A ilusão

Há toda essa necessidade de se fazer ouvir, de ser mais do que somente essas letras parcas endereçadas a mim mesmo e tomadas como palavras definitivas. Há uma vastidão no mundo e deste conheço menos do que o ínfimo. Fato é que ninguém deva conhecer muito mais, mas o que pesa é todo este ímpeto de querer abraçar o mundo e não conseguir, de sentir ser até essa sensação algo de pouca valia, como sendo apenas e somente um sentimento pequeno-burguês à toa.

E aí eu sinto vontade de dar backspeace em todo este parágrafo anterior e se não o fiz agora foi somente pelo fato de querer explanar sobre algo que desconheço e estar tão aflito que não tenho coragem de tomar atitudes drásticas. Aí então percebo que se alguém, que não eu, lê este, se torna fato o primeiro período deste parágrafo que produzo agora, mas se por acaso de minhas composições neurofisiológicas alguém, ou eu mesmo, não lê este texto da forma como está aqui, prova-se que tive coragem de apagar o já escrito e o que estou a escrever não possui mais lógica alguma. Mas o caso é que até então está tudo aqui: o primeiro parágrafo, o primeiro período do segundo parágrafo e todo o resto deste último, logo, o ato de ler isto se transforma em uma afirmação – em descontinuidade temporal – de um estado de espírito, de uma contemplação da alma, de um ato mecânico e de uma ida sem volta em meio a letras e idéias que se passam em algum lugar e algum momento em minha pessoa.

Uma questão se põe assim agora: em consonância com o que eu escrevo agora e ao mesmo tempo em que “leio” a informação grafada, há um vão, uma descontinuidade entre o que penso e o que coloco em palavras, imaginem então o que não há entre o que estou escrevendo agora e o que alguém, ou eu mesmo, está lendo agora. Há sempre um vazio entre a escrita e a leitura e ninguém ou nada é capaz de contemplar tal lapso espaço-temporal. O meu agora – realmente agora – é se não outro totalmente diferente de seu agora, ou meu agora – o de fato agora. E aí nunca haverá realmente um agora que se possa conduzir entre escritor e leitor e aí a escrita serve de pouca coisa e novamente penso na tecla backspace.

Mas, novamente não se preocupem, se alguém lê isto “agora”, é fato que continuei e que o backspace foi somente um pensamento – sem desqualificá-lo por inteiro.

Vários vãos entre a impressão e o papel, a tela do monitor e os caracteres, os dedos e as teclas do teclado, os impulsos e os dedos, os pensamentos e os neurônios, os neurônios e a alma. Nada é inteligível então. A lógica é só ilusão.

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