1299.

Não possui o dom
de ser humano com
sua sublimação a toda
hora.
Não possui o fato
de ter no sangue (ou
no nome) a marca ímpar
do chicote no lombo
alheio.
Não possui a hábil mão
do fazedor de filhos
mor e do eterno ente
paternal nos peitos.
Não possui as costelas
adânicas de um anjo
torto e decaído.
Não possui a efermeridade
displicente de uma
cama a arder
em gozo.
Não possui o termo
derradeiro do ventre
que lhe cabe.
Não se encosta no poder.
Não tem um loft em
Águas Claras.
Não possui.

1289.

Falta o um real para
o hambúrguer com
salmonelas da rodoviária,
falta eu definir o que é
a vida e re-significar
o que seria morte,
falta eu vislumbrar
que o espaço e o tempo
cristalizaram o meu ser
sem história,
falta eu adentrar na
fresta de luz que borra
a noite,
falta um pouco do
que falta,
para que a aparência
seja mais que o
infinito.
Talvez falte eu, mas
ainda não me apercebi
da falta.

1285.

Passava um homem
feito com seu rádio
de pilhas ligado,
escutava as notícias
como algo perdido no
tempo, como uma rugosidade
em movimento.

Quando vi o carro
que vendia leite,
quase vislumbrei o
meu estado de passado
eterno no rosto.

Desci da vida para a volta.
Como em 1960.

1263. Pirenópolis IV

Talvez fossem os encontros
que se fizeram tão bem
Talvez fosse um som
envolvendo passos que nunca
tinham compassado
Talvez fosse a cerveja
ansiada em um bar mais calmo
Talvez fossem histórias
que se deixavam contar
Talvez fossem as pedras
das ruas que não deixavam
o corpo flutuar em qualquer lugar
Talvez fosse o sono à tarde
e o sexo no chuveiro
Talvez fosse a embriaguez,
mel, frio, calor e torpor
Talvez fôssemos amantes,
amigos, conhecidos, vizinhos
Talvez, quem sabe, talvez
tudo isso se encontre novamente
e o desencontro seja só
mais uma lembrança qualquer
no limiar de ser esquecimento