3034. Do gosto

11/01/12

Como dizer aquela palavra
que cale doce e fruta aberta,
diamante de romã ou pérola de poncã.
Como a polissemia de uma uva única
explodindo plena na boca.
Esse teu gosto todo de cheiro e cor.
E o tato na língua.

demorar na paisagem
delongando a fuga pro
olhar morar na imagem

3032.

11/01/12

pensei que dava
sopesei o nada
me estabaquei de cara

3031.

11/01/12

a extensão das horas
e dos metros
delimita e amplifica
essa disritmia
que no peito implica
a tua falta tida

assim fica
longe e longe
o coração não bate
só vibra e desafina

Houve um tempo em que tudo era o norte,
aquele lugar em que a vastidão do horizonte
pulsava nas veias
e o sem limite do céu se mirava como meta.
Era uma ânsia pelo inesperado
envolvida em súplicas por mais.
Onde não calhava aquele vislumbre de que
o enraizado é parte para o infinito
e que o sólido – que, sim, desmancha no ar –
é arte vivida no aqui e parte pura para partir ao além.

Certo que foi você quem abriu a porta
e de dentro do real deu a deixa certa;
que ao entrar na casa, minha, nossa,
a vastidão se faria em cada cômodo
e mesmo em cima da cômoda,
na escolha do pano de prato estaria ali
– estampa e essência –
uma existência plena, aberta, quimérica, real;
o não lugar mais heterotópico possível:
o amor vívido de dentro do nosso lar.

3029. Diurna*

04/01/12

O mesmo império foi-se, oh torpe!
Desgraça dos agouros, fugida das trevas
De branco despes as noites
De matar estrelas

Ceifa bruta, corta noturna
Sorri o maldito, sensível inferno meu
Favela, espinho que sangra
Infincando as minhas têmporas

Inflama de prostrar, minha bruta
Darks mares que ampliam a tormenta cinza
Peso azedo que acorda
Ante a minha solidão

Abisma-me, salta, trovão das nuvens
Dos olhares geométricos da indiferença
Vestida dos meus pesadelos, neurônio que endoida
Vai, morre em mim

Amaldiçoaria sangue, minha alma com a sua
Carreado de suspense, feudo dos ocasos

O mesmo império foi-se, oh torpe!
Sorri o maldito, sensível inferno meu
Peso azedo que acorda
Vai, morre em mim

Amaldiçoaria sangue, minha alma com a sua
Carreado de suspense, feudo dos ocasos

Voaria esfaqueia, suas unhas entram em mim
Bebe o lodo escuro, vem, suja todo vão

No acobertado da tua pele, precisa
Pobre de mentira e a mim falseou
Que nunca nadara presa, diurna
Pelos escaleres

Mato meia meta, orquídea podre, oh meta!
Dos mesmos impérios de matar estrelas…

*Paráfrase de:

(Junio Barreto – Noturna)

3028. chá

25/12/11

dorme amor
enquanto a chávena
quente de hortelã
chega pra sarar o
afã do seu peito

dorme calma, que
ao apitar da chaleira
levo a infusão com
esse misto de amor
e erva em água fervida
pra esquentar teu colo e
acarinhar teu coração

3027.

09/12/11

lá fora há um mar de luz
inunda a pele de quem ele pousa
com sua própria cor de ainda agora
pelo amanhã quem se molhou dessa luz
há de estar vermelho, dourado, preto

é esse o intento desse mar:
colorir o mundo para que
as pessoas sejam apenas seus matizes,
desde o entardecer até pleno o ocaso

3026.

09/12/11

crise?
não crie,
creia:
crive
cravos na
crosta do
credo,
cresça
criatura e
cromatize-se.

3025.

09/12/11

presta atenção preta
se minha previsão
só é possibilidade
preconcebendo sua
presença, não é que
o pretérito e o
passado não prestem,
é que o presente e
a prévia do amanhã,
sem você, não procedem.

tanto mais o carro valha,
ele vindo com a cara nela,
quero ver quem a melhor leva.

3023.

09/12/11

meu cérebro é um diagrama do caos
coexistindo fracionário e fractal
em cada possibilidade quanto e tanto

todo momento meu cérebro
tão relativo e quântico
– quase cármico –
que suportar não quero

3022. deslimite

03/12/11

prefiro a mil
o breque é baque
me arrebenta no anil

3021.

03/12/11

da beira é tão alto
perdi a mão e fiquei
pendido na contramão
do salto

3020.

03/12/11

o problema do felino
é sua delicada
falta de tino

3019. Danação

02/12/11

Diante do diferente
deferi a diferença
devia discordar
deu-se disto a distância
doeu e desviou o doar
deu dó e desmedida
desvalia a despencar
desandou demais em
desdém doido desalinhado
dado a desdizer e desabar
disso desceu dor danada
deixou o dedo ao dom
da dúvida deu a devida
dívida demente e
de si danou a divisar…

3018. norte

01/12/11

pra que o mote das asas,
se a linha que liberta o céu
fica bem detrás da nossa casa?

3017. sorte

01/12/11

o amante, a estrela e o mundo
a pergunta foi você
o meu peito foi o rumo

3016.

01/12/11

essa sua saia verde
não sai da mente
queira que ela lá ficasse
e eu visse você,
sem ela, aqui na frente

3015.

01/12/11

é que me acometeu uma dor estranha.

onde?

parece que é no amanhã,
como se o risco de ser flor
se abrisse inteiro ao medo da fruta.

mas se nutre…

só que ainda que cor, sacia.

3014.

30/11/11

controle o ciúme
em cio em si
e sujeite o outro
ao vislumbre
de procurar
amor no estrume
enciumar não,
só desbunde

3013.

29/11/11

a bela plácida
ao longe
mágica, lânguida e lépida
de perto
mácula, ácida, frenética…
toda ela proparoxítona
demais para um
oxítono monolítico

3012.

29/11/11

diz qual o pedaço
que ainda é meu
que eu o despedaço

por que inteiro,
quando toda parte
me resta caco?

3011.

29/11/11

o silêncio,
eu supunha,
tinha algo
que ver com
outra carne
e sua unha

a pele minha
é que sutura

3010.

29/11/11

se ela não te nota
é fácil a troça
imagina a figura
e cálido, se toca

3009.

29/11/11

pra que lamúria?
que me rasguem a carne
eu quero a fúria

domingo
inteiro
dormindo
comigo

dó de mim
e do meu umbigo

3007.

06/11/11

o medo
me dita:
é entre
ampliar a
vida e
suportar
a lida

3006.

06/11/11

pela terra eu erro
por ela
entre ela
enterro
o certo encerro
em si erro
incinero
incerto certo
erro mero
meu neurônio
torto
atinado no ego

Todos os horizontes foram dilacerados
a última fronteira é inteira interna
a beira, o fora – há uma folga?
Quando você tenta ir à forra
o dentro jorra por dentro
e a noite é alta, tensa,
a calma mora longe
A sensação é dez vezes pior
existe um lamento, uma lamúria
se fosse uma floresta com frestas lumiadas
entre cada folha uma sensação de luz
até poderia fazer sentido o batuque incendiário
a festa
Farsa nenhuma chega aos pés
força alguma lhe demove da cama
são os rastros químicos e eletrônicos que ditam
a pulsação do que ainda pode ser enquadrado na categoria vida
e tome mais doses de imagens
mais tânatos de tons
além possibilidade de pequenas mortes
Seu veneno posto à mesa
seus tóxicos para a alma
Provérbios sábios e uma efusão mística destroçando a visão

Todos os horizontes foram dilacerados
e a luta é para conservar o casulo primeiro e último
recluso
Você cava trincheiras
mas o mal vem dos céus, das frases
de dentro
A esperança maior é por ânsia
por vontade, desejo e pulsão
Transtornando a expectativa em fim

Todos os horizontes foram dilacerados
a carne exposta, o corte
é qual cor de espelho
Corte a dor pela raiz
e ela brotará de novo
Calma, a culpa não é sua

3004. Se

27/10/11

se tivesse agora a pausa do riso
e as formas fossem essas do contorno
aprendido no tato e na língua

se pousada em mim a presença entrasse
com predicado de ser mesmo a eternidade
e ocupar todo o espaço bruto e leve

se debruçar no pescoço fosse então
o apelo único vigoroso arfar em sobressalto
passeando pausadamente até o baque

se tivesse você agora não em ideia
mas no todo das minhas mãos miúdas
elas se agigantariam desde todo o seu prazer
ao infinito da minha vontade

3003.

19/10/11

ai, me bateu
um banzo quente
como se fosse
uma nostalgia infusa
em brigadeiro fervente

anunciavas as estrelas
detrás do cinza chumbo
que planava por debaixo do azul

e tu dizias que depois
dessa ilusão de céu
só havia escuridão
e eu comia essas palavras
como pudim de tapioca

a tua proposta era torta
decaída e rota
e eu mediava cada intensão
no intento da realidade:
o amor cabe nas mãos
ranzinza e risonho

agora vá
traz para mim o sem fim da bruma
em noite alta
e me afirma com a altivez
de conduta insana:
é só um encontro
entre a traição do desejo
e o atrito da felicidade

Antigamente, bastava um rasgo de céu
e meu peito já se ampliava até o infinito
Um fresta de sol ou um pingo na testa
e tudo se carreava em descarga elétrica
lavando e levando o que havia por descarregar

Naquele tempo em que eu tinha ainda
o pouco de vida necessário para encantar

Foram naqueles dias em que o habitual
era a poesia no espelho a encarar

Quando todo ontem era viva marca do agora
e o todo inteiro do anseio do que virá

Antigamente, era preciso apenas uma carta
vinda de mala, mula, longe quilômetros
Para arrepiar a espinha e tornar a vida
coisa que valia, como se regar plantas
fosse o suficiente para cuidar

Tempo em que abrir um livro fazia sentido
e as histórias pautadas na páginas eram um ornar

Momento em que o sentido não era mero
desencantamento, poeira de quasar

Lonjura de tempo onde a mística do sol grosso
era só pra encosto e não pra remodelar

“Bandeira branca enfiada em pau forte”,
cavalo de Troia brincando com a sorte:
eu sou é a guerra, eu vim trazer foi a morte.

2999. Na cara

28/09/11

cabelo bem engomado
cheira creme rinse barato
bíblia debaixo do braço
saia comprida não mostra o fato
das coxas nem pouco bocado
rosto redondo, liso, marcado
segue a lida com fé
na velocidade de um fado
sustentada por um corpo cansado
ao sol na cara em pleno metrô lotado
anjo torto sem ser alado
redentora, salvadora do vosso ocaso

2998. Quem?

28/09/11

Corações destroçados
pelos sem-limites das possibilidades
readequando no peito
o hibridismo das alegorias
e o peso do real
a ditadura da alegria
e o charme da depressão
amores inflacionários
em franca crise
paixão fetiche
fica pastiche
entre a roda e o piche
avistado e tentado
em meio ao timbre eletrônico
e a cadência do repique
amor temerário do sem fim
depositário do humor
vira piada.

- Alguém sofrerá?

Esse não-lugar em que passo,
corpo meu por mim habitado,
já foi algo.
Havia nele ali vivo fato.
Território de opostos disputado:
o partido da felicidade
contra um movimento desolado.
Hoje é só um não-lugar,
outrora tão de mim espaço demarcado.

2996.

28/09/11

Em outro mundo até poderia,
o toque da mão ríspida
sob a tez cristalina.
Desses toques que ficam
tatuados na pele da alma.
Tipo pecado.
Ornado arrepio,
pousado no momento da derme,
delgado.

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