pausa: Kuri

Provável que o ano era 1998, momento em que me acometeu essa coisa de “buscar cultura”. TV Nacional no talo, rádio Cultura, Nacional e Senado na veia, embora internet ainda fosse apenas pra procurar coisas sobre ets, magia, religiões e pornografia, com direito a madrugada de chats. O balaio de gato era grande, entre um tombo e outro de skate e uma jogada de Heretic no pc, lia muito: Hesse, Hemingway, Lispector, Assis, Kundera, Orwell, Amado, Wolf, Rego, Queiroz, Castañeda, Andrade. Talvez, 1998 foi ano em que mais li na vida. E ainda havia tempo para as festas trash-punk-hip-hop-raulzito-um-quê-de-hippie taguatinguenses que meus irmãos me deixavam acompanhar. Fora as incursões à Chapada dos Veadeiros e todas as consequências místico-mágicas advindas com os adventos lá experimentados…

Naquela época, durante as tardes de domingo com ar depressivo que arrebentavam a barra do dia sempre, quando eu não estava na calçada olhando o tempo cair lentamente, vendo os moleques mais novos correndo pra lá e pra cá, esperando o momento em que o amor me cairia sobre a cabeça, eu estava no meu quarto escutando rádio. Gostava dos programas da Rádio Nacional e da Senado, sempre havia algo sobre música clássica, sobre jazz, sobre música brasileira antiga. Eram áfricas e ásias, portugais sonoros que nunca havia sonhado escutar. Creio que foi num programa do Arthur da Távola, quando ele me apresentava os fados de Amália Rodrigues que eu me atinei em ler poesia. Já a escrevia havia um ano pelo menos, mas não tinha o costume de ler poesia. Fui até a biblioteca de minha mãe e procurei algum livro de poesia, de bobeira, encontrei esse:

Kuri, fiquei pasmando. Será? O nome do livro era bom: “Gueto”. Arrisquei, começava assim:

Gueto

Venha beber conosco, os placidamente aflitos,
pernoitar em nossas pequenas casas sem teto,
partilhar dessa dimensão em que o sonho
e a realidade não se distinguem, não se excluem.
Venha embriagar-se conosco, os anjos tortos,
desatrelar-se, aventurar-se pelo prazer da descoberta
e brindar a loucura com a mesma reverência
com que os outros brindam a coerência
das linhas retas, das quadras, dos quadrantes.
Venha misturar-se a nós, crianças medonhas,
radicar-se nesse gueto entrincheirado
além do território das engrenagens metálicas,
provar a lucidez mágica da poesia
que, de súbito, é uma dor e uma alegria.

Foi uma paulada em minha cabeça de pré-e-te(en)so(´) poeta de 15 anos de idade. Como assim, logo de cara, no primeiro encontro, ela – a poeta e a poesia – já me chamava para beber junto? Como assim, ela falava aquela linguagem diabolicamente ervácea, em tom de tonais e naguais, de partilhar dimensões de sonho e realidade conjuntas? Minha mente já louca de podecresismos, ficou mais louca ainda, quis automaticamente “brindar a loucura com a mesma reverência com que os outros brindam a coerência” e “provar a lucidez mágica da poesia”. Continuei, pois:

Marítimo N.º 5

Não atento ao que os homens
falam de Deus.
Prefiro supor
o que ele mesmo diria
se eu fosse capaz de ouvi-lo.

Alto-mar, maio 75

Estremeci. Lá estava, posta em versos, a minha propensão ateísta, fruto de overdoses e parco entendimento de Raul Seixas (à revelia de que hoje considere-o extremamente teísta e cristão…), paixão por Cobaias de Deus” do Cazuza e Angela Rô Rô e discussões sobre a concepção de deus com o padre da Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro durante as aulas de catecismo. Adorei aquele grito “creio, mas não sinto” entoado na poesia, me vi ali. Era um humanismo denunciante já de um demasiado, um quê de decaído e ao mesmo tempo com uma certeza tão forte, que me tocou de todo.

Quis ir mais fundo, decidi ler o livro de uma vez. Nunca havia lido um livro de poesia inteiro, por vontade própria, até então. Os únicos livros de poesia que havia lido eram um compêndio de Tomás Antônio Gonzaga da coleção “Nossos Clássicos” da Editora Agir e “Poesias Selecionadas” de Gregório de Matos, e tudo por conta das aulas sobre arcadismo e barroco durante as classes de literatura com a Professora Marlene.

Cola para a prova sobre arcadismo, onde se pode observar uma transcrição ipsis litteris das anotações do caderno para o livro que poderia ser usado durante a prova.
Detalhe de cola para a prova sobre barroco. Na cola se lê: “O dilema do poeta diante de tendências opostas e conflitivas”.

Continuei a leitura, eram coisas simples, belas e com um poder de concisão que eu ainda não havia percebido ser possível em se tratando de poesia – somente um ano mais tarde eu descobriria que haviam haikais no mundo… –, cada página me pegava de jeito:

Marítimo N.º 9

Se eu lhe disser a verdade,
estarei mentindo.

Alto-mar, junho 75

Uma coisa estranha explodia em mim, o dispersar veloz e impactante de uma matéria até então não sapiente da existência: dois versos, uma verdade, uma mentira, uma brincadeira silogística. Tudo ali em dois versos simples, provavelmente já ditos por qualquer outra pessoa no mundo, mas colocados ali naquele livro, naquele momento. E os lendo – os versos –, fui descobrindo a possibilidade de falar sinteticamente sobre paisagens, sobre a geografia sentimental de lugares (prenúncios de uma topofilia?):

Cidade (I)

Da janela,
um pedaço de céu,
outros apartamentos
um poste e uma renda
de muitos fios.
Nada mais –
nem mesmo a esperança
de que um pássaro
risque o espaço vazio.

Continuando, fui aprendendo a como se dar diante dos paradigmas internos e como rir de sua própria contradição:

Ironia

Às vezes eu me sinto
como se não tivesse
mais nada pra dizer…
aí me contradigo
e os rios rolam seixos
até a beira do mar.

Me antecipando por meio dela, cheguei um tanto ao sentido daquela pureza boba e leve de Manoel de Barros e daquele saudosismo infantil de Adélia Prado, que só iriam dar com os costados em minha vida tempos depois:

No Quintal

Quando era mais criança
e me deitava no quintal
ao lado das formigas,
das poeiras e das vidas
invisíveis, o sol se estendia
sobre mim: juntos
fazíamos de conta que
viajávamos pelo céu.
Um suor lavava meu corpo,
eu ria o riso fácil da infância
e, mercê de Deus, não entendia
o horror de minha avó.

Gostei tanto daquele livro e daquela poeta, que senti um ímpeto até de transbordar a arte dos versos à qual estava me atrevendo adentrar, que comecei a rabiscar desenhos no meio de seus poemas, tentando – em vão – reconstituir com imagens no papel as imagens que via durante a poesia:

Certo que nunca fui bom no desenho. Na real, os desenhos eram primários, como bem se pode observar, mas foi bom tentar fazer algo naquele momento e ainda gosto dos garranchos até hoje…

Leio Kuri agora com uma saudade gostosa, uma distância próxima. “Gueto” é um dos únicos livros que já li algumas vezes e nunca me cansei de ler. A poesia de Kuri em “Gueto” é ácida, amena, progressiva, curta e grossa. Como disse Vinícius de Moraes: “Kuri vive no meio do ‘fogo que arde sem se ver’, sofrendo da ‘ferida que dói e não se sente’, para lembrar Camões. Seu destino – ai dela! – é o amor e a poesia. Prosternemo-nos, pois.”

Lutei pra encontrar algo a mais dela que estivesse por aí, posto na internet, mas só descolei esse link a princípio: http://www.adversos.com.br/poe_kuri.htm, em que existem algumas poesias dela e de outros poetas pertencentes a um grupo chamado AdVersos, que está na ativa desde 1968 (!). De qualquer forma, taí a dica. Quem quiser procurar Kuri, que se cure da apatia poética e bons versos!

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pausa: Kuri

8 comentários sobre “pausa: Kuri

  1. Lara disse:

    Ironia

    Às vezes eu me sinto
    como se não tivesse
    mais nada pra dizer…
    aí me contradigo
    e os rios rolam seixos
    até a beira do mar.

    ….Esse aí me lembra muito vc.

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  2. Lara, talvez lembre porque ela ficou introjetada nos meus versos…

    Klebera, to curtindo essa onda de crônicas sentimentais, to com outras no prelo, só dando uma lapidada melhor, valeu!

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  3. C@ro Guilherme, legal seu percurso de 1998 pra cá… entre canções e poemas. Não sei direitinho quando e como descobri a poesia. É certo que na adolescência a coisa costuma ficar mais saliente… E apreciar contra-sensos, ironias e loucuras ao invés de quadrantes sublima as espinhas e a demência hormonal da primeira juventude… Depois, a gente vai ampliando as necessidades disso… Beijo

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  4. Maryllu, a minha necessidade já virou compulsão… E gosto da sua sublimação, ou do que quer que seja a sua “produção”. Pra finalizar com rima pobre, essa que ao mesmo falta o pão, pra você, um beijão… =p

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  5. Guilherme, dando uma checada no meu nome, via Google, encontrei uma “pausa: Kuri”, em Poesificanco. Susto. Pasmo. Alegria. Adorei as palavras que você dedicou à minha poesia.
    Confesso: se era a mais modesta entre os modestos, deixei de ser instantaneamente. Culpa sua. Grande abraço.

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