3494. Demiurgo demente

O criador do meu universo mora abaixo da minha caixa craniana. Ele tem rizomas, raízes, fluxos e refluxos. É refém de algo que nele se instaura, que além o molda e que interno o castra. Meu demiurgo cérebro de primata algoz da natureza constrói o mundo em derredor, o físico e o sem físico. E, outro dia, fiquei encantado com aquele groove que percorria o ar, se encaixava com o grave do peito e baixo, me levava às alturas:

– Você ainda sente?

Claro que eu sentia. Era como estar nos idos de setenta e três, só que com angústia. Muita.

– Tô legal, é só uma inflamação nos neurônios. Eles se ligam à áurea, percorrem a kundalini e daí se enganam pelas trilhas da alma. Um engodo só.

– Ah sim, tá tudo certo. O diabo é não ser demente.

Demiurgo encantador e bossal. Ainda que se fizesse só matéria cinzenta e deixasse isso de querer ser mais que lucro racional, nessa uma de contabilidade emotiva. Como se disso fosse arder um clarão a sacudir os idos de setenta e três, quarenta e dois anos depois. A história se repete e nunca se refaz, um horizonte e um demiurgo e a quantidade de expectativa a explodir sua cara.

– Cara, você ainda sente mesmo? Ou já está no tempo da luz da loucura?

Claro que eu não sentia. Só interpretava as coisas ao revés, tentando tatear um porquê, que fizesse mínimo sentido. Só que sentido não havia, ou melhor, havia, uma via de mão dupla. Um ir e vir sem fim do demiurgo, ao demiurgo.

A demência já é posta. E é uma solidão completa.

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