pausa: pausa, pausa, pausa!

Com ela eu casava, lavava a roupa, fazia a comida, cuidava dos filhos, visitava a sogra, passeava com o cachorro e ainda seria o arrimo da família e nem cobraria fidelidade:

Alessandra Leão

Varanda

Armei a minha rede na parede da varanda
Balanço eu vou
Balanço eu vou

Catando eu sou o vento
Dormindo eu viro brisa
Balanço eu vou
Balanço eu vou

Armei a minha rede na parede da varanda
Balanço eu vou
Balanço eu vou

Catando eu sou o vento
Dormindo eu viro brisa
Balanço eu vou
Balanço eu vou

Tá armada a minha rede na varanda
Cantei, o vento já deu
Um sopro de brisa leve
que te governe
quem vai sou eu

Tá armada a minha rede na varanda
Cantei, o vento já deu
Um sopro de brisa leve
que te governe
quem vai sou eu

2598. Levante de Catira

A todos que aqui estão
A todos preste atenção
A viola acompanha
O baque dos pé e das mão

Nossa festa é tão alegre
Cheia de boiadeiro e peão
Viemos fazer as honras
Cantando nos pé e nas mão

Ai linda flor do cerrado
Viemos fazer menção
Da sua beleza florida
Batendo os pé e as mão

Senhoras as boas noites
Senhores sigam o refrão
E assim vamos cantando
Dançando os pé e as mão

Vai chegando a hora tarde
De ir-se em louvação
E assim nós vamos indo
Louvando com os pé e com as mão

2597. Dona

“Bati mais de mil cancela, na estrada dos desengano…”

despois qui tumei meu prumo
cum as feição disvalecida
segui batendo as cancela
num troti curto nessa vida

aprumei os zóio em tudo
eu e minha cumpanhera
qui das bravata desdita
sempre foi tão verdadera

essa qui vem sempre cumigo
nunca me cobrô um nada
passava os dia qua’ rio
no mar das vista disabada

e quando nu’a parcela
ela me trazia as rima
vindu na força desses homi
qui nunca teve a minha

ela qui num me abandona
em quarqué situação
ela qui me é toda dona
ela a Dona Solidão
ela a Dona Solidão
ela a Dona Solidão

pausa: várias doses

Engasga Gato

(Kiko Dinucci e Bando Afromacarrônico)

Fui na casa do expedito
Tava cheia de mosquito
Eu num sei se foi macumba
O meus’ói tava esquisito

A urucaca da velhaca
Taca a pata faz trapaça
A danada é das braba
Na arengada de mulata

Malunga água de briga marafu maria branca
Entoava na subida e três tombo na barranca
Malunga água de briga marafu maria branca
Entoava na subida e três tombo na barranca

A cachaça venenosa
Cangibrina das maldosa
Abrideira aca açu
Canha pinga engasga-gato

Quando era meia-noite
Era fogo era porre
Carraspana chuva ema
Fogo ganso gata jorna

Malunga água de briga marafu maria branca
Entoava na subida e três tombo na barranca
Malunga água de briga marafu maria branca
Entoava na subida e três tombo na barranca

O gole da madrugada
Na penumbra é meu achote
O xinapa e seu novinho
Quando bebe arrota morde

Os meus’ói tá doente
Tá sofrendo de exagero
Vê macumba na cozinha
Diz que é culpa da caninha

Malunga água de briga marafu maria branca
Entoava na subida e três tombo na barranca
Malunga água de briga marafu maria branca
Entoava na subida e três tombo na barranca

pausa: Uma pausa, uma oração.

São Jorge

(Juçara Marçal [en]canta, Kiko Dinucci arma toda a prosopopéia…)

Guerreio é no lombo do meu cavalo
Bala vem mas eu não caio, armadura é a proteção
Avanço sob a noite iluminado, luto sem pestanejar
Derrubo sem me esforçar, a guarnição

A guimba e a fumaça do meu cigarro
Cega o olho do soldado que pensou em me ferir
Com um sorriso derrubo uma tropa inteira
Mesmo que na dianteira sombra venha me seguir

O gole da cachaça esguicho no ar
Chorando na labuta ouço a corrente se quebrar
E o golpe do destino esse eu sinto mas não caio
Guerreio é no lombo do meu cavalo

PS: Dispensem os “comentários” do grandioso “apresentador” e ignorem a moçoila bonitinha tentando acompanhar o ritmo da música…

2596. Creative commons sapiens

sempre ando
sample ando
sem pé ando
sampleando

sample sou
sempre somos
samples de discursos
samples de idéias
samples de imagens

nos contatos
nos sampleamos

e nunca meus pais
me cobraram
direitos autorais

nesses mixes todos
somos creativos commos
mix de genes
dessa nossa miscigenação:
sampleei o X da minha mãe
e o Y do meu pai

pela esquerda
dos direitos revertidos
sempre ando
sample ando
desde sempre

2595. sampleando versos II

“quando você chegar” sem interfonar
nos “
espaços que ainda procuro”
“
em busca de outro amor”
com “
sorriso largo, nenhum pouco acanhado”
vou dizer que “
o meu amor já não tem mais tanta frescura”,
e tome cuidado com a “
boca da noite ao pingo do meio-dia”,
“
preste atenção menina por onde vai passar”,
pois já “
amanheceu outro sol que trará a luz, outro dia, sol lunar”
e daí que eu “
vou dar uma bola, vou levar a minha nega para Jacumã”

e sim, “tenho um copo cheio, prestes a derramar”

2592. Manhã bonita…

hoje amanheceu assim virada a noite de um outro mim
e amanhecido de algo sempre tido aqui
que tinha ficado encarcerado pelo dissabor da hiper-realidade
e corroído pelo claro negrume da brutalidade

mas hoje reguei as plantas e tirei a poeira que amofinava as coisas
e quando passei pelo umbral que soluçava as perdas
abracei o ar como se sempre me tivesse faltado
e o chão ficou travesseiro fácil para um cochilo na manhã

o tremor está passando e vejo aprumar-se uma calma
que se instalara na antípoda do caos de fragmentos feito

a luz da manhã cola cacos
e uma noite de sonhos mostra o rumo

perfeita busca por se reentranhar num em si ainda possível
que consegue contemplar

isso tudo que é mesmo tão belo

2590.

debaixo da barriguda em flor
de frente para a quaresmeira entrando na quaresma
ao lado da espirradeira branca de afagos visuais
atrás das sibipirunas com sua frondosa verdância
um carro canta o pneu saindo da comercial
com a arte do sexo podendo crer que esculacha irradiando más vibrações
pelo corpo

um céu que pousa ríspido e afável dentro da terra
joões-de-barro pingam pela abóbada
e guardam seus futuros num galho de pau-ferro

a senhora faz o cooper indo de uma asa a outra
o mendigo corta correndo os eixos
equilibrando-se pelas veias centrais do corpo dessa cidade
vírus inoculados em seus utilitários 4×4 infiltram fumaça nas artérias
rápidos, vívidos, crentes
descrentes
concursada gente decente

a lentidão vagueia pelos espaços vazios
desviando das pressas zero quilômetro em sessenta vezes sem entrada

a modernidade é líquida, o amor é fluido
e as mangueiras começam a perder folhas

bem na via-veia intermediária passa uma coca-zero
e hoje talvez chova
bem na hora da novela das seis

2589. Contos do super-capitalismo tardio V (ou pregado na Alta Modernidade)

dentro de um abismo bem fundo
lá no vale do desespero
planta enraizada na pedra bruta
sem sinal de ignição
beirando a inanição:

– ainda agora?

– existe um potencial de ser aí…

– onde?

– na brecha do sarcasmo e do amargor,
tem algo bem aí…

a pedra se desgasta milenarmente
a planta vive o tempo da seiva

– remédios ajudam?

– cara a cara com o desespero, o que é um peido pra quem já está cagado?

2588. Contos do super-capitalismo tardio IV (ou politizando a Alta Modernidade)

em meio ao lócus mais propício para o embate de idéias
(boteco)
três largados tomam uma brahma
possuem cara de desamparo e carência absurda:

– não vou votar em ninguém. aliás, vou até fazer campanha pro ninguém.

– to contigo e não abro!

– é, é isso aí bicho…

ao lado sentam-se duas moçoilas bem afeiçoadas:

– cadê a mô?

– deve estar com a fê…

– vamos pedir uma breja então?

– demorou…

os três desolados, mudam o tom:

– a gente tem que radicalizar velho!!

– vamos botar pra fuder nessa eleição!!

– a gente podia ter napalm, heim?!

às duas, junta-se mais uma:

– ô vidinha de merda, heim nega?

– ô cidadezinha sem possibilidade…

– ô mundinho de sem rumo…

as três tomam duas e vão embora
os três já estão na oitava,

uns quinze minutos de silêncio depois:

– que bosta…

– que tédio…

– meu irmão, pensei melhor, acho que vou fazer campanha pra Dilma…

2587. Contos do super-capitalismo tardio III (ou estocando a Alta Modernidade)

no meio do Socó Dance House Club
partindo o coração na pista de dança
com o batidão sonoro da Banda Deja-vu e DJ Juninho Portugal “É Show”
eis que chega a moça de um metro e meio de pura volúpia:

– dança?

– talvez

– então arrocha

– sempre

em meio à turba dos ausentes ali todos presentes
com o caos instaurado no peito
ébrio de Jurema
torto de luzes e Odete com guaraná
mareado de sertão
danço a volúpia de todos os companheiros brindando ao sucesso do sexo,
teso como o sol do meio-dia

– cê ta me estocando!

me afasto,
ela me arrocha:

– vamo ali pra fora, procê me estocá melhó?

fortuito e desapegado
os ares de um não-amor consumado
o gosto ímpar de fazer pela não desfeita
e ficar ali pela noite, versado na arte de quebrar telhas

2586. Contos do super-capitalismo tardio II (ou perdido na Alta Modernidade)

perdido no meio do cinema hiper-moderno,
no meio dessas pessoas ultra-mega-super-plus-trans-cool-cult-descoladas
que deveriam aprender a arte da inexistência,
eu e minha singela amiga:

– assisti Avatar 3D

– hum…

– é besta, mas o 3D é fera

– hum…

– você vê as coisas tipo bem de perto, saca?

– hum…

– sabe isso aqui, tipo agora? parece com o filme…

– hã?

2585. Contos do super-capitalismo tardio (ou passeando pela Alta Modernidade)

no meio do mato
passeávamos eu e minha ingenuidade urbana
quando chegou o moleque:

– você tem eme-pê-cuato-pleier?

– não,
digo

– o meu deve chegar nessa semana,
pedi pela internet,
dois giga

– que bom, hã?
lhe digo

– é, só cinquenta pau…

lhe mostro um livro,
de poesia como sempre,
ele olha:

– fera heim bicho. é tipo um monitor de papel…

2584. velado, platônico, azul

“eu tenho fé
que eu voltarei pra te encontrar
minha amada
“

essa distância nem tanta
que tanto assusta aos
outros
nos dá essa saudade saudável
que tanto nos atenta aos
domingos
essa paixão nunca dita que
dita o peito em sorrir de
manhã
essa coisa que pode ser só
minha, mas que nossa
sussurra

isso tudo ninguém precisa
entender,
e daqui é que eu te beijo
escondido por
detrás disso
que ninguém entende

2582. do cinza e do platonismo

e de você eu cuido
pois que disso se deve saber
– questão ética de todo humano
e amorosa do meu humano -:
que entre os galhos
das árvores
mora luz e ar
e teima o verde
e que acima das copas
mora o mundo
que toda manhã nos abraça
e quando quiser
já fiz esse pacto com o firmamento
e te abraço como as manhãs

de você eu cuido
porque algo que fica firme
depois da poeira da história
que pulsa como
a luz e o ar
abraçando noites e dias
e que me compele a te
acalmar os veios de mar
comprimidos entre os olhos:
chora que faz bem,
deve ser algo que tem que
ser cuidado

mesmo que só por mim
pactuado

2581. nas cinzas

como gosto de você
que foi embora fácil
e deixou esse rastro
apagado até a libertação

fácil fácil
como o todo dessa
sociedade descartável
que sabe como
mas só recicla latinha de cerveja
em micro panela de pressão

eu vou reciclar
esse troço no peito
arrancar esse tal coração
e fazer alguns porta-retratos

provavelmente serão mais úteis
do que essa tarefa repetitiva
e banal de bombear
sangue dentro
desse corpo que
só quer ficar inerte

ai como eu gosto de você
e como você poderia nem se foder
porque disso eu sei
que você gosta
e sempre com qualquer
um que não eu
ou então que se foda sim
sempre com os piores exemplares da raça humana

só pra te lembrar que você
representa o supra-sumo
da bosta da humanidade

e como eu gosto de você
por ter reacendido o
meu transtorno trans-polar
e me dar a perspectiva dos narcóticos

2576.

e agora sobra o nada
sobram expectativas falidas

existe o dever cumprido
o sempre quase dever cumprido
a percepção de que quase foi cumprido
de que no amahã eterno diariamente retornado é onde ele se cumprirá

nada que sobra mesmo

quartos de hotel vazios mesmo consigo dentro
dentro de si vazio mesmo consigo dentro

um mundo de vir e que certamente virá

todo o passado vindo à tona e querendo sair pela boca
junto à bílis

dentro de si vazio mesmo consigo tão tão dentro

e lá fora, onde o tudo existe
mesmo dentro, onde vazio consigo dentro, ainda existe tudo
tem esse tudo
belamente encantando o mundo e preferindo a necessidade
querendo o bem, o bom e o belo
que estão aí esparramados pelos lençóis da vida

mas, exatamente, nesse lugar preciso do tempo que se chama hoje a agora
sobra
transborda
ocupa tudo
respira ávido por vida
nada

2570. Macambúzio

toma conta todo banzo
um banzeiro dentro do sangue
debaixo do couro
traz um tanto de búzio
esparramando na praia
perto do pulmão dentro do peito
vem futuro junto
lido por baiana:

sem mucama, musa inspiradora,
máximo uma macambira
pra grudar na pele espinho
que vai verter a vida
e fazer do banzeiro uma pororoca
e pipoquear búzio, banzo,
baiana
pra tudo que é lado

2564.

(Para Olga Savary)

congregar os grãos de areia
das margens dos rios
às gotas que se agrupam em serpenteio
água rasgando a terra

irmaná-los ao ar
que envolve o corpo sem
vislumbre de existência
e que cortam milenares toda a terra

nos unirmos ao sal que se
verte junto em gotas
deambuladas pelo sol eriçado
que vira o sal da terra

orarmos juntos
pela união de toda matéria
em frêmito e arrepios
perpassando todo poro
nos fazendo terra

2562. hemoesia

como o vinho da vida jorrado
do pescoço nu dos decepados pelas guilhotinas
da liberdade, igualdade e fraternidade
como um veio de fogo escorrendo
viscoso de cima do cume dum vulcão
dado a dissipar civilizações e estatuar vilas
como o líquido comestível derramado do
pescoço da galinha arrancada a cabeça
eterna ciscante involuntária e agonizante
como a natureza da cultura jorrada mensalmente
ventre abaixo de quase toda
anunciador do não porvir parir
como o tom do vestido arrebatador
decote atravessado lateral que mata e ama
como as bandeiras fulgurantes de um
tempo de proletárias ditaduras
como o amargo campari sorvido
para alicerçar os ímpetos de ventos calmos
e explodir efusões até carnavalizar
como o timbre da guerra
estourando miolos por todo a terra
e tânatos conduzindo-a por campos de marte

é o sangue que brota de dentro de pedras
como nascente desse rio
palavra

2554. científica ficção postética 1

aquela ciborgue
reluzia suas coxas
robóticas suavemente
pelo caminho elétrico da rua
contemplei aquela
impetuosidade meio inox
e lancei um olhar de desejo

seus olhos de pupilas
vermelhas como cerejas em calda
me fitaram longamente
creio que ela wireless
acessou meu profile
e me quis também

pisquei o olho e lancei um
gesto para que me encontrasse
na próxima esquina de teletransporte
ela sorriu faceira
sentou-se tranquila no banco
do tele e me esperou
enquanto me olhava comprar
um baseado na maconharia