o gosto do céu
é da cor dele
que reflete ondas
0802.
cheio de ar n’alma
parece que nada há
cheira a alma e ar
0801. Informações sobre a vida (freudiano)
Menina que faz menino, não é mais menina.
Menino que faz menino, não é mais menino.
Menina que faz com menino, não é mais menina.
Menino que faz com menina, não é mais menino.
Menina que faz qual menino, não é mais menina.
Menino que faz qual menina, não é mais menino.
Menina que faz com menina, não é mais menina.
Menino que faz com menino, não é mais menino.
Menina que faz como menino, é quase menino.
Menino que faz como menina, é quase menina.
Menina que faz com menina e menino, é quase menina.
Menino que faz com menino e menina, é quase menino.
0800. Jazz in the bus
That empty face
say things so easy
The beautiful black
smile in this face
is more like a half moon
in the mirror of
the bus window.
Now, I believe: that
empty face is the
most pure life.
0799. Ouça
Enfim, o encontro.
Os atos todos,
meras técnicas
pedagógicas
Apenas aportes
metodológicos
E quando eu
me mostrei um
grande monstro,
foi só pra te
ensinar uma
lição apenas:
assim, caminha
a humanidade.
0798. Metamorfoses
um pouco de paz recai sobre os ombros
parece ser um mínimo de coerência
mas pode ser também o enredo triste
de uma peça sem sentido e sem noção
pode ser o começo de minha desgraça
mas pode ser o final de meu poente
pode até ser uma noite eterna em dia
e ainda assim ser o sentido que faltava
pode ser que eu me encontre no mar
mas pode ser que eu me perca neste
quase corcunda de tanta paz recosto-me
na janela aberta e me deixo cair aos poucos
parece ser um mínimo de existência
mas pode ser o que não mais há de me ser
e ao mesmo tempo há de me caber todo
pode ser o que não digo por entre as
palavras de amor e também o que se sabe
pode ser até mesmo doce e ainda mais azul
como se fosse um filme bem dirigido
mas pode ser que seja mesmo a vida
te amo, pacificamente, como se normal,
em outro rumo, em outro ambiente
em paz comigo, consigo, contigo e com tudo
contudo, pode ser até mesmo saudade,
mas que se fosse chamaria-se amor mesmo
pode ser até mesmo indiferença, mas
que é paz de toda forma, posto que é e
isso basta. Poderia até ser o que não se é
mas no mar, no ar, me perco, despenco
viro aquilo que ainda não posso definir
(continuo)
0797.
Minha amada, cai o mundo sobre o céu
refletindo meu peito.
Não sei seu nome, não sei sua sorte
não sei.
Tenho a sorte de te haver em mim
mesmo ainda não a tendo
Tenho o mundo caído sobre meu peito
refletindo um céu sem nome,
Não há, não houve, nada cabe nesse ínterim
0796.
cada um como
se deve ser
cada um sendo
é como se
cada um sendo
se devesse ser
cada um como
se deve
0795.
Eu quero é amar irrestritamente
quem passar pela minha frente
Eu quero é sentir o corpo de alguém
colado ao meus pelos e suor
Eu quero é ser livremente amado
por quem quiser me amar
Eu quero é me dar
Eu quero é me entregar para quem for
Eu quero é me doar para quem quiser
Eu quero é a imensidade do conceito
de liberdade na máxima interpretação
do termo amor
Eu quero é externar minha vida
pra quem me apraz e até pra quem não me apetece
Eu quero é a solicitude de uma vida
em minhas mãos e o seu jogar fora sem culpa
Eu quero o que não me dá prazer
e o que mais me enternece a alma
Eu quero é apaziguar meu ânimo
e deixar que os outros cuidem do seu
Eu quero é ser responsável pela conduta
do outro e depois deixá-lo ao léu
sem lenço, documento, sem vida e sem amor
Eu quero é que todos saibam que isso
tudo é a vontade do meu amor e do meu ego
0794.
Você chegou devagar
na hora que mais precisava
Chegou para ficar
e ficou minha namorada
Fez posto em meu respirar
e não largo mais por nada
0793. Olhar mar (amar)
Olhar mar
e como vem ao mar
e quando vem ao mar
e porque vem…
Passou, chegou, se foi
ficou e é
Molhou, marcou, depois
e antes e até
Num ir, num vir, sem fim
em si, se é
Devir, ser só assim
é o mar e fé
Olha o amar
e como vem a amar
e quando vem a amar
e porque vem…
Tocou, encheu de alga
e peixe e ar
Azul, é verde à luz alta
lilás e grená
Um toque, a areia, a água
o sal e o mar
Em outro, a vaga alma
querer e o amar
0792. Amores
quase se descobre o que existe
entre a intenção e o gesto
mas é algo tão lá guardado
que retirar um véu na busca
de um modo de ser é senão
uma intenção e um gesto
e também algo lá guardado
0791. Em Brasília
íamos passeando por entre o céu
víamos nós como o que já havia sido
amávamos o que não nos continha
negávamos qualquer ato conhecido
andávamos entre insanos, ao léu
0790. A história de um beijo
“Quando adormecia na ilha de Lia,
meu Deus eu só vivia a sonhar,
que passava ao largo do barco de Rosa…”
Um sono comeu meu mundo
Foi um sonho, qual um presságio
Até uma pessoa lá morreu
Foi só por uma vida, quase nada…
Eu vi, você me via
E havia lá uns olhos de ressaca
E havia o pecado forjado em bronze
E havia mais um mar
E mais a ressaca do mar
E mais os seus olhos vendo-me
Um mundo comeu o meu sono
Foi uma realidade tal, num adágio
Até uma sinfonia lá se deu
Foi só por toda a vida, quase nada…
Eu ouvi, você me ouvia
E havia cá uma melodia de nada
E havia o amor posto não sei onde
E havia mais um ar
E mais o vazio do ar
E mais os seus ouvidos ouvindo-me
0789. Julho: rosa e azul
O céu parece que vai despencar
e logo ficaremos todos loucos,
mas nesta hora, ipês sustentam
o firmamento azul e garantem
roseamente a sanidade mental
0788. Essas coisas todas, chamadas, letras e palavras
Essas coisas todas chamadas letras e palavras
Essas coisas todas autochamadas
Essas coisas todas que letras e palavras chamam
Essas coisas todas que são letras e palavras
são todas letras e palavras auto-intituladas
e que formam essas coisas todas
por isso, são coisas, são letras e são palavras
0787. Rodoviária, 8 da manhã.
Pela manhã tudo tem cara de coisa boa. Manhã de sol, doirando o mundo que poderia até ser feio, deixa tudo com ares de coisa irreal, mais que real, briluz. Na rodoviária as pessoas brilham tanto e há ainda as sombras perfilando a luz, que chega a parecer que o mundo ainda pode ser algo mais além dele mesmo. Perco meus pés, não ando, apenas observo as luzes, o brilho, as sombras, aí vejo que a beleza da luz reside na hora das sombras e que a perpendicularidade luminosa deixa as coisas tesas demais, sem vida ou até mesmo só vida. O esplender da luz é a sombra e o dourado que a permeia. As coisas são mais belas quando olhadas pela luz do ângulo de 30º.
Saí da rodoviária, entrei no céu e guardei aquela luz em mim.
0786.
E a solução esperou-te ainda mais um pouco
Quis te mostrar o limoeiro e as amoras
Quis te afagar os cabelos
Quis te tocar os lábios miúdos
E tu, como era de se esperar, ficaste perdida
No desandar do sair atrasada
E a solução esperou-te ainda mais um pouco
(pretensamente pensando em ser alguma solução)
(na verdade deveria ser o avesso de uma solução)
(ainda bem que não veio)
0785. Colo
havia um corpo em seu colo àquela noite
era um corpo bem feito, real, existente
nunca um desses disparates do mundo super-real,
era um corpo branco, posto no lugar,
sua gordura, sua estria, seu pelo, sua mancha
era um corpo que repousava em seu colo
e dentro do corpo havia alguém – lá no fundo
e lá no fundo gritava ao corpo que sim, que fosse
que se deixasse envolver ao seu corpo
e era o que você compreendia nesse então
havia um corpo em seu colo àquela noite
a luz das lâmpadas acesas dizia que era somente noite
quando madrugada já era – e ao seu corpo um corpo
e você percorreu as costas daquele corpo com as mãos
seu corpo estremeceu e o corpo em seu colo calou-se
e você percorreu os fios daquele corpo com as mãos
alguém dentro de você estremeceu
e o corpo em seu colo foi corpo e vocês ficaram lá,
como corpos com alguém em seus fundos
– lá no fundo
0784.
Era um dia de dezembro
Era alguma hora de uma terça
Era em algum lugar
Eram duas pessoas
Era na realidade uma multidão
Era a sensação que os percorria
pra ser sincero, para aqueles dois
“era”, e isso já bastava
0783.
Ah Ivana, se você escutasse
essas verdades agora,
daríamos várias risadas
da nossa condição humana
e principalmente da condição
dos outros. O que move o mundo
é o pecado consigo mesmo.
0782.
Quando vejo nós dois
é que maldigo a física:
em nosso caso, a menor
distância entre dois pontos,
não é uma linha reta.
0781.
Tua agressividade
é o que me mantém
assim, eternamente
em suas mãos,
dramático, fatal
(pisa que eu gosto…)
0780.
Não fosse pelo fato
de nunca ter de fato sido,
poderia ter o mais belo
e puro do mundo agora.
Por isso prefiro o passado
lá mesmo e pensar que o não
sido, poderá.
São os lampejos
do martírio na esperança.
0779. E se eu falasse amor?
Esse algo que fica bem
no meio do estômago pode
bem ser da ressaca,
mas quase certo é que o
indizível do momento
é escutado aos berros por
minhas entranhas neste então.
0778.
O que alucina é o enclausurante
sentido posto ao amor de então.
Uma ditadura velada à pluralidade
do amor.
Fecharam-no em conceitos,
cassaram-lhe as possibilidades de
seus existires.
Exilaram o amor em seu oposto,
pondo-o na imanência.
Falaram-me certa vez que a prova
máxima do amor divino
foi o livre arbítrio.
E nós aqui, aprisionando
a liberdade…
0777.
Essa poesia eu não te escrevo.
É a poesia que sempre existiu
e nunca foi. Um adeus desmedido
antes do encontro definitivo.
É a poesia feita em homenagem
ao teu filho. Uma retórica, um
acaso dos sentidos. Essa poesia
é pra tua maternidade e tua
descoberta, pra sorte do teu
amor e para o teu amor infinito.
É o segredo que nunca há de ser,
posto que nem a mim foi feito.
Essa poesia é meu afago não ocorrido
e a mitigação de um arrependimento
que é só um devir. Essa poesia é
só um carinho.
Laguna, SC.
0776. A ditadura da visão
Quero é sentir o mundo
com os dedos
Beijar todos com as mãos
Eu quero é sentir o gosto
amargo de lamber meu próximo
e sentir sua vasta gama
de cheiros.
Eu quero é ouvir os
sons desde o vento
percorrendo os pelos,
até o som dos ossos crescendo.
Laguna, SC.
0775.
Eu aqui no mar
Você por todo o aqui
No meu ar, no espaço
que começa e encerra em mim
No que eu não percebo,
No que eu não toco.
Até nestas ondas que não
tocam meus pés.
Laguna, SC.
0774.
Quando se retira
o que se encobre,
deve-se ter cuidado
com o onde colocá-lo.
0773.
A gente descobre
a vida no ato
de a viver e não
no momento de
a preconceber.
Cada ser em si
é.
Isso basta.
Laguna, SC.
0772. Elementos e o sono
O sono nos consome.
É o silêncio do não
saber o que falar e
ainda assim falar.
É o zunido do microfone
falho e a carícia
no ego sempre desperto.
É o afago doce e suave
em suas próprias bolas.
É o quadro perfeito
para incitar o sono
dos justos.
Laguna, SC.
0771.
Quanto custa meu corpo?
Qual é o valor de uso
dos meus pés?
Quanto agrega a força
de trabalho empreendida
por minhas mãos?
E o intangível de
minhas idéias, qual é
seu preço?
Quanto vale meus
sentimentos?
Vendo essa poesia por
10 centavos, paga a
tinta da caneta e o papel.
Laguna, SC.
0770. Mar
Em qual litoral o mar começa?
O mar é esse que começa e
termina em si.
O mar é sua forma e seu movimento.
O mar materializa a relatividade.
É bonito, é bonito…
Laguna, SC.
0769. Búdicas III
Se ao toque do imaginário
o real se esvai, o sonho
é que é a realidade. Uma
pena que o sonho,
o imaginário a realidade
e até o toque não são.
Laguna, SC.
0768. Búdicas II
O que me faz não é essa
condição masculina, sexo
teso, pelos e fogo.
Não os paroxismos
teoremas e teses
que eu me propus a
adquirir entre a poeira
e o mofo dos alfarrábios.
Não o puro sentido
que foi experienciado,
o que foi vivido.
O que me faz é antes
de tudo, o vazio.
Laguna, SC.
0767. Tao
Somam-se os ocasos
ocasionalmente sobrepostos
aos crepúsculos.
Todos os dias o sol
nasce ao seu morrer
e os diúculos são
sempre e ao mesmo tempo,
indícios da noite.
Laguna, SC.
0766. Búdicas I
Não sei as palavras para
indicar os estados da alma
neste modo de ser.
É sempre um vazio se
pondo sonora e graficamente
que penso ser a inteligibilidade
deste encontro chamado
pensamento, algo tão inútil
quanto tudo.
Laguna, SC.
0765.
Algo insone percorre
como sempre seu ciclo
lunar, inflado hoje
como a irmã que
paira ao ar
Algo luminoso,
insuportável
à própria luz,
um estado interessante
feito em meio
a um dia de sangue
Se auto-parindo no
próprio ato de fecundar
Algo flutua ao espaço
e conduz as idéias
algo insone,
dorme sempre em mim.
0764.
Se um dia eu precisasse
dizer a máxima da beleza
humana, diria essa palavra
que eu não sei: seu nome.
0763.
Hoje eu segurava uma taça
como se pudesse ter um traço nobre
em minha conduta
Minhas veias não percorrem um
sangue guerrilheiro, só de um
xerente, um canoeiro, um seringueiro
um castanheiro, cafusos,
mulatas, negras e escravas…
Sinto uma verdade em meus ombros
que não se pode calar
E lá fora o sujeito sendo
filmado em orelhas estupidamente
gigantes me leva a crer que
(conjunto aos relâmpagos que aqui
se fazem em Marabá), a verdade está
no peito de cada um e eu,
mesmo sendo mulher, me sinto homem,
mestiço, brasileiro, anarquista e
antes de tudo humanista.
Marabá, PA.
0762.
um grande amigo meu
foi anistiado
e a minha anistia
cármica, quando sai?
0761. Shoppinganas IV
Uma luz murmurava a tentativa de iluminar
algo em meio ao contínuo dia do shopping.
Era uma luz verde, insignificante à
multiplicidade cromática da branquidão
dos não-lugares.
Lá fora podia estar azul, negro, cinza…
Cá dentro, sempre a imensidão multicor
da monotonia da luz e a aquele embate
insignificante do verde contra o nada.
0760.
O pior castigo para um ateu
é quando em meio a uma crise de nada
se clama “ai meu Deus”
0759.
Houve um dia em que o que acontecia
não era só o vento
A razão insistia em acalmar dizendo
que era só o ar em movimento
Mas não era,
era mais,
era algo dito, segredado.
Era aquele silêncio sussurrado
pelos lábios antes do primeiro beijo
Era um ensejo, um desejo do mundo
a dizer algo como,
senão se,
além de.
Era isso aqui mesmo escrito
e apazigua o espírito.
0758.
Poesia sem título já nasce sem
Se se pensou em lhe postar um
É porque um título ela já tem
0757.
Era só saudade o que
se passava naqueles dias
Era só saudade este
vazio que se acomodava
Era só saudade,
mas doía…
0756. Dor
Sobre o corte não firmado
Sangra a dor de uma ferida
não supurada
Escorre a esperança em
lágrimas e ódio
como se fossem o sangue
não vertido pelo corte
abstrato
O limite entre a dor e o desejo é a intenção e o ato:
buscar a coerência entre o desejo e a reação
O desejo não mantém o prazer
O prazer não é a antítese da dor
Há assim que se largar na vida
Há que não se esperar mais nada
0755. Do vazio
Tenho fixação na palavra vazio
Preenchi toda a minha mente
Na pronúncia do vazio
Esvaziei os conceitos e as
bases na busca do vazio
Pus num vazo crisântemos e cravos
imaginários, para adornar o vazio
Vali-me de toda a sorte de sensações,
querendo sentir o vazio
E foi num lampejo de entre o
vislumbrar letras e um papel
que contemplei finalmente o vazio
no firmar dos olhos de palavras
sem sentido
0754. Prelúdio de fim de noite
Sobre os restos dessa hora
Ficam os cacos do preenchido
No preludiar do avesso da aurora
Deitam as réstias de algo vazio
Só sobraram as moças com
calças brancas quase translúcidas
Só sobraram os homens com a
barba mal feita e suas barrigas
Só sobraram as luzes e essa
fumaça famélica do churrasquinho
e eu, tentando ser por inteiro
em meio às trabalhadoras da
noite e os consumidores noturnos