0903. Ponte

Essa nossa condição humana
que alicerça o fim do desejo
tudo o que eu possa possuir
já não me é o começo
somente o que eu não tenho
é tudo o que anseio

Busco em você a esmo
destruir a ponte que me liga ao
que vai além de mim mesmo

Talvez uma mediação insana
que erige assim o desfeito
nada que você use usufruir
já não te é o desfecho
novamente o que tenho:
só o que não me diz respeito

Busco em você a esmo
destruir a ponte que me liga ao
que vai além de mim mesmo

Nunca existirá noção tamanha
que demonstre o que enleio
quase o que restará ruir
em qualquer um inteiro
avidamente o que eu não tenho
é todo o meu alento

Busco em você a esmo
destruir a ponte que me liga ao
que vai além de mim mesmo

0902. A lua que não existe

meu azimute em teu encontro
tua definição extrema, meu zênite
a virtude do equinócio outro
uma constatação que é tênue

o caminho do desenredo
construção tua em meu ar
no desalinho do desprezo
armação toponímica de amar

o solstício dado à revelia
de que o encontro fosse novamente
dado o início que já tido não se ia
num tombo do céu pausadamente

tua lua era de uma classe espectral
forjada para dar fim ao amor
toda nua e sem o justo cabedal
de motivos para evocar minha dor

inexisto à tua lua que não existe
viro o sol que te dá o contorno
e que promove a luz que insiste
em existir tua lua de novo

0900. Ho[ménage]m à falha

Não se preocupe em esquecer de vez
quando chegar lá você dá um jeito
Pense bem se foi só meu o defeito
ou se o erro foi de nós três

Naquele dia eu não falhei
aquela mão sobre o meu peito
Naquele eu apenas me intimidei
não soube o que fazer direito

Essa proposição feita num boteco
anunciação de uma pretensa liberdade
e a intenção era a intensidade
mas eu não pensava que fosse no meu teto

Ele também não compreendia
dizia amei e agora só a loucura
Você apenas rodava e se dividia
tuas penas fechando a patética moldura

Velho e moço ao som,
vinho e velas ao chão
Vida doida e marrom
nem vermelho ao menos o batom

Noite finda assim, dia aceso ou não
em vocês e em mim tentando ser um nós
Sinto que não deu o encontro então
tudo foi em vão, parco, pouco e atroz

0899. Poesia na segunda

acabou já há horas
teus olhos vivos nessa
eu sem garganta por conta
idealizações e memória

não, não me lembro de teus pés
só me encontro em tuas pernas
mergulhado nisto que és
e eu insensível ao que eras

tu não estavas tonta
eu zonzo em teu sono
achei melhor sair pelos fundos
e não pagar a conta

a conta pelo sonho tido
e o medo pelo enlace de pernas
na intenção de tudo contido
(embriagues e letras eternas)
(desejos con(e)tidos nellas)

0896. Desses dias

Angélica manhã:
sonho, sol e sorriso,
dilúculo e devaneio,
vento e fim do mundo.
E ao lado, Angélica

Angélica tarde:
faces, flashes e fumaça,
incidência e insides,
introspecção e melancolia.
Mas ao lado, Angélica.

Angélica noite:
rosto, realidade e riso,
crepúsculo e calor,
estrelas e gênese.
Angélica.

0895. Dizeres de um jazz

Só sussurrando o incontido
do inaudível de todo o som
posso pensar no que há de ser
Só sibilando o desdito
do crível de qualquer dom
ouso sentir o que há de ser

Só um devir demoníaco
imponderável pode transpor
as notas que me abraçam
Só a languidez dos metais
adorável ao se disporem
pode traduzir o meu acalanto

Só esse jazz por ele mesmo
pode se transcrever

Eu apenas tento grafar
o que percorre meu ser
nestas ondas que movimentam o ar

0894. Historinha

Poderia ter procurado
a obviedade dos teus atos
e catado tuas metáforas
que deixavas ao lado

Quando falou que era
apenas um sentimento
sem causa e só causa
compreendi tudo errado
e causei a hemorragia
de versos todos sem nexo

Poderia ter encontrado
a singularidade das palavras
e posto minhas metáforas
bem longe e nem ao lado

Quando falei que era
somente um sofrimento
sem causa e toda causa
compreendeu tudo e além
e causaste a supuração
de todo nexo em algum verso

Poderia ter desencontrado,
em tuas palavras e atos, o amor
e convertido em metáforas
o que não existiu de fato

Quando falamos que era
tão só esse amor
causa e efeito
compreendemos o erro
e estancamos todos
os versos e todo o nexo e amamos

0893. Do tratado geral da poesia eterna – Tomo II

Poesia não tem de ser triste
pode ser apenas um estado
de contemplação sóbria
ou mesmo uma incongruência
fluída e louca

Pode ser o gosto de éter
ou mesmo das radiações de carbono
que percorrem a língua de teus dedos
Pode ser o vazio pleno e irrestrito
de uma madrugada insone

Poesia não precisa ser o grito
da alma ao ocaso final,
pode ser o sussurro de uma
condição aprazível e imperceptível

Pode até mesmo ser a própria
vida.

0891. Te amo

A imensidão de teu ser me dá a aurora
de minha parca ostentação.
Tu contrariaste toda o intenção
que me levava a crer ainda.

Hoje sustento apenas um copo de pinga
em minhas mãos, porque o ardor
na garganta é mais suportável
que o fel de toda a tua conduta.

Hoje conduzo apenas meus dedos sobre
este teclado, que a cada dia torna-se
menor e menos salvador.
Te guiar é-me impossível agora.

Perdi-te ao nada e te agradeço infindo
por conta disso.
Deu-me a oportunidade de reinventar todo
o prazer.

São em momentos como esse que compreendo
o quanto de amor foi meu e quando foi seu.
O amor é esse que surge do imponderável.
Sem se dizer.

0890. O poeta e o livramor

ser metáfora em
um verso triste

saber tua culpa a
morte de todo o sonho

sentir-se o motivo
de um desengano

fazer-se início de algo
sem pé nem cabeça

formar-se em própria
desilusão

constituir a dúvida
e alicerçar o ódio

transformar-se no
anseio da indiferença

dar vida ao medo
da companhia

virar somente
lágrimas e melancolia

esses são apenas
algumas dimensões
de ser poeta e
livramar

0888. Só pra constar umas palavras, caso seja hoje.

Hoje pode ser o dia de minha morte,
saibam vocês que me aprazem a companhia.
O arfar de uma vida de conjecturas
tolas pode hoje descambar em minha morte.
Uma morte estúpida hei de dizer desde já,
mas invariavelmente, uma morte.
Pode ser em meio a um shopping
em plena euforia do horário de almoço.
Pode ser que seja estatelado de um
viaduto e estraçalhado por carros lá em baixo.
Pode ser ainda que seja ao descompasso
de um tiro que há de perpassar não só minha carne.
Mas há de ser uma morte, a minha.

Hoje, meu amigos, pode ser que eu morra.
A vida ainda há de continuar,
o trânsito não vai parar de vez,
o tráfego aéreo nem irá notar nada,
lá em casa, quem sabe, se importem
(na certa se importarão, caso seja hoje mesmo).
Caso eu morra com certeza meu corpo
sentirá o sentido definitivo entre o fardo e a pluma,
entre o vento e a atmosfera
e lançará minha alma por caminhos tantos.
Esta que ganhará a altura de todo o mundo
e será apenas uma que um dia foi.
Tudo isso neste que pode ser o dia de minha morte.

0885. Das vontades

Minhas estradas, todas abertas
Meu silêncio, perdido
ao teu lado

Meu colo sempre posto para
descansar teu rosto, tua respiração
e nele meu afago

Meus olhos para te observar
e buscar o que há além
do visível e até em mim

Meu torpor ao teu êxtase,
almejando o cheiro teu,
contido ou impuro

Meus lábios apenas esses miúdos
que esperam teu gosto

Meu eu se encontrando, perdido,
em teu descompromisso…

0884.

Não era pra ter sido assim
mas minha vida louca
volta, vai-se, fica e vem.

Meu juízo é esse que não há
e perde-se em meio a minha
infância, tão sabida e ainda
assim, arriscada.

Esses versos não hão de
ser nada, a não ser
a prova da minha loucura
que insiste em não
querer tua tristeza.

E se eles pudessem ser
mais do que palavras
e te dessem uma paz
que fosse, eu ficaria também.

Não por mim, pois que
não importa, mas por ti…

0881. Escrita

Quis te escrever e te escrevi
em mim como se fosse tatuagem
só que foi debaixo da pele
debaixo até da alma

Começou quando eu estava em ti
e se prolonga a cada momento
em que me recordo a união
Nada eterno, só o possível

Escrevi bem no meio
com letra forte e de forma
sem sangue (ou talvez um pouco)
É bom te ler em mim

0880. Em outro mundo, talvez…

O que eu amo é essa tua gordura localizada
teus centímetros a menos
teus cabelos que – juro – nunca fizeram mal a ninguém
teu mundo de vidas sobrepostas
tua vista dos pontos
e mesmo desses miúdos
que se escondem atrás das lentes

Hoje quando acordei
não havia outra ao meu lado
tu estavas sabe se lá onde e com quem
mas isso que tu és e me faz
dava a certeza da companhia

Não é essa perfeição tua que me encanta
mas sim, a tua realidade
Em outro mundo, talvez, nos compreendam

0879. Culpa?

Num toque esvai-se todo o sentido.
O júbilo da posse diz que o feito
foi completamente antiético,
meus braços não compreendem essa máxima,
meus lábios têm sede de completude.

Você disse que não suporta
a minha condição livre.
Eu não disse nada disso.

Queria teu sono ao meu lado
mas confesso que agora queria outro abraço.
Quero aquela que me diz:
– descompromisso –
e me beija a boca suavemente.
Quero a outra que me acaricia e diz:
– Hoje não… –
e ri de tudo e todos.
Quero o que meus braços e lábios permitem
e se você não consegue entender isso, paciência…
Meu ser sempre foi este que,
por acaso, você se apaixonou.

0877. Prefiro

prefiro a dor e o vazio das horas
prefiro dizer mentiras e coisas grotescas
prefiro calar meu peito e tomar uma dose
prefiro os atos desmedidos
prefiro esse momento perdido
prefiro o frio da cama sozinho
prefiro o amargo da cevada e o amor à solidão
prefiro esse breu e bethânia
prefiro o filme repetido às duas da madrugada
prefiro a noite sem sono e o dia fatigado
prefiro tudo isso,
mas não perco a poesia novamente
(prefiro até mesmo você outra vez)

0876. Eu vejo assim…

vejo seres de alma
não esses seres que se fazem de pvc e de pet
esses que empurram nas capas das revistas
que se usa para forrar a casinha do cachorro
vejo espíritos imerso em sangue
vidas em sentido e além
sinto seres em um ser
prontos a explodirem o véu do sacrossanto
estado de normalidade
e darem aos outros um momento de
êxtase ímpar através de simples questões

quem? a não ser estes podem
ser mais que a realidade?

0875. Creio que é um adeus

Eu tento gritar,
mas a voz que
sai da caneta é rouca,
míngua, parca e pouca.
Só um amontoado de porquês.

Solto um lamento
alto e em tom menor,
abafado e incerto,
inaudível a quem importa e
intangível a quem perto.

Canto este como o último:
a derradeira tentativa
de acalentar o espírito,
último abraço às palavras,
o resultado esperado e mínimo.

Posto que não há como
com letras provocar o carinho,
com palavras pintar a beleza,
nas idéias reinventar a natureza
ou em metáforas obter a mansidão.

Neste que é o definitivo,
mas não o é todo dia,
despeço-me então:
adeus poesia.

0867. Passagens

“de vergonha eu não morri
to firmão, eis me aqui
você não, você não passa
quando o Mar Vermelho abrir…”

histórias sobrepostas
rurais reminiscências
numa urbanidade falida
dramas de vidas
passados mal-vividos
origens desconhecidas

venda da re-ligação
comércio do ostentar
desejo da volúpia numa blusa
manequim de bunda enorme
riso à cantada
músicas superpostas

eu flutuo em meio ao caos
sou mais um seu fruto
em meu peito só ele
arranjado por essas imagens que
contribuo por produzir
fala onde este mora tudo isso que senti

só uma feira

0865. De sonhos

em um lócus talvez existente
fomos alhures do que nos coube
fizemos nossa morada nele
choupana de reações neurais

subvertemos a plenitude do que
poderíamos ter sido e ordenamos
os dias contando que em um
estaríamos ao lado e sempre

foi num lapso de existência
que descortinei o engodo até
hoje ainda quisto e não dito:
o amor se ruminava há tempos

e ao final não era amor
eram amores e todas essas
figuras que seguem par-e-passo
ou até mesmo e ainda em desalinho

0864. Nesse instante

queria a paz de uma palavra que bastasse
para apaziguar teus sentidos
queria ser teu norte ou quem sabe teu leste
e se teu acaso quisesse poderia ser
tua base e teu sustento

queria ser tua liberdade e dar-me a ti sem medo
sentindo tuas palavras saírem em paz
num hemisfério qualquer

queria dizer teu nome agora
mas este doura demais em dor
que não consigo nem pronunciá-lo

queria ser tua dúvida e teu sono
ou até mesmo tua completa indiferença
e quando tu fosses degustar a noite
poderia eu ser o espaço entre a lua e a rua
entre tua intenção e teu gesto

queria essas coisas todas que começam
em mim e a ti nem sabem que terminam

queria mesmo era teu colo

0863.

ela me deu um jazz
eu fiquei extasiado
compulsivo o escuto
como se não fosse acabar
é um carnaval na cidade
e nesse espírito da carne
eu banco o advogado do diabo
e digo que o jazz é tão ou
mais prazeroso quanto
tomar uma cerveja no calor
e até mesmo do que
ficar acompanhado no frio…

0862. Da Ceilândia ao Plano – poema e mundo

Com Basquiat nos olhos
e Racionais na mente,
o quadro é este:
à tia em pé
tive de ceder
meu espaço
e perder estes
poucos centímetros
que ocupava
sentado

Ao redor, a vastidão,
metáfora plena
à alma
Dentro, só o cercear
das possibilidades
Dentro, fora, ao redor
e além, um sol
sem fim, vasto

Um céu azul e marrom
e um rubor dourado
sobre a ruiva inerte –
explosões de hélio
queimando as faces
das impossibilidades

Lá fora as painas
quase a cair
e a floração esguia
dos eucaliptos à míngua

Nesse imenso colorido
possível me imerso
e chego pontual
ao trabalho

0860. Morada

“Esse imenso desmedido amor, vai além de seja o que for…”

Moro num barril
dentro de um quadrado,
sumidouro de energia,
no coração de algum lugar

Meu coração tentar ser
mas não mora cá ou lá,
mora na vastidão
descompromissada do
horizonte, mesmo sendo
ele vertical…

Mora onde mora
o acaso e a sorte,
no incontido das possibilidades
na incerteza das escolhas
no definido e definitivo

Moro onde me cabem os cantos
e todo canto é infinito,
mas este barril de pólvora onde vivo
parece que implode

0859.

Por que raios tem de haver
essa comoção em mim?
Por que o coração não basta?
Por que sempre esse enternecer-se
com a flor ao lado?
Por que não o vazio das horas
e a aspereza dos sentimentos?
Por que não com a certeza de um
Deus eu preenchesse tudo?
Por que esse anseio pelo além,
pelo imponderável não crido?
Pra que?

0858. O 4º último poema para Lyvian Cristina

Vendo-te assim a falar até pelos joelhos
inquieta, dançando, levantando a saia
e ajeitando os cabelos
chamando o mundo a si
e apagando todos ao redor,
com teu filho a tira colo,
com todos esses teus amores
teus pesares, neuras e deprês
ainda sabendo que me esqueces
como a notícia da semana,
queria um que fosse do milésimo
de tua atenção.
Um abraço de mais de dez segundos
e eu até entenderia a monogamia.