche
um certo
hiato do
vento.
2538. Oráculo do mundo
A primeira face
do cubo mágico
embaralhada combinação
de quadrados coloridos,
prontos a se agruparem
cada qual com sua face.
Do imponderável de sua
combinação tão previsível,
vê-se como o mundo
deve agir
como se só fosse prudente
prever as coisas
quadradamente humanas,
polígonos de lances
a serem dados para
vislumbrar o vindouro.
2537.
um dia, um sujeito chamado Ziriba
contou essa história sobre mulheres
maravilhosas carentes de sujeitos
ainda admiráveis,
espero essas e causar tanto,
como para além de saciar a
fome e a sede, todos querem
transcender o dado
e amar
2536. Para tristes alívios
o céu necessário
escorregadio espaço
em que se vaga
sem voar
apenas a articulação bípede
de circular pela
circunferência do geóide
triste acompanhamento
desolado
desértico céu que assombra
de luz o mundo
pequenas frestas de escuridão
que acolhem
e dão alguma
solitária paz
2535. Selmasongs
levemente tenebroso
é o dia que vem surgir
toca os cachos da aurora
faz cafuné na manhã
com mãos de guerra e ódio
beija a boca da noite
pela última vez até
a próxima partida
se despede das camas
apertando o peito
sem poder dizer
que o final não será
apoteótico, mas apenas
um cruel surgir de mais
um dia
2534.
padre nando queria distribuir o amor
a todas as que dele precisassem
e ensinar como os homens devem proceder
com as suas próprias amadas
eu não sou padre nando
apenas um aluno medíocre
buscando a amada que deseje
o procedimento que existe em ser amor
antes mesmo de ser verbo
2533.
eu leio
e piro
frito
no que
há entre
as linhas
romântico
da segunda
geração
de quinta
2532. Dorida distância
dá pra se confundir tudo
se não souber o que move
dá pra se perder tudo
se não couber carinho
dá pra ser areia movediça
se não houver sinceridade
dá pra cair em abismo
se não calar hipóteses
dá pra se perder estribeira
se não crer no possível
dá pra ficar louco
se não parar de contar léguas
2531.
por mim tudo bem
pode vir em pingos
curtos, pausados
tenho a pressa
dos que sabem
o que bebem
e que para isso
não vêem problemas
em esperar o
copo deixar de
ser meio vazio
e se encher
mesmo que de
uma bica que
é somente
espera
2530. Esquecimento
tentar tirar o que existe
como deixar alegorias eufemistas
para os garbosos de si
sofrer sim o que couber
e ver diamantes saltando dos olhos
cortando retinas e sangrando
pingando pequenas pedras rígidas
embebidas pelo tom do sangue diluído
róseo rio de pedras que desmorona face abaixo
devastando tudo o que tocar
levando a tirar e matando o tentar
2529. Sonhos
para repousar
e pousar pós vôo
para pensar
o posto para
uma postura
para não piscar
parar por pouco
e permitir
as apostas
do sem pensamento
para ponderar
o peso e primar
pela pele
para poder
parecer que nunca
se para
mas parar
2528.
perto perto parto
nove começos para cair
parto parto perto
nove fins pra ir
a noite soluça o frio
e eu me calo aqui
a coluna como vara verde
e o tremor pelo por vir
o medo pousa às costas
e a cabeça a explodir
perto perto parto
2527. Samba ao pé de um piano
Como uma composição feita
de pausas, silêncios, de rimas e tons
compassada no exato instante
em que o meu coração dilatou
expandiu além da medida
ocupou um espaço e se fechou
você veio permeando os vazios
que o peito rompido não deixou
Veio leve com olhar sereno
mexendo por dentro
meu peito azulou
Deixou céu feito unguento
com um sol ardendo
levando o sangue como
água de chuva que de cima tombou
2526.
“agora o meu coração toca no vazio
agora o meu coração não queima nem pavio…”
daí dizer que eu espero
mas o vazio abre espaço
para a ventania
o fogo precisa de ar
e o vento precisa apagar
nada para carburar
a não ser meu próprio coração
se auto-consumindo
num fogo-morto
2525.
No café ele me olhou
falava da morte e do
seu espírito.
Com um pouco mais
de intento
ele até poderia
conseguir mais
que aquilo.
2524.
meu peito anseia mesmo
é por ter alguém
para percorrer avenidas
vazias e ainda assim
ver vida até nos vãos
2523. Fórmula: uma noite, uma francesa e um dicionário
Amizades boas são essas em
que há um encantamento gratuito
e um enamoramento sem contato
como passar uma noite inteira
bendizendo um encontro
maldizendo casamentos
ansiando retornos
e catando cada palavra dita
em um dicionário
até o toque do sono
e um colo compartilhado
Duas pessoas ilhadas
pela barreira da linguagem
e da ética dos corações
2522. Jenny IX
Quando pediu a terceira
caipirinha
e se perdeu um pouco
falando em espanhol
que eu que tinha charme
e que era “muy interezanto”
eu firmei meus
olhos flutuantes
pela quarta dose de pinga
preparei todo o resto
do meu ar de latin lover
que ainda podia existir
e sorri o sorriso mais
possível que podia ter
e falei que ela é que
tinha as medidas certas
para o imprudente
Quando ela se recostou
na cadeira como uma
lagartixa meio bêbada
pernas por cima dos braços
da cadeira
eu me deixei cair sobre a mesa
e ainda tive forças
para fazer uma flor de origami
num resto do maço de cigarro
ela ficou lisonjeada
mas aí veio o garçom com
a saideira forçada,
mas deu tempo dela escrever
no meu caderno:
“Cucillez aujourd’hui les roses de la vie”
e saímos a subir ladeiras
cantando a plenos pulmões:
“Non, rien de rien,
non, je ne regrette rien…”
Noite de boa essa,
sem nada além de uma boa companhia
para dividir caipirinhas…
2521. Jenny VIII
Jenny tem charme,
estilo
Um tanto louca,
tem brilho
Um encantamento
meio bêbado e
bandido
Um ar largado,
um olhar comprido
Jenny mesmo tão linda,
ainda tem algo que parece
comigo
2520. Jenny VII
Pensei que fosse bobagem,
mas depois de Jenny,
o que levo na bagagem
dessa viagem de poucos dias
e um bocado de paragens
é que algumas francesas
são mesmo puro charme.
2519. Jenny VI
Jenny podia
ficar por aqui
e mesmo pingar
seus olhos
azuis em
qualquer lugar,
mas que aqui
ficasse
para que ao
menos olhar
eu pudesse.
2518. Jenny V
Dessa vez
talvez mais
apaixonado
que apaixonante,
esse lance de
platonismo é
mesmo viciante.
2517.
I like this
thing that
is just
something
between
me and
nothing.
2516. Nota
sorrir da
tristeza
chorando
chovendo
alguma
alegria
nesse
mar de
desolação
cunhado
no peito
2515. Jenny IV
Jenny est
très jolie,
pena que
ela nunca
olha aqui.
2514.
Curtir um
banzo não é
estar no limbo,
é assim um
tanto estar
triste e tonto.
2513.
Curtir uma
fossa não é
estar no fosso,
é como uma
bossa, deixar
que a dor,
possa.
2512. Jenny III
Ela é linda,
metida e meio boba.
Não fala
português
e o pior,
não olha no olho.
Mas ainda
assim beijaria
sua boca
e tentaria
ensinar
algumas
boas maneiras
brasileiras,
como arder
no momento
certo.
2511.
(saudade de você
como se naquela sua partida
só existisse a própria
condição de uma volta)
Ouro Preto/MG
2510.
Desisti dos
encontros
internacionais,
falar meio
em francês
meio inglês,
só meio e nunca
mais…
Busco agora
por encontros
intergalácticos:
venusianas
de Marte,
essas tais.
Ouro Preto/MG
2509. Não me impute peso
não é que eu seja um vadio
o problema é que meu olhar vaga
vazando amor por todo canto
Ouro Preto/MG
2508.
O amor é
um susto
que some
quando chega
o surto.
Ouro Preto/MG
2507.
A inspiração é
um surto,
vem com tudo
e some com
qualquer susto.
Ouro Preto/MG
2506.
Sorte é um
norte, quando
perdido.
Ouro Preto/MG
2505.
Azar é não
ter asas
quando se
quer voar.
Ouro Preto/MG
2504.
Cada beleza é própria, é uma.
Sem fórmulas, padrões, bases, mistérios.
Cada uma com seu ponto médio.
É só destapar, não os olhos,
mas o peito e retirar os
grilhões da imagem.
Tantas belezas, todas reais, próximas,
tocáveis ao ponto mesmo do prazer.
Tanta beleza pra se ver
e o mundo insistindo no primado da feiúra.
Ouro Preto/MG
2503. Sincronias
Quando o mundo
dá essas marcas
ocasionais de
ligações mais
que materiais,
eu até faço uma
reverência:
Oké Arô meu pai!
Ouro Preto/MG
2502.
Lá em cima daquele morro
do lado daquele cruzeiro
eu tentaria te chamar
gritando a plenos pulmões
até faltar mais que o ar
Para ver se o grito
cruzasse serras e fosse
dar lá no mar
Onde repousa seu azul
à água mais azular
Ouro Preto/MG
2501.
O vício de ser poeta
é buscar em qualquer
que passe, qualquer
que seja, o intento
de preservar a beleza.
Uma questão estética
antes de algo ético.
Ouro Preto/MG.
2500. Sem chocolates
A tensão aqui tida
é própria da falta tua
A cidade ganha uma tez
que antes não tinha
Sem ti aqui, sinto que
o timbre daqui destoa
Ouro Preto/MG
2499. Epigrama d’Ouro VII
O charme dessas
paredes antigas
parece que permite
melhor o amor.
Ouro Preto/MG
2498.
meu atestado
de permanência
são as letras
formadas
juntadas
deixadas
com a carga
tida de
todo lugar
passado
Ouro Preto/MG