3719. O fim da estória

De onde vem o saber do mundo,
o nome das coisas,
os sons com seus significados,
os gestos e sua sabedoria?

Quem habitou tudo com sentidos,
ensinou a enxergar,
separar formas no todo embaralhado
distinguindo contornos?

            – um telefone sem fio de milhares de milênios
            transcorridos, tudo cortado desde
            a origem

Desde a mente primitiva, animal,
forrageando no meio dos cerrados,
o mundo vem sendo criado

Quantos deuses nascidos de trovões, do fogo?
Quantos deuses ceifados?
Quantas destruições e recomposições do humano?
Quantos sopros de vida?
Quantas almas nasceram e sucumbiram
carmas divididos, juntados, transtornados?

E ainda assim, o passado vem à tona
Múltiplos armazenamentos para explicar
para contar essa história feita de bifurcações
que bifurcam e que bifurcam e depois
bifurcam e, então, bifurcam

Separações e fusões
sangue e amor
percorrendo e fazendo as eras

Cabeça após cabeça,
a narrativa de todas as diásporas
dos mares de migrações
ambientes tomados, partilhados, cercados,
livres

Uma Terra como o todo

E sempre há aquela, que falou para aquele, que ouviu
daquilo – pois que até pedra era gente –
que foi segredado por um bicho:
que depois daquele morro,
por trás daquela serra,
além daquele mar,
alhures do deserto,
no meio da geleira,
por dentro da floresta,
léguas deste lago,

morada há
e bom paraíso
Que é lá que os espíritos nascem

E cabeça após cabeça,
após cabeça após
os pés se guiaram para o agora

Milhas e mais milhas de memórias
transcorridas boca a boca
gesto a gesto
toque a toque

até dar nesse vórtex de dispersar conhecimento e informação
chamado hoje

 
Eras, eras e mais eras, de mais eras do que se pode supor
descontinuadas para um futuro
que engole o que foi e o que é