depois falam que
sou louco
mas quando
meus compatriotas
de geração
ficam roucos
com Silvio Santos
fico tonto
tanto como
se fosse louco
Tangará da Serra, MT.
Meu nome é Guilherme, poeta , professor de geografia da Secretaria de Educação-DF e mestre em geografia (UnB). Tive AVC em maio de 2020 (isquêmico) não consigo falar ainda. Tenho apraxia e afasia. Apraxia é um distúrbio neurológico motor da fala, resultante de um deficit na consistência e precisão dos movimentos necessários à fala. Afasia é uma alteração na linguagem causada por lesão neurológica.
depois falam que
sou louco
mas quando
meus compatriotas
de geração
ficam roucos
com Silvio Santos
fico tonto
tanto como
se fosse louco
Tangará da Serra, MT.
o mundo insiste
a gente persiste
e só o cisco no
olho é que existe
Tangará da Serra, MT.
não é arrogância
é só discrepância:
o que você fala
com a boca
eu entendo com
o pâncreas
Tangará da Serra, MT.
você tão sozinha…
quem sabe comigo
não cabe uma rima?
Tangará da Serra, MT.
Muitas vezes
– a maioria –
o bom é só
a sensação de
que se é
contemplado
e não a
contemplação
Tangará da Serra, MT.
Agora nada
deve vir
Porque só o
nada é que
é porvir
Nem polvilho
vem nem
queijo tem
Então nem
o nada deve
vir e deve
preencher tudo
por aqui
Sem pão de queijo
Até o fim da página
Tangará da Serra, MT.
Como o que pulsa
latejando por aí,
embaixo da sua blusa
É essa desalma
carnuda que num
refrão parco da canção
ousou-se chamar
seu coração
Tangará da Serra, MT.
o que serve aqui
pra poesia feita em
prosa?
cabe uma nuvem
rosa de textos
de dostoievski
Tangará da Serra, MT.
A gente nem
sabe
em que fim
de tarde
é que a vida
vem e vaza
pelos poros
da noite
até sangue
ser pelas
veias e
supurar o
corte do
açoite
A gente nem
sabe
quando isso
basta,
se abate um
alento de
que a vida
lenta pare
e toda noite
nunca seja
tarde
A gente nem
sabe
porque o
coração,
por si só,
bate
Tangará da Serra, MT.
Tudo repete
e nem é a
mesma coisa
Que se complete
sem ser
rota doida
Nada interessante,
cada dia me convenço
que o mundo
é dos pedantes…
Quanta besteira
tenho pra falar
vendo TV a nossa
maneira
Mas olho pro lado
e me bate uma
tristeza:
não tenho mais
a minha
companheira
Nosso início
aquático e
estelar,
benze em
fogo, vento,
terra, rio e mar,
nosso lar lunar
Fico assim
tão no clima
que nem
fujo da rima
daí penso assim
meio Marina
Quero você.
Como vou dizer?
Como quem
tem sede
e não cessa.
eu só
você sozinha
isso sim
é mudança
de rotina
E quando acaba,
pra quê mesmo
a graça?
deve ser um
lance assim
tão assado
essa de ser
cremado
Todos esses
desejos,
os ensejos,
primeiro
e último beijo,
os anseios,
os seios,
os segredos,
os medos,
realejos
Todo o desleixo,
o caído queixo,
os receios,
os enleios,
e os maneios,
aqueles trejeitos,
os sujeitos
o bem, bom, mau e mal feito,
todo o reino,
os pedaços de queijo,
o mergulho nos veios,
os selos,
os pêlos e os pelos,
os inteiros e os meios,
o derradeiro,
o esteio,
o que creio
e o que leio
Tudo aquilo
que veio
acaba a sete palmos,
sentido X
do eixo
eletrodos ao
acaso que reagem
nesse corpo
um dia a pilha
acaba e nem
rola um estouro
e dizem que
ainda há volta
mas essas
reações químicas
não querem
nova rota
nada se abate
mesmo depois
do chute no balde
sem alcance
preciso no
último suspiro
o alívio do
pacífico
descanso
Diferente do pequeno
é o definitivo gozo,
a derradeira morte como
o último jorro.
Um toque que
quase consegue
captar a própria
existência numa
fração de segundos
condenada ao
espaço entre uma
partícula e outra
a não se tocar
infinitamente
Cabe tudo nesse quase
como o que é
como uma onda
e matéria
inerte mas
à velocidade da luz
A onisciência no fim
Uma língua tesa
entre o sorvete e
a impressão
do doce gelado
Um toque que
não consegue
nunca ocorrer
A ciência de um
fim sem começo
Arrancar uma
folhinha já é
algo complicado
Pra sempre
uma folhinha
é inimaginável
pra virar
a página
basta um
dedo
ou
umas
doses
Goiânia, GO.
Enlouquecer
é findar esse
vício de você.
Goiânia, GO.
sim,
não
vim
não!
se
vão!
tão,
se
não
trabalho alienado
tratado sobre alienação
ação nacional
jornal nacional
jóias anais
asnais
Basta VER
os ônibus lotados
de manhã cedo
Basta VER
de verdade sua TV
Basta VER
o bar da moda
Basta VER
o ambiente selecionado
Basta VER
que o ao lado
É a realidade
fica fria
respira
e não estressa
depois da
meia-noite
tudo é sexta
Deve ter algo de errado
mas contei oito vezes
e meu quarto
tem oito lados
podia a saudade
não ter tanto a ver
com essa tal de idade
podia passar longe
essa do amanhã
ser para ontem
Que disparate!
Por que não abolir
essa lei da gravidade?
coisa esquisita
essa da noite
ser parte do dia
é tão mundano
essa do mundo
estar sempre acabando
a danada
pega
quando se
pensa que não
bastou um
pega
troco poemas
em massa
por dólares
em lata
acabou o
zumbido
fim do
suplício
matei o
bicho
até perceber
que ele
não estava
sozinho
bzzzzzz
Fede
e tem gosto
de fumaça?
É o trago
da minha
desgraça
circulando
grana na
praça.
Andando com Fernando
vi pessoa passar
por um alvo aro
de luz entre os campos.
Inconstante
insone
infenso
instável
instruído
inteligente
indiota
inventivo
indivíduo
incomensurável
in
introspecto
instantâneo
indestrutível
indefeso
inspetor bugiganga
inabalável
infesto
inquérito
inquieto
intocável
impronunciável
o inabitado
do interior
inteiro:
todo o fora.
a deriva
aderi voar
a derivar
como
a deriva
dos continentes:
adorável
terra a nadar
As coisas não
podem ser assim
sem motivo
Nesse mundo
de imagens
mais reais
que sua pele
De idéias
com mais
materialidade
do que o aço
Não
Não nesse mundo
Não sem motivo
Notívago
Não vago
As coisas
tem que ser
motivo, mesmo
que cínico,
mesmo que tímido,
mas que se tenha
um motivo
De vazio o mundo
já está pela tampa
De sem sentido
o mundo já é
todo sentido
Tem que haver
pra que
Tem que ter
pra onde
Antes que o amanhã
descambe em
ontem
Um ontem
de 1 bilhão
de anos antes
Ou você desiste de
atuar no mito do
príncipe encantado
e vira um machista
porco chauvinista
safado
ou você desiste
delas e passa a
dar o rabo.
Mordisca os lábios de leve
e ajeita esse pelo revolto da barba
Me diz pluma, chumbo e neve
que eu fico tua e parva
Esse teu papo furado meio bêbado
teu calor eterno e teu cheiro
que embrutece e enternece
Ajeita assim não os óculos
que eu piro e tiro meu rótulo
esqueço a minha própria vaidade
e altero o meu prazo de validade:
pra você serei sua até que queira
São lilases suas pernas
que percorro calmamente
e tua voz francesa
é poente, agradável e viva
como se parasse
o tempo em sua língua
Nos intervalos comerciais
e em todo interlúdio musical
eu coro à contemplação
dessa música do Djavan
que toco suavemente
até chegar em teu mister
Eu sonho
e cada vez mais
você é o absurdo,
condição que me faz
ficar no mundo
ainda apenas para
tocar o timbre dos
teus tons
Essa poética vespertina
que embaralha as retinas
Em duas linhas pode caber mais
do que vivem os imortais