pausa: Ledusha

Sempre escutava na Rádio Nacional de Brasília uma música do Celso Foncesa e Ronaldo Bastos chamada “Ledusha com diamantes”. Gostava da música, achava bobinha mas, ainda assim, aprazível aos ouvidos. Não fazia ideia de que Ledusha era uma mulher (mesmo a música falando de “Ledusha e seus namorados”, afinal, não só mulheres têm namorados…) e não fazia ideia de que era uma poeta (bom, pelo menos eu acho que é a mesma Ledusha poeta de quem quero falar). Um dia perambulando num dos sebos perto da Liberdade em São Paulo, como sempre olhando o que tinha de poesia no local, depois de ter encontrado “Poesia varia” de Guilherme de Almeida, encontrei esse livro da Ledusha:

Abri o livro e dei de cara com isso:

sinhazinha em chamas

ai quem me dera uma tuberculose
uma overdose
uma carência esplêndida

Gostei, fiz aquele trejeito com a sobrancelha identificando um certo “ok, será?” e continuei:

via aérea

baby
linda tua carta
a fitinha do bonfim cor maravilha
que por azar perdi no cinema
não enforquei mais a análise
depois que comprei o jeep
vou conforme o vento
pelo rio
comi um poeta na sexta
um crítico no sábado
domingo sonrisal
parece que faz muito frio
aí em são paulo
estou bonita de cabelos novos
pelos ombros
ontem à tarde célia trouxe bombons ingleses
daqueles mentolados
e dois fininhos que matamos rápido
assim que puder mando o flaubert
e a blusa de seda para lilia

Achei linda essa coisa meio largada, com um certo tom de largadamente pensado, achei charmoso. Tipo, comer um poeta na sexta, um crítico no sábado e domingo maldizer o estômago – potencialmente devido a uma overdose de porralouquice que a consumiu, levando-a a consumir dois sujeitos num fim de semana ou mesmo ao cansaço estomacal que deglutir dois tipos como esses deve provocar em alguém: poeta ninguém merece, provocam mesmo azia (pô, azia!) e críticos, bem, são críticos, em grande medida cítricos… Mas aí, continuei:

caça à palavra

repleta, minha alma espreita atrás do estrume do mundo:
de onde vêm os versos, que face ocultam entre o amor e a morte?
às vezes os sons são os mesmos, as texturas, o tempo,
o mesmo homem a revolver-me as veias
onde se lacram as vãs repetições, que noite veste o poema?
o sol nos vasos de crisântemos, ecos de um triste país,
largos horizontes onde meu pai passeia verbos nem sempre sublimes.
tudo é memória, sirenes ligadas. a infância sempre ontem, mas aqui.
todo verso sugere uma serpente oferecida.
que na minha caça à palavra (que face ocultam o amor e a morte?)
não haja qualquer vislumbre de repouso.

Segui assim, com aquele belo final em audição interna – essa coisa de enxergar imagens ao escutar as palavras na cabeça –, enquanto alguns segundos perpassavam lentos ao redor: “que na minha caça à palavra […] não haja qualquer vislumbre de repouso”. Foi paixão àqueles últimos versos à primeira lida. Quis apenas confirmar. Aleatório, cai no fim, página 185:

confissão

sabia os carinhos mais mansos
perdi o hábito

Sorri de leve, matutei cá com meus botões de prender miolos “dura essa moça, bem dura, com um quê de candura, gostei da criatura…”. Fui acordado do nefelibatismo por minha companheira à época: “Então, já se divertiu bastante? Vamos nessa?”, “Sim, claro, vou levar esses dois…” e saímos a descer escadas enquanto eu tentava compartilhar o que desse pra tentar – isso de transpor ao outro sensações que se afirmam no aglutinado da moleira e dilatam o tempo sem qualquer menção palpável da realidade, isso de tentar compartilhar poesia…

Não sei se foi ainda sentado no banquinho de madeira do sebo ou no carro rumo à casa ou mesmo se já em casa, que me deparei com uma dedicatória posta na primeira página do livro:

"Para Guilherme e Pedro, com um beijinho da Ledusha..."

Achei graça da dedicatória, era para um Guilherme e um Pedro. “Seria um casal?”, formulei. Pensei ainda no lance do livro estar em um sebo e imaginei a separação drástica – coisa de morte física ou morte de amor – que haveria conduzido o livro até a prateleira do sebo: Guilherme pego na cama com outr@ lendo Ledusha em seu ouvido, quando Pedro chega do trabalho. Guilherme morto na sala, após consumir dois vidros de barbitúricos, com o livro da Ledusha na mão direita e uma foto do casal em Angra dos Reis na mão esquerda. Enfim, Pedro explicando para Guilherme: “Gato, essa Ledusha é uma porcaria, tudo bem que ela autografou o livro, mas vamos nos desfazer um tanto dessa trolha de poesia de quinta que você tem! Eu também preciso de espaço na estante!”…

Bom, sei que eu gostei do livro.

PS: Fuçando na rede achei isso: http://ledusha.blig.ig.com.br/. Não cheguei a ler direito ainda, mas tem uma ou outra poesia dela por lá, fora alguns insights de diário compartilhado.

pausa: Ledusha

5 comentários sobre “pausa: Ledusha

  1. Adrianna disse:

    O Mário Quintana tem uma frase que diz que boa poesia é aquela que nos lê…as da Ledusha q encontrei pela internet leram até mminhas entrelinhas…amei a dica, Gui!

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  2. Guilherme, primeiro, parabéns pela dissertação sobre o ciberespaço. Você viu a videoconferência do Assange que aconteceu em São Paulo essa semana?

    A poeta é bem descolada, e mata dois finos rápido… hum. Achados em sebos sempre parecem ter nos achado. E dedicatórias são meduzantes, ainda mais se a um homônimo… Beijo, Guilherme

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  3. Leda Beatriz Abreu Spinardi disse:

    oi guilherme, q bom q te caíram bem meus versos. são dos anos 80, na verdade. guilerme e pedro eram filhos de um namorado meu, há anos, dois meninos q eu adorava. mas vendeream meu livro prum sebo… hahahaha! that’s life :)

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