0838. Todos precisam de um vício destrutivo

Acordou bem
no horário
disposto
fez seu alongamento
correu trinta e cinco minutos
comeu seu desjejum
tomou seu banho
escovou seus dentes
chegou em ponto no trabalho
ligou pra namorada
disse que a amava
(e a amava)
marcou no almoço
saiu na hora
almoçou com sua linda
voltou no horário
trabalhou com eficiência
cometeu um lapso ao
final do dia: saiu 10 minutos
adiantado: tinha de pegar
sua fofa para ir ao cinema
assistiram num shopping
deixou-a em casa
foi-se para a sua
ligou quando chegou:
“te amo”
(e a amava realmente)
tirou suas roupas
guardou-as no cesto
arrumou as da manhã seguinte
tomou um copo de leite
escovou seus dentes
dormiu

não há de se maldizer nada
mas e a vida, para onde foi?

0835.

Olhar para os lados sem ter motivo
Virar um estado de contemplação
Querer nada mais que o nada
Amar tudo, todos e ninguém
Ser triste sem medo
Ser feliz quando há tempo
Ouvir blues às 3:00 da manhã
Sonhar com sua ex-namorada
Admirar a beleza daquele rapaz
Passar o dia sem comer
Comer tudo o que ver pela frente
Encher a cara com qualquer um
Acender um cigarro após seis anos
Voltar sozinho pra casa
Dormir com qualquer um
Ter dinheiro no bolso
Perder um pouco de si
Ficar consigo e se bastar
Mesmo que seja outra prisão

0833.

Eu grito agora o
que nem sei se escrevo,
é algo que sai entre
o risco ao papel e
a certeza de que algo
há de ser dito, e digo.
Embora a um olhar
atento nem pareça
ser qualquer coisa.
Talvez sejam essas
notas tão rápidas
que inibem o que
quer dizer minha
alma, mas o choro
ao som comove
meus sentidos a
serem mais que
palavras estas aqui:
dou-te a liberdade.

Alto Paraíso, GO.

0823. 1º movimento: a morte

surfava por entre os carros
deslizava no encontro da borracha
com o asfalto. fazia um barulho
imenso, devido ao rolamento
falho. pigarreava os excessos
da noite finda.
o corpo cansado, a canela
esfolada do último tombo.
pensava em nada,
vivia um grande nada
e por isso era feliz. no dia
em que cresceu e tirou a
barba e penteou os cabelos,
passou a viver sua morte:
significou sua vida e
acabou-se a poesia.

0816. Ah se eu não fosse agnóstico…

O ônibus como sempre
A mesma fila à frente
O distúrbio da buzina
O descompasso da vida
A fala infinda ao lado
O sono justo e suado
A trepidação da via
O sonho da alternativa

E no meio do engarrafamento
o sol se pondo ao poente
num vermelho de tudo,
em meio a um azul já negro
e bem no meio desse sol
um ipê florindo, despontando
seu amarelo, contrastando
com a vida… parei, respirei
e ouvi meu coração:
as coisas ainda cabem no mundo

0801. Informações sobre a vida (freudiano)

Menina que faz menino, não é mais menina.
Menino que faz menino, não é mais menino.
Menina que faz com menino, não é mais menina.
Menino que faz com menina, não é mais menino.
Menina que faz qual menino, não é mais menina.
Menino que faz qual menina, não é mais menino.
Menina que faz com menina, não é mais menina.
Menino que faz com menino, não é mais menino.
Menina que faz como menino, é quase menino.
Menino que faz como menina, é quase menina.
Menina que faz com menina e menino, é quase menina.
Menino que faz com menino e menina, é quase menino.

0798. Metamorfoses

um pouco de paz recai sobre os ombros
parece ser um mínimo de coerência
mas pode ser também o enredo triste
de uma peça sem sentido e sem noção
pode ser o começo de minha desgraça
mas pode ser o final de meu poente
pode até ser uma noite eterna em dia
e ainda assim ser o sentido que faltava
pode ser que eu me encontre no mar
mas pode ser que eu me perca neste

quase corcunda de tanta paz recosto-me
na janela aberta e me deixo cair aos poucos
parece ser um mínimo de existência
mas pode ser o que não mais há de me ser
e ao mesmo tempo há de me caber todo
pode ser o que não digo por entre as
palavras de amor e também o que se sabe
pode ser até mesmo doce e ainda mais azul
como se fosse um filme bem dirigido
mas pode ser que seja mesmo a vida

te amo, pacificamente, como se normal,
em outro rumo, em outro ambiente
em paz comigo, consigo, contigo e com tudo
contudo, pode ser até mesmo saudade,
mas que se fosse chamaria-se amor mesmo
pode ser até mesmo indiferença, mas
que é paz de toda forma, posto que é e
isso basta. Poderia até ser o que não se é
mas no mar, no ar, me perco, despenco
viro aquilo que ainda não posso definir
(continuo)

0797.

Minha amada, cai o mundo sobre o céu
refletindo meu peito.
Não sei seu nome, não sei sua sorte
não sei.
Tenho a sorte de te haver em mim
mesmo ainda não a tendo
Tenho o mundo caído sobre meu peito
refletindo um céu sem nome,
Não há, não houve, nada cabe nesse ínterim

0795.

Eu quero é amar irrestritamente
quem passar pela minha frente
Eu quero é sentir o corpo de alguém
colado ao meus pelos e suor
Eu quero é ser livremente amado
por quem quiser me amar
Eu quero é me dar
Eu quero é me entregar para quem for
Eu quero é me doar para quem quiser
Eu quero é a imensidade do conceito
de liberdade na máxima interpretação
do termo amor
Eu quero é externar minha vida
pra quem me apraz e até pra quem não me apetece
Eu quero é a solicitude de uma vida
em minhas mãos e o seu jogar fora sem culpa
Eu quero o que não me dá prazer
e o que mais me enternece a alma
Eu quero é apaziguar meu ânimo
e deixar que os outros cuidem do seu
Eu quero é ser responsável pela conduta
do outro e depois deixá-lo ao léu
sem lenço, documento, sem vida e sem amor
Eu quero é que todos saibam que isso
tudo é a vontade do meu amor e do meu ego