4120. Longe demais de Aruanda

Um gosto alcalino na boca,
como se eu tivesse passado
a noite toda chupando pilha,
até me entalar,
como Rafael.

O suor escorre pelo pescoço,
uma quentura lateja
desde ombro a ombro,
kundalini horizontal a queimar
a vida, ou o rasgo.
Schopenhauer quer a minha morte
carbonizada, hoje eu
tenho um problema com meu corpo,
como no meu debute.

Um verme de linhas obtusas
me habita. É um pontilhão de Maria.

Eu sequer saquei,
meu corpo insistia
em produzir umidade,
meu semblante certamente é gay.

A aurora da vista.
Eu tô indo pra onde?
E se ela me desse?
e descêssemos no meio do matagal
até os charcos da mata
e molhássemos os pés
no regato e arregaçássemos as mangas
por entre o arroio
e capinássemos e plantássemos
e curtíssemos
sem botões?

Eu lembro do rosto das pessoas
e dos detalhes dos sonhos quando sonho,
como os traços dela vendendo os traços
e seu dente que falta e o outro torto
e que eu não tinha um puto para comprar os traços.

Cada pé de árvore agora me faz querer chorar.

Não me olha,
eu quero plantas e águas
e o silêncio dos sons
e ela que não existe,
entre as folhas das primaveras em flor
sem o meu medo
reflexo
e uma atração desatraída.

E eu tenho vontade de chorar
a cada sopro de imagem que não esqueço.

Quem caberia por entre as folhas?

Quem teria a cor dourada
e o suor caindo pelo rosto,
um sorriso de esforço para o buraco
da muda de cupuaçu
e o bico do peito à mostra
por entre a folga do vestido,
sem a minha significância sabotando
o prumo e sustentando
um pai em minhas costas?

Quem seria ela que finalmente não seria eu
a me relacionar com meu homem
travestido de mulher?

Eu me cerco de espectros.
Eu me perco no ectoplasma.

Não me olha.

A natureza é perfeita
e o erro tem um sentido evolutivo,
quisera eu saber viver na roça.
Tenho vergonha dos meus peitos.
Queria andar sem camisa
durante a lida e ler
Schopenhauer na rede logo após,
sem camisa.

Cada luz que vem difusa
eu penso que pode ser um milagre.

E pra onde é que eu tô indo?

4120. Longe demais de Aruanda

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