Estampa

Quando eu cheguei à encruzilhada por onde seguem todos os quase todos caminhos dessa cidade geométrica, a primeira coisa que avistei foram os pingos de sangue que conduziam a duas poças, ainda vivas. Não era nenhum sacrífico ritual, eram as marcas da loucura da situação quando na rua, um polvilhado de sangue líquido ainda fresco, do lado dos isopores e suas donas em volúpia de quebrada, vendendo doses do soma ativador da brutalidade masculina e da bestialidade humana, ali no vértice nordeste da encruzilhada. A cada passo pelas vagas vazias e as impaciências de pé, avistava os flancos por onde se esconderiam os que não seguem o caminho e ao pé de cada coluna, uma dúzia de desamparados se amparavam em papelões ao largo do chão sujo de pó, bitucas e restolhos de uma obra infinda. Vários corpos, várias vozes murmurantes e o mesmo desalento do olhar vago, vazio, rumo ao complacente e displicente buraco negro que se entranha entre si e o ar parado e esfumaçado que não se vê ao cobrir o teto e a amplidão do céu azul que sim, ainda estaria ali, mesmo difuso pelo buraco negro do apregoado ar em movimento no estado da fissura da pedra. Era domingo. Quando peguei meu ônibus em destino ao relógio principal e nunca visto a sul e oeste do geômetro, já adentrou-lhe um dos sempre visíveis e nunca vistos, o que havia trabalhado no tráfico e que era doloroso o filho perguntar ao acordar não o que iria comer, mas se haveria comida e que não lograra trabalho dada a condição de pós-preso que lhe estampa a cara e o fígado e que a jujuba já era minha e dele o que nosso coração melhor aprouvir em gozo de dó ou compaixão. E cinco paradas depois entrou o que berra Deus pelos poros e pelas têmporas e pela garganta e efusivo grita que a morada do Senhor logo se achegará e sua ira aplacará todo o mal da Terra e que benditos aqueles os que creem e que são quatro as paçocas por um real. No esfumaçado embaçado largo do caminho empoeirado e em chuva, adentrou por meio de subterfúgio criminoso de aproveitar um desembarque e calotar o baú, aquele que fede a mijo e tem um ar de prazer e ódio demoníacos quase acolchoados ao seu odor e esse não falou nada, como sempre faz, e só estendeu a mão e foi expulso na próxima parada. E então adentrou o quarto, o mudo com seus papéis embolotados e sujos que causam asco aos que pegam o papel e que logo lê-se surdo e pobre, me ajudem com a graça de Deus e este fez sinais e sons estranhos e saiu duas paradas depois. E quem terá se apercebido da negritude da cor estampada na miséria retumbante desde os papelões esmigalhados pelos pré-caminhos da encruzilhada, até a sujidão e o empreendedorismo da miséria do busão? E quem terá visto a travesti de calça legging retorcida no chão e sem o juízo da vida normal e cristã em sua cara de expulsa da vida? E quem terá visto a face do homem sem pernas se esgueirando entre a sarjeta e a parte quase limpa do chão com sua placa de me ajudem por favor presa ao peito? E quem terá visto e não apenas corrido, os cinco moleques na pós lombra e pré fissura, olhos esbugalhados e sorriso de destruir o mundo com mãos minúsculas? E quem terá visto que ao primeiro dei cinquenta centavos, ao segundo nada, ao terceiro um real e ao quarto o que eu ainda repousava em meu bolso: setenta e cinco centavos de real? E quais foram os caminhos que conduziram todos ao refluxo das estradas, mares de navios e sangue por entre o fétido aprisionamento de suas madeiras e velas de cânhamo? Qual a trajetória desde o eito da cana e do café até aquele papelão esbagaçado? Qual o mapa que mostra o itinerário da forca dos invertidos e da fogueira das meretrizes até um legging louco a rolar pelo chão? Quais sendas conduziram as placas aos peitos desde as naus dos enjeitados rolando léguas perdidas na imensidão oceânica do fim do mundo? E onde estarão as chaves para abrir novos caminhos?
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