eu que tentei
hoje sei
que o que te dei
foi um hei
1252.
Se eu digo que não quero
Não é um ato mero
É que eu não desejo
Abafar meu desalento
Se você diz que quer
Não é pedido, é fé
De que o seu desejo
Seja enfim, meu alento
1251.
Ah se eu pudesse entender
que sem você o que sobra sou eu:
só, mente, só, físico, sofismo
solstício, só indício, só, suplício,
súplica, só.
1250.
Nada mais que um problema a mais
É o que eu carrego nas mãos
Sem dádivas, dívidas, dúvidas
Só um parco, pobre, pardo coração
Nada menos que a média geral
É o que me difere da multidão
Quando ando pelas ruas sou um vulto
Que em nada se difere do vão
Nada de cores em dores de seus tons
Só uma figura cinza no campo da visão
Mais esses meus passos apressados
Descompassando ato e sensação
1249.
Há pouco foi
o marco,
mas os dias
e as noites
vêm e vão-se
tão facilmente
que não
entendo o
porquê de
fazer do marco
um menor
ato.
Amo e
ponto.
1248.
Escolhi não
pensar e
nesse ato
pensei minha
escolha.
Sopesei tudo,
amei sem
pensar.
1247.
Teu (sinto o
meu), é teu
sobre o teu,
mesmo eu
sendo eu, é
o que é meu
no teu.
Só consigo
pensar (e sentir)
o meu
quando do teu.
(lógica? às favas
com ela!)
Quero sentir-me
em ti.
1246. Caderneta
As últimas
páginas são
minha vida,
As primeiras
o que me faz,
se te apraz
isso que sou,
dou-me a ti
assim: todas
as novas páginas.
1245.
Minha libertação
é dizer-te:
amo-te, fico
contigo,
perder medos,
viver o
que sinto.
1244.
Poente em teu cume
Um ocaso lindo
que resplandece
tuas idéias
Ficastes linda
com teu cabelo
não de cobre
1243. Tema para Izis IV
Mergulho
sem receios
– não sei
nadar –
Me lanço
falta qualquer
medo
– não sei
voar –
Te alcanço
em teu esteio
– viver
te amar
1242.
Bebi sua noite
embebido de você
Bebi teu ser
e dormindo a
vi no aquário do
meu sonho
liquefeita, surreal
e linda.
1241.
Supunha teu
beijo.
Ao toque
compus o
gosto e o
desejo.
1240.
Calar tua dor
com meu sorriso
Sedar tua angústia
com meu suspiro
Trazer o meu
afago pleno
bem em você,
tudo contido.
1239.
Scraps de papel
e próximos
são melhor do
que qualquer saudade.
1238.
Hoje eu sou
um eu tão fácil
que nem sei
como dizer
sou só esse
eu que sai
leve e verdadeiro
quando com você.
1237.
Ao acordar
vejo que o
temor era
verdade:
ela nem estava
sobre meu peito.
1236. Até sorrir
Como inventar
um alento?
Será que até
as nove eu agüento?
1235. Questões utilitaristas
Ela me usa
como meio
ou como fim?
Eu tento
transcender isso.
Não a uso,
vivo meu
carinho.
1234. Fátima
Nem preciso aprisionar-te
num vazo cheio de crisântemos
companheiros
A tua beleza se dá no balanço
de tuas pétalas onde o vento
puder te tocar melhor
Quero-te assim:
flor-de-ir-embora
1233.
O pedido do
beijo foi o
desejo de todo
norte.
1232. Desire
Afogar-me
em teus seios
e desenhar
meus contornos
em cima
dos seus
1231. Disritmia
Tenho várias
inexplicações
no meu peito.
Talvez eu tenha
vários peitos
incontroláveis.
De dor,
ardor e até
torpor.
Um dia eu tendo
o compasso deles.
1230. O orvalho
O que falho:
o que valho.
1229.
A vida é
só um ato
falho.
1228.
O cigarro me
deu a liberdade
dos espaços
abertos.
Que se confinem
os não fumantes
entre quatro
paredes
respirando o
ar viciado
de suas
humanidades.
1227.
Uma questão de
pele, com certeza.
A lisa, leve e
alva seda
que a minha
áspera e cinza
insiste em lembrar
agora.
1226.
Noite plena
poucas palavras
pela manhã
só meu sorriso
se assentando
1225.
Essa água
que invade
o quarto pela
fresta da janela
trás a lágrima
que invade o
mundo pela
fresta da
minha alma.
1224.
O flerte
a condição
o afago nas bolas
O inerte
a contradição
o passar das horas
1223. Falta a proposta
Três copos cheios
Duas faltas cheias
Uma dor vazia
O meu olhar
vago: a solução
posta na conclusão
menos óbvia, a
solidão do carinho
múltiplo e vaziamente
preenchido.
1222. Ser sol
Caído estava
por entre árvores
tortas.
Morria tépido
encontrando o
limite das águas,
a luz difusa
de um não renascer.
Morria único e
imortal
num arfar
leve e sutil
ao mundo não
visto.
Existia apenas
e não era só
o sol, era-me
também.
1221.
Nem esse seu nome
estranho há de
condoer meu estado
alegre de tristeza
nesta minha ignorância.
1220.
Sou só saudade
do que ainda
não se foi.
1219.
Algo me acometeu
pela manhã
foi a mensagem
da existência
que me trouxe
um beijo da
poeira sobre meus
ossos.
Existo e isso pode
ser o melhor de
tudo.
1218.
Amolei minha alma,
entra agora tudo
fácil e regozijar-se
de qualquer artifício
da natureza e
vários artefatos
sociais.
Espelho-a a um
deus vário que
ama toda sua criação.
1217.
Ataca e aflige
é uma batalha
que se dá
assim, entre o
eu e o no
em mim
Palavras disparadas
cravam-se em
meu peito
1216.
Agora sim eu
te tiro de
mim bem fácil,
basta olhar
o céu que não
me abriga e
a terra que não
me sustenta.
1215.
Eu existo
mesmo, tão
humano quanto
qualquer um
e ao caralho
quem não
gostar disso!
1214.
sentir o teu
corpo sem
frustração
e gozar sem
não sentir
aí sim, sorrir
1213.
Chato sou eu
que nunca me
embriago.
1212.
Eu sabia
o que dizia
antes da
inexistência
constatada,
mas eu
queria mesmo
era saber.
1211.
Escreve
e apaga
Escreve
e apaga
Mas só na
fixação
freudiana
há a
satisfação
de não sentir
nada que não
a casa e o
tapete
1210.
Poderia iluminar
algo com a luz
que cai de meus
olhos,
mas de posse eu
nem entendo,
porque nem eu
mesmo nunca estou
me tendo.
Minha luz nada tem.
1209. Kunderiana
Transforme peso
em leveza:
imortalidade,
riso e brincadeira.
1208.
Carne em tiras
finas minha sina
Pouco importa
minha dor
Minha carnificina.
1207.
A plenitude da
decisão no ato
mero de escrever
Preencha essas
palavras de mim
e de você
E pouco me condói
o fato de que
elas as vão ler
e te saber.
1206.
Em meio a solidariedade
nasceu minha palavra
em seu mundo
Os irmãos e os amantes
tornaram-se fecundos
E ao ventre outro
cansa-se um temor absurdo
Trocamos poemas
invisíveis e noturnos
1205. E onde?
Doem os ânimos
uns aflitos
pelas cores do
amor
outros angustiados
com novos Muros
de Berlim
alguns mais ansiosos
por conta do
inevitável
Todos masoquistas
por antecipação
1204.
Angélica, não quero
ter Izis, só
quero viver o
que acontecer.