2282. Obrigado pelo adeus

“Rolou um clima faz, rolou um clima faz, porque a gente é livre.”

Além disso tudo
o que vivemos
o que vai ficar
são todas essas
noites repletas
de carinho e abraço
As manhãs de manha,
refeições trashmente
requintadas para três:
eu, você e o olho gordo

Além do que vai ficar
que já me é
ficarão as passagens
de riso fácil,
as tiradas e sacadas
que enchiam o quarto de sóis

Além de você ficar
assim em mim tão bem posta,
não apenas na memória
hão de ficar projetos
e programas
que mudarão de tom
e companhia, mas que
ainda terão o pulsar
latente da sua forte
voz a me dizer:
siga em frente meu amor,
sem o meu,
mas com o seu,
por si

E eu sigo

Iporá, GO.

2281. Astrologia vaginal

– Librianas?
– Leitosas.
– Escorpianas?
– Beliscam.
– Leoninas?
– Secas grudentas.
– Sagitarianas?
– Ardidas.
– Geminianas?
– Rosas molhadas.
– Taurinas?
– Macias.
– Arianas?
– Cremosas.
– Piscianas?
– Mareadas de ar.
– Virginianas?
– Desconheço.
– Aquarianas?
– Pretendo averiguar.
– Cancerianas?
– Lacrimosas.
– Capricornianas?
– Não faço a mínima idéia.

Iporá, GO.

2276.

A decisão foi tomada
hora de jogar a
urucubaca pra fora,
mandar tudo às favas,
trilhar seu rumo

Verdades estão entupindo
o mundo inteiro
Debaixo de cada grão
de poeira assentam mil

A sua está onde quiser achar
basta criar a bendita
da maldita coragem
e tomar para si
Controlar, domar
a decisão

2261. Trouxa

Fujo sim quando me fitas,
lanço o olhar ao ar, ao léu,
me distraio desenhando qualquer
coisa no céu

Quando vem esse maneio
de cabeça e essas mãos
a desajeitar os cabelos
perco o prumo e miro
o nada e como ele
me apresento

Quando falas tão segura
de teus medos, tuas tonturas,
tuas nóias, teus anseios,
desaprendo o português
e na língua dos murmúrios
tento falar de uma vez,
coisa que me faça dizer que
penso próximo ao que
agrupa teu raciocínio lógico

Mas no fim acabo assim
tão pouco articulado,
quando paro alguns
instantes que seja ao teu lado

Alta Floresta D’Oeste, RO.

2256.

Cá o céu tem outro tom
parece esfumaçar o azul
palidamente
Cá o céu não me liga
à terra como lá
não faz ponte entre o mundo
e o não mundo
Cá o céu não abarca
os sentidos e não fornece
morada
Cá o céu desaba em fim de tardes
e se faz triste e morno pelo dia
Cá o céu me diz pouco mais
que ar rarefeito e suspenso
Cá o céu não cuida de
minha pele com um sopro
percorrendo pêlos e tato e idéias
Cá o céu não se sabe
não se acerca
Cá o céu é céu
não sentido
Cá, só o sinto

Alta Floresta D’Oeste, RO

2255.

Tenho a terra
e as mãos
Mas me faltam nuvens para
salgar as têmporas
e ânimo para o animal
sair do casulo
e tesouras para cortar essa
corda já não tesa
Essa corda que vibra em grave
tom ao breve tocar do ar
movimentado

Mas as breves vezes em que o
humano atrai mais que a
força de o domar
percorrem os sentidos
deambulantes em se fazer vozes
nas palavras
E ainda tenho a terra e as mãos
e as mãos sujas de terra
pelo movimento feito de tentar
içar o varal penso
e não esticado
que insiste em continuar tarefa louco
de ser mais que corda esticada
entre o humano e o além humano

Alta Floresta D’Oeste, RO.

2253.

É duro quando as coisas vêm assim
tão de leve
que de tudo o existente se esquece:
uma vírgula para o fôlego
o velho novo vivido de novo,
o muito tão pouco

Esse arrebatamento sem espera
que casto ao sono
em sobressalto se apodera
Quiçá pudera em razão ater
o pensamento coaduno ao ser

Mas sempre uma guerra
com dois lados erguendo bandeiras brancas
numa sanha de conseguir unificar
esse lado espírito a perambular
e esse corpo tentando respirar

Alta Floresta D’Oeste, RO.

2246.

“aquela vez em que fui a marte”
“quando fui a um spa com mamãe em saturno”
“sempre que vou a lua trago souvenires para todos”

o horror não é nem nunca ter
pisado o pé além fronteiras
o horror é saber que para além
da minha vidinha
o universo inteiro existe
para quem o pode
tocar com a ponta das cifras

Ji-Paraná, RO.