0801. Informações sobre a vida (freudiano)

Menina que faz menino, não é mais menina.
Menino que faz menino, não é mais menino.
Menina que faz com menino, não é mais menina.
Menino que faz com menina, não é mais menino.
Menina que faz qual menino, não é mais menina.
Menino que faz qual menina, não é mais menino.
Menina que faz com menina, não é mais menina.
Menino que faz com menino, não é mais menino.
Menina que faz como menino, é quase menino.
Menino que faz como menina, é quase menina.
Menina que faz com menina e menino, é quase menina.
Menino que faz com menino e menina, é quase menino.

0798. Metamorfoses

um pouco de paz recai sobre os ombros
parece ser um mínimo de coerência
mas pode ser também o enredo triste
de uma peça sem sentido e sem noção
pode ser o começo de minha desgraça
mas pode ser o final de meu poente
pode até ser uma noite eterna em dia
e ainda assim ser o sentido que faltava
pode ser que eu me encontre no mar
mas pode ser que eu me perca neste

quase corcunda de tanta paz recosto-me
na janela aberta e me deixo cair aos poucos
parece ser um mínimo de existência
mas pode ser o que não mais há de me ser
e ao mesmo tempo há de me caber todo
pode ser o que não digo por entre as
palavras de amor e também o que se sabe
pode ser até mesmo doce e ainda mais azul
como se fosse um filme bem dirigido
mas pode ser que seja mesmo a vida

te amo, pacificamente, como se normal,
em outro rumo, em outro ambiente
em paz comigo, consigo, contigo e com tudo
contudo, pode ser até mesmo saudade,
mas que se fosse chamaria-se amor mesmo
pode ser até mesmo indiferença, mas
que é paz de toda forma, posto que é e
isso basta. Poderia até ser o que não se é
mas no mar, no ar, me perco, despenco
viro aquilo que ainda não posso definir
(continuo)

0797.

Minha amada, cai o mundo sobre o céu
refletindo meu peito.
Não sei seu nome, não sei sua sorte
não sei.
Tenho a sorte de te haver em mim
mesmo ainda não a tendo
Tenho o mundo caído sobre meu peito
refletindo um céu sem nome,
Não há, não houve, nada cabe nesse ínterim

0795.

Eu quero é amar irrestritamente
quem passar pela minha frente
Eu quero é sentir o corpo de alguém
colado ao meus pelos e suor
Eu quero é ser livremente amado
por quem quiser me amar
Eu quero é me dar
Eu quero é me entregar para quem for
Eu quero é me doar para quem quiser
Eu quero é a imensidade do conceito
de liberdade na máxima interpretação
do termo amor
Eu quero é externar minha vida
pra quem me apraz e até pra quem não me apetece
Eu quero é a solicitude de uma vida
em minhas mãos e o seu jogar fora sem culpa
Eu quero o que não me dá prazer
e o que mais me enternece a alma
Eu quero é apaziguar meu ânimo
e deixar que os outros cuidem do seu
Eu quero é ser responsável pela conduta
do outro e depois deixá-lo ao léu
sem lenço, documento, sem vida e sem amor
Eu quero é que todos saibam que isso
tudo é a vontade do meu amor e do meu ego

0793. Olhar mar (amar)

Olhar mar
e como vem ao mar
e quando vem ao mar
e porque vem…

Passou, chegou, se foi
ficou e é
Molhou, marcou, depois
e antes e até

Num ir, num vir, sem fim
em si, se é
Devir, ser só assim
é o mar e fé

Olha o amar
e como vem a amar
e quando vem a amar
e porque vem…

Tocou, encheu de alga
e peixe e ar
Azul, é verde à luz alta
lilás e grená

Um toque, a areia, a água
o sal e o mar
Em outro, a vaga alma
querer e o amar

0790. A história de um beijo

“Quando adormecia na ilha de Lia,
meu Deus eu só vivia a sonhar,
que passava ao largo do barco de Rosa…”

Um sono comeu meu mundo
Foi um sonho, qual um presságio
Até uma pessoa lá morreu
Foi só por uma vida, quase nada…
Eu vi, você me via
E havia lá uns olhos de ressaca
E havia o pecado forjado em bronze
E havia mais um mar
E mais a ressaca do mar
E mais os seus olhos vendo-me

Um mundo comeu o meu sono
Foi uma realidade tal, num adágio
Até uma sinfonia lá se deu
Foi só por toda a vida, quase nada…
Eu ouvi, você me ouvia
E havia cá uma melodia de nada
E havia o amor posto não sei onde
E havia mais um ar
E mais o vazio do ar
E mais os seus ouvidos ouvindo-me

0787. Rodoviária, 8 da manhã.

Pela manhã tudo tem cara de coisa boa. Manhã de sol, doirando o mundo que poderia até ser feio, deixa tudo com ares de coisa irreal, mais que real, briluz. Na rodoviária as pessoas brilham tanto e há ainda as sombras perfilando a luz, que chega a parecer que o mundo ainda pode ser algo mais além dele mesmo. Perco meus pés, não ando, apenas observo as luzes, o brilho, as sombras, aí vejo que a beleza da luz reside na hora das sombras e que a perpendicularidade luminosa deixa as coisas tesas demais, sem vida ou até mesmo só vida. O esplender da luz é a sombra e o dourado que a permeia. As coisas são mais belas quando olhadas pela luz do ângulo de 30º.
Saí da rodoviária, entrei no céu e guardei aquela luz em mim.

0786.

E a solução esperou-te ainda mais um pouco
Quis te mostrar o limoeiro e as amoras
Quis te afagar os cabelos
Quis te tocar os lábios miúdos
E tu, como era de se esperar, ficaste perdida
No desandar do sair atrasada
E a solução esperou-te ainda mais um pouco
(pretensamente pensando em ser alguma solução)
(na verdade deveria ser o avesso de uma solução)
(ainda bem que não veio)

0785. Colo

havia um corpo em seu colo àquela noite
era um corpo bem feito, real, existente
nunca um desses disparates do mundo super-real,
era um corpo branco, posto no lugar,
sua gordura, sua estria, seu pelo, sua mancha
era um corpo que repousava em seu colo
e dentro do corpo havia alguém – lá no fundo
e lá no fundo gritava ao corpo que sim, que fosse
que se deixasse envolver ao seu corpo
e era o que você compreendia nesse então

havia um corpo em seu colo àquela noite
a luz das lâmpadas acesas dizia que era somente noite
quando madrugada já era – e ao seu corpo um corpo
e você percorreu as costas daquele corpo com as mãos
seu corpo estremeceu e o corpo em seu colo calou-se
e você percorreu os fios daquele corpo com as mãos
alguém dentro de você estremeceu
e o corpo em seu colo foi corpo e vocês ficaram lá,
como corpos com alguém em seus fundos
– lá no fundo

0778.

O que alucina é o enclausurante
sentido posto ao amor de então.
Uma ditadura velada à pluralidade
do amor.

Fecharam-no em conceitos,
cassaram-lhe as possibilidades de
seus existires.

Exilaram o amor em seu oposto,
pondo-o na imanência.

Falaram-me certa vez que a prova
máxima do amor divino
foi o livre arbítrio.
E nós aqui, aprisionando
a liberdade…

0777.

Essa poesia eu não te escrevo.
É a poesia que sempre existiu
e nunca foi. Um adeus desmedido
antes do encontro definitivo.
É a poesia feita em homenagem
ao teu filho. Uma retórica, um
acaso dos sentidos. Essa poesia
é pra tua maternidade e tua
descoberta, pra sorte do teu
amor e para o teu amor infinito.
É o segredo que nunca há de ser,
posto que nem a mim foi feito.
Essa poesia é meu afago não ocorrido
e a mitigação de um arrependimento
que é só um devir. Essa poesia é
só um carinho.

Laguna, SC.

0771.

Quanto custa meu corpo?
Qual é o valor de uso
dos meus pés?
Quanto agrega a força
de trabalho empreendida
por minhas mãos?
E o intangível de
minhas idéias, qual é
seu preço?
Quanto vale meus
sentimentos?

Vendo essa poesia por
10 centavos, paga a
tinta da caneta e o papel.

Laguna, SC.

0765.

Algo insone percorre
como sempre seu ciclo
lunar, inflado hoje
como a irmã que
paira ao ar
Algo luminoso,
insuportável
à própria luz,
um estado interessante
feito em meio
a um dia de sangue
Se auto-parindo no
próprio ato de fecundar
Algo flutua ao espaço
e conduz as idéias
algo insone,
dorme sempre em mim.

0763.

Hoje eu segurava uma taça
como se pudesse ter um traço nobre
em minha conduta
Minhas veias não percorrem um
sangue guerrilheiro, só de um
xerente, um canoeiro, um seringueiro
um castanheiro, cafusos,
mulatas, negras e escravas…
Sinto uma verdade em meus ombros
que não se pode calar
E lá fora o sujeito sendo
filmado em orelhas estupidamente
gigantes me leva a crer que
(conjunto aos relâmpagos que aqui
se fazem em Marabá), a verdade está
no peito de cada um e eu,
mesmo sendo mulher, me sinto homem,
mestiço, brasileiro, anarquista e
antes de tudo humanista.

Marabá, PA.

0761. Shoppinganas IV

Uma luz murmurava a tentativa de iluminar
algo em meio ao contínuo dia do shopping.
Era uma luz verde, insignificante à
multiplicidade cromática da branquidão
dos não-lugares.
Lá fora podia estar azul, negro, cinza…
Cá dentro, sempre a imensidão multicor
da monotonia da luz e a aquele embate
insignificante do verde contra o nada.

0759.

Houve um dia em que o que acontecia
não era só o vento
A razão insistia em acalmar dizendo
que era só o ar em movimento
Mas não era,
era mais,
era algo dito, segredado.
Era aquele silêncio sussurrado
pelos lábios antes do primeiro beijo
Era um ensejo, um desejo do mundo
a dizer algo como,
senão se,
além de.
Era isso aqui mesmo escrito
e apazigua o espírito.

0756. Dor

Sobre o corte não firmado
Sangra a dor de uma ferida
não supurada
Escorre a esperança em
lágrimas e ódio
como se fossem o sangue
não vertido pelo corte
abstrato

O limite entre a dor e o desejo é a intenção e o ato:
buscar a coerência entre o desejo e a reação
O desejo não mantém o prazer
O prazer não é a antítese da dor

Há assim que se largar na vida
Há que não se esperar mais nada

0755. Do vazio

Tenho fixação na palavra vazio
Preenchi toda a minha mente
Na pronúncia do vazio
Esvaziei os conceitos e as
bases na busca do vazio
Pus num vazo crisântemos e cravos
imaginários, para adornar o vazio
Vali-me de toda a sorte de sensações,
querendo sentir o vazio
E foi num lampejo de entre o
vislumbrar letras e um papel
que contemplei finalmente o vazio
no firmar dos olhos de palavras
sem sentido

0754. Prelúdio de fim de noite

Sobre os restos dessa hora
Ficam os cacos do preenchido
No preludiar do avesso da aurora
Deitam as réstias de algo vazio

Só sobraram as moças com
calças brancas quase translúcidas
Só sobraram os homens com a
barba mal feita e suas barrigas
Só sobraram as luzes e essa
fumaça famélica do churrasquinho
e eu, tentando ser por inteiro
em meio às trabalhadoras da
noite e os consumidores noturnos