sabe quando a dor ia
se jogar e afogar
lá no mar da
bahia?
sabe quando poderia?
Meu nome é Guilherme, poeta , professor de geografia da Secretaria de Educação-DF e mestre em geografia (UnB). Tive AVC em maio de 2020 (isquêmico) não consigo falar ainda. Tenho apraxia e afasia. Apraxia é um distúrbio neurológico motor da fala, resultante de um deficit na consistência e precisão dos movimentos necessários à fala. Afasia é uma alteração na linguagem causada por lesão neurológica.
sabe quando a dor ia
se jogar e afogar
lá no mar da
bahia?
sabe quando poderia?
“quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos”
quero as cores
que me caibam
as flores
Com ela eu casava, lavava a roupa, fazia a comida, cuidava dos filhos, visitava a sogra, passeava com o cachorro e ainda seria o arrimo da família e nem cobraria fidelidade:
Varanda
Armei a minha rede na parede da varanda
Balanço eu vou
Balanço eu vou
Catando eu sou o vento
Dormindo eu viro brisa
Balanço eu vou
Balanço eu vou
Armei a minha rede na parede da varanda
Balanço eu vou
Balanço eu vou
Catando eu sou o vento
Dormindo eu viro brisa
Balanço eu vou
Balanço eu vou
Tá armada a minha rede na varanda
Cantei, o vento já deu
Um sopro de brisa leve
que te governe
quem vai sou eu
Tá armada a minha rede na varanda
Cantei, o vento já deu
Um sopro de brisa leve
que te governe
quem vai sou eu
A todos que aqui estão
A todos preste atenção
A viola acompanha
O baque dos pé e das mão
Nossa festa é tão alegre
Cheia de boiadeiro e peão
Viemos fazer as honras
Cantando nos pé e nas mão
Ai linda flor do cerrado
Viemos fazer menção
Da sua beleza florida
Batendo os pé e as mão
Senhoras as boas noites
Senhores sigam o refrão
E assim vamos cantando
Dançando os pé e as mão
Vai chegando a hora tarde
De ir-se em louvação
E assim nós vamos indo
Louvando com os pé e com as mão
“Bati mais de mil cancela, na estrada dos desengano…”
despois qui tumei meu prumo
cum as feição disvalecida
segui batendo as cancela
num troti curto nessa vida
aprumei os zóio em tudo
eu e minha cumpanhera
qui das bravata desdita
sempre foi tão verdadera
essa qui vem sempre cumigo
nunca me cobrô um nada
passava os dia qua’ rio
no mar das vista disabada
e quando nu’a parcela
ela me trazia as rima
vindu na força desses homi
qui nunca teve a minha
ela qui num me abandona
em quarqué situação
ela qui me é toda dona
ela a Dona Solidão
ela a Dona Solidão
ela a Dona Solidão
Engasga Gato
(Kiko Dinucci e Bando Afromacarrônico)
Fui na casa do expedito
Tava cheia de mosquito
Eu num sei se foi macumba
O meus’ói tava esquisito
A urucaca da velhaca
Taca a pata faz trapaça
A danada é das braba
Na arengada de mulata
Malunga água de briga marafu maria branca
Entoava na subida e três tombo na barranca
Malunga água de briga marafu maria branca
Entoava na subida e três tombo na barranca
A cachaça venenosa
Cangibrina das maldosa
Abrideira aca açu
Canha pinga engasga-gato
Quando era meia-noite
Era fogo era porre
Carraspana chuva ema
Fogo ganso gata jorna
Malunga água de briga marafu maria branca
Entoava na subida e três tombo na barranca
Malunga água de briga marafu maria branca
Entoava na subida e três tombo na barranca
O gole da madrugada
Na penumbra é meu achote
O xinapa e seu novinho
Quando bebe arrota morde
Os meus’ói tá doente
Tá sofrendo de exagero
Vê macumba na cozinha
Diz que é culpa da caninha
Malunga água de briga marafu maria branca
Entoava na subida e três tombo na barranca
Malunga água de briga marafu maria branca
Entoava na subida e três tombo na barranca
São Jorge
(Juçara Marçal [en]canta, Kiko Dinucci arma toda a prosopopéia…)
Guerreio é no lombo do meu cavalo
Bala vem mas eu não caio, armadura é a proteção
Avanço sob a noite iluminado, luto sem pestanejar
Derrubo sem me esforçar, a guarnição
A guimba e a fumaça do meu cigarro
Cega o olho do soldado que pensou em me ferir
Com um sorriso derrubo uma tropa inteira
Mesmo que na dianteira sombra venha me seguir
O gole da cachaça esguicho no ar
Chorando na labuta ouço a corrente se quebrar
E o golpe do destino esse eu sinto mas não caio
Guerreio é no lombo do meu cavalo
PS: Dispensem os “comentários” do grandioso “apresentador” e ignorem a moçoila bonitinha tentando acompanhar o ritmo da música…
sempre ando
sample ando
sem pé ando
sampleando
sample sou
sempre somos
samples de discursos
samples de idéias
samples de imagens
e nunca meus pais
me cobraram
direitos autorais
nesses mixes todos
somos creativos commos
mix de genes
dessa nossa miscigenação:
sampleei o X da minha mãe
e o Y do meu pai
pela esquerda
dos direitos revertidos
sempre ando
sample ando
desde sempre
“quando você chegar” sem interfonar
nos “espaços que ainda procuro”
“em busca de outro amor”
com “sorriso largo, nenhum pouco acanhado”
vou dizer que “o meu amor já não tem mais tanta frescura”,
e tome cuidado com a “boca da noite ao pingo do meio-dia”,
“preste atenção menina por onde vai passar”,
pois já “amanheceu outro sol que trará a luz, outro dia, sol lunar”
e daí que eu “vou dar uma bola, vou levar a minha nega para Jacumã”
“nessa quebrada sem estrela”
“seu colar é de concha”
como um “prisma esparramando luz grená”
mas “você não é o pingente do meu trancelim”
definitivamente
hoje amanheceu assim virada a noite de um outro mim
e amanhecido de algo sempre tido aqui
que tinha ficado encarcerado pelo dissabor da hiper-realidade
e corroído pelo claro negrume da brutalidade
mas hoje reguei as plantas e tirei a poeira que amofinava as coisas
e quando passei pelo umbral que soluçava as perdas
abracei o ar como se sempre me tivesse faltado
e o chão ficou travesseiro fácil para um cochilo na manhã
o tremor está passando e vejo aprumar-se uma calma
que se instalara na antípoda do caos de fragmentos feito
a luz da manhã cola cacos
e uma noite de sonhos mostra o rumo
perfeita busca por se reentranhar num em si ainda possível
que consegue contemplar
isso tudo que é mesmo tão belo
não adianta vir
com esse papo
renitente
no final das contas
é só o samba
que me entende
debaixo da barriguda em flor
de frente para a quaresmeira entrando na quaresma
ao lado da espirradeira branca de afagos visuais
atrás das sibipirunas com sua frondosa verdância
um carro canta o pneu saindo da comercial
com a arte do sexo podendo crer que esculacha irradiando más vibrações
pelo corpo
um céu que pousa ríspido e afável dentro da terra
joões-de-barro pingam pela abóbada
e guardam seus futuros num galho de pau-ferro
a senhora faz o cooper indo de uma asa a outra
o mendigo corta correndo os eixos
equilibrando-se pelas veias centrais do corpo dessa cidade
vírus inoculados em seus utilitários 4×4 infiltram fumaça nas artérias
rápidos, vívidos, crentes
descrentes
concursada gente decente
a lentidão vagueia pelos espaços vazios
desviando das pressas zero quilômetro em sessenta vezes sem entrada
a modernidade é líquida, o amor é fluido
e as mangueiras começam a perder folhas
bem na via-veia intermediária passa uma coca-zero
e hoje talvez chova
bem na hora da novela das seis
dentro de um abismo bem fundo
lá no vale do desespero
planta enraizada na pedra bruta
sem sinal de ignição
beirando a inanição:
– ainda agora?
– existe um potencial de ser aí…
– onde?
– na brecha do sarcasmo e do amargor,
tem algo bem aí…
a pedra se desgasta milenarmente
a planta vive o tempo da seiva
– remédios ajudam?
– cara a cara com o desespero, o que é um peido pra quem já está cagado?
em meio ao lócus mais propício para o embate de idéias
(boteco)
três largados tomam uma brahma
possuem cara de desamparo e carência absurda:
– não vou votar em ninguém. aliás, vou até fazer campanha pro ninguém.
– to contigo e não abro!
– é, é isso aí bicho…
ao lado sentam-se duas moçoilas bem afeiçoadas:
– cadê a mô?
– deve estar com a fê…
– vamos pedir uma breja então?
– demorou…
os três desolados, mudam o tom:
– a gente tem que radicalizar velho!!
– vamos botar pra fuder nessa eleição!!
– a gente podia ter napalm, heim?!
às duas, junta-se mais uma:
– ô vidinha de merda, heim nega?
– ô cidadezinha sem possibilidade…
– ô mundinho de sem rumo…
as três tomam duas e vão embora
os três já estão na oitava,
uns quinze minutos de silêncio depois:
– que bosta…
– que tédio…
– meu irmão, pensei melhor, acho que vou fazer campanha pra Dilma…
no meio do Socó Dance House Club
partindo o coração na pista de dança
com o batidão sonoro da Banda Deja-vu e DJ Juninho Portugal “É Show”
eis que chega a moça de um metro e meio de pura volúpia:
– dança?
– talvez
– então arrocha
– sempre
em meio à turba dos ausentes ali todos presentes
com o caos instaurado no peito
ébrio de Jurema
torto de luzes e Odete com guaraná
mareado de sertão
danço a volúpia de todos os companheiros brindando ao sucesso do sexo,
teso como o sol do meio-dia
– cê ta me estocando!
me afasto,
ela me arrocha:
– vamo ali pra fora, procê me estocá melhó?
fortuito e desapegado
os ares de um não-amor consumado
o gosto ímpar de fazer pela não desfeita
e ficar ali pela noite, versado na arte de quebrar telhas
perdido no meio do cinema hiper-moderno,
no meio dessas pessoas ultra-mega-super-plus-trans-cool-cult-descoladas
que deveriam aprender a arte da inexistência,
eu e minha singela amiga:
– assisti Avatar 3D
– hum…
– é besta, mas o 3D é fera
– hum…
– você vê as coisas tipo bem de perto, saca?
– hum…
– sabe isso aqui, tipo agora? parece com o filme…
– hã?
no meio do mato
passeávamos eu e minha ingenuidade urbana
quando chegou o moleque:
– você tem eme-pê-cuato-pleier?
– não,
digo
– o meu deve chegar nessa semana,
pedi pela internet,
dois giga
– que bom, hã?
lhe digo
– é, só cinquenta pau…
lhe mostro um livro,
de poesia como sempre,
ele olha:
– fera heim bicho. é tipo um monitor de papel…
“eu tenho fé
que eu voltarei pra te encontrar
minha amada“
essa distância nem tanta
que tanto assusta aos
outros
nos dá essa saudade saudável
que tanto nos atenta aos
domingos
essa paixão nunca dita que
dita o peito em sorrir de
manhã
essa coisa que pode ser só
minha, mas que nossa
sussurra
isso tudo ninguém precisa
entender,
e daqui é que eu te beijo
escondido por
detrás disso
que ninguém entende
é uma questão política:
no embate entre duas metades
que se julgam inteiras nas partes
eu fico com o que só a mim cabe:
uma garrafa de vinho do porto
Maysa tonteando na vitrola
e a falta de qualquer debate
e de você eu cuido
pois que disso se deve saber
– questão ética de todo humano
e amorosa do meu humano -:
que entre os galhos
das árvores
mora luz e ar
e teima o verde
e que acima das copas
mora o mundo
que toda manhã nos abraça
e quando quiser
já fiz esse pacto com o firmamento
e te abraço como as manhãs
de você eu cuido
porque algo que fica firme
depois da poeira da história
que pulsa como
a luz e o ar
abraçando noites e dias
e que me compele a te
acalmar os veios de mar
comprimidos entre os olhos:
chora que faz bem,
deve ser algo que tem que
ser cuidado
mesmo que só por mim
pactuado
como gosto de você
que foi embora fácil
e deixou esse rastro
apagado até a libertação
fácil fácil
como o todo dessa
sociedade descartável
que sabe como
mas só recicla latinha de cerveja
em micro panela de pressão
eu vou reciclar
esse troço no peito
arrancar esse tal coração
e fazer alguns porta-retratos
provavelmente serão mais úteis
do que essa tarefa repetitiva
e banal de bombear
sangue dentro
desse corpo que
só quer ficar inerte
ai como eu gosto de você
e como você poderia nem se foder
porque disso eu sei
que você gosta
e sempre com qualquer
um que não eu
ou então que se foda sim
sempre com os piores exemplares da raça humana
só pra te lembrar que você
representa o supra-sumo
da bosta da humanidade
e como eu gosto de você
por ter reacendido o
meu transtorno trans-polar
e me dar a perspectiva dos narcóticos
de agora em diante
quem encontrou alguém
parabéns
quem não,
amém
aprenda, pois, a
tecer os fios dessa vida
só,
sem
sobrei e vivi
sobrevivi
sombras e meia vida
sobras de vida
por aqui
serpentina espalhada
junto à lama
procurá-la em meio à turba
com o tato atento dos olhos
que deixa só a luz dela
tocar essas retinas cretinas
que a carne valha
o tanto de uma
voadora na jaca
pois
só a carne é aval
para sem razão
todo o carnaval
e agora sobra o nada
sobram expectativas falidas
existe o dever cumprido
o sempre quase dever cumprido
a percepção de que quase foi cumprido
de que no amahã eterno diariamente retornado é onde ele se cumprirá
nada que sobra mesmo
quartos de hotel vazios mesmo consigo dentro
dentro de si vazio mesmo consigo dentro
um mundo de vir e que certamente virá
todo o passado vindo à tona e querendo sair pela boca
junto à bílis
dentro de si vazio mesmo consigo tão tão dentro
e lá fora, onde o tudo existe
mesmo dentro, onde vazio consigo dentro, ainda existe tudo
tem esse tudo
belamente encantando o mundo e preferindo a necessidade
querendo o bem, o bom e o belo
que estão aí esparramados pelos lençóis da vida
mas, exatamente, nesse lugar preciso do tempo que se chama hoje a agora
sobra
transborda
ocupa tudo
respira ávido por vida
nada
ok
não mais te procuro,
tão pouco
te tateio no escuro
e quero a morte
da sombra desse
sortudo
que te encontrou
depois que
te perdi
de tudo
terrorismo poético
teorismo profético
teocracismo epilético
soluções plausíveis
para um mundo
pirotécnico
cada pedaço de espaço
toda parcela de terra
tem um algo de enlaço
os estratos do espaço,
acúmulo
de súmulas,
resvalam revelados
são esses invisíveis
lugares alhures.
utopias não críveis.
toma conta todo banzo
um banzeiro dentro do sangue
debaixo do couro
traz um tanto de búzio
esparramando na praia
perto do pulmão dentro do peito
vem futuro junto
lido por baiana:
sem mucama, musa inspiradora,
máximo uma macambira
pra grudar na pele espinho
que vai verter a vida
e fazer do banzeiro uma pororoca
e pipoquear búzio, banzo,
baiana
pra tudo que é lado
eu mesmo leio
mas às vezes
de tanta
entrelinha
se fica cheio
e se quer alguém
por inteiro
como você mesma
amparada
em meu esteio
que a noite venha
sem senha
só uma sanha
sem vergonha
se eu fosse
mais neurótico
entenderia cada
gesto como
em seta ao meu
genótipo
algo como pernas
cruzadas em prol
da seleção natural:
fenótipo
o que move a mão a escrever
é a mesma matéria
que conduz as folhas a balançar
essa força
que modela montanhas
conduz águas
até desabar de cima
do céu
em cima de nossas cabeças
é isso que cria:
a ignição para a propulsão
da mão
preencher
espaços preenchidos de branco
papel
sucinto
só
sinto
(Para Olga Savary)
congregar os grãos de areia
das margens dos rios
às gotas que se agrupam em serpenteio
água rasgando a terra
irmaná-los ao ar
que envolve o corpo sem
vislumbre de existência
e que cortam milenares toda a terra
nos unirmos ao sal que se
verte junto em gotas
deambuladas pelo sol eriçado
que vira o sal da terra
orarmos juntos
pela união de toda matéria
em frêmito e arrepios
perpassando todo poro
nos fazendo terra
é tanta espera
que dá pra pirar
olhar a semente
passo a passo brotar
e se lança em fé
para ver vingar
e com metáforas
tenta-se regar
pra ver alguma raiz
conseguir fixar
como o vinho da vida jorrado
do pescoço nu dos decepados pelas guilhotinas
da liberdade, igualdade e fraternidade
como um veio de fogo escorrendo
viscoso de cima do cume dum vulcão
dado a dissipar civilizações e estatuar vilas
como o líquido comestível derramado do
pescoço da galinha arrancada a cabeça
eterna ciscante involuntária e agonizante
como a natureza da cultura jorrada mensalmente
ventre abaixo de quase toda
anunciador do não porvir parir
como o tom do vestido arrebatador
decote atravessado lateral que mata e ama
como as bandeiras fulgurantes de um
tempo de proletárias ditaduras
como o amargo campari sorvido
para alicerçar os ímpetos de ventos calmos
e explodir efusões até carnavalizar
como o timbre da guerra
estourando miolos por todo a terra
e tânatos conduzindo-a por campos de marte
é o sangue que brota de dentro de pedras
como nascente desse rio
palavra
dez amores
em dois sambas
ah o coração
e suas ilusões
tantas
o arrebatamento
sem motivos
te pega cativo
e ” a sede de ti
prossegue…”
sozinho ao
lado do lixo,
a mim só
cabe isso
que bosta
de agora em
diante, toda
noite só vai
ser essa fossa
aquela ciborgue
reluzia suas coxas
robóticas suavemente
pelo caminho elétrico da rua
contemplei aquela
impetuosidade meio inox
e lancei um olhar de desejo
seus olhos de pupilas
vermelhas como cerejas em calda
me fitaram longamente
creio que ela wireless
acessou meu profile
e me quis também
pisquei o olho e lancei um
gesto para que me encontrasse
na próxima esquina de teletransporte
ela sorriu faceira
sentou-se tranquila no banco
do tele e me esperou
enquanto me olhava comprar
um baseado na maconharia