A mais pura verdade

Foi numa noite leve, em que a peleja de rimas assistida já se findara, que me ocorreu uma coisa absurda, fato nada estranho, posto que às sextas-feiras coisas absurdas acontecem aos borbotões. Lembro-me vagamente de algumas coisas que antecederam o fato absurdo: além da peleja, recordo-me dos amigos – Giosconni e Martin –, de algum papo sobre o éter, sobre Marx e talvez, até mesmo, sobre separação. Lembro-me bem de uma donzela ébria que sorriu fagueira para minha pessoa na fila do banheiro e que logo se foi a dançar com uma garota – que não recordo a feição. Atina-se em minha memória que, passado pouco tempo, a donzela ébria veio recolher-se à nossa mesa, assim o fez para fugir da garota que lhe concedera uma dança e que, nos recônditos menos visíveis do expor-se ao mundo, queria a ela como eu a queria também: ébria, lépida e fagueira sob uma cama, champanhe no umbigo, vendas nos olhos e lingerie de renda vermelha. A donzela ébria, pouco afeita a carícias femininas acabou por buscar auxílio em nossa mesa e nós, como bons cavalheiros que somos, a recebemos com todas as honras, gracejos e benfazejos possíveis.

– O que queres beber? Lhe perguntei.

– Aceito um absinto. Ela respondeu certeira.

– Absinto?! Perguntou Giosconni.

– Eita porra! Enfatizou Martin.

– Não contrariemos a moça – eu disse –, não vês que ela está traumatizada? Acabou de ser assediada por uma outra dama. Precisa de algo forte para beber e acalmar os nervos. Garçom! Traga uma garrafa de absinto aqui para a mesa!

Rapidamente o garçom nos deixou uma garrafa do inebriante e verde lubrificante social e ainda com alguns apetrechos a mais para dar um toque de finesse a nossa mesa. Bebíamos como se deve beber, fumávamos como se deve fumar e conhecíamos a moça como se deve conhecer uma moça. Tudo fluía naturalmente e sem nada de absurdo. A moça nos falava que havia vivido durante oito anos acorrentada ao pé de uma cama num porão de uma chácara lá pras bandas do Incra 8. O autor de tal crime contra a humanidade, havia sido seu próprio marido, que, enciumado por possuir dama tão linda como esposa, não admitia sequer que seu odor fosse sentido por outro que não ele.

Escutávamos sua história embasbacados. Como poderia existir sujeito tão cruel?! Contou-nos que para manter sua boa forma, o sujeito havia montado toda uma aparelhagem de academia no porão e que a obrigava a fazer quatro horas por dia de malhação – fato ao qual eu intervi dizendo que somente este, seria das maiores perversidades que se pode fazer contra alguém. Disse-nos ainda que para manter seu corpo bronzeado, seu marido havia instalado lá uma máquina de bronzeamento artificial.

– Um maníaco! Disse Giosconni.

– Psicopata dos infernos! Retrucou Martin.

– Que nem Deus tenha pena desse miserável! Afirmei severo.

Queríamos saber como havia terminado aquela terrível história, como, afinal, ela havia conseguido se libertar de seu cativeiro de oito anos. Ela enfim nos contou tudo, disse que numa bela manhã ao acordar viu que seu algoz dormia profundamente e conseguiu observar a chave de sua corrente caída do bolso do paletó jogado no chão. Ela cuidadosamente levantou-se, procurou não arrastar suas correntes pelo chão, pegou a chave, tirou a corrente de sua perna, subiu até a casa pegou três facas de cortar pão, voltou até o porão e as cravou uma após a outra nas costas daquele cretino. Fugiu então para nunca mais rever aquele porão maldito e agora estava aí, querendo curtir a vida.

– Brindemos, pois! Sugeri erguendo uma dose de absinto.

– À vida! Disse Martin.

– Ao fim das correntes! Exclamou Giosconni.

– Morte aos psicopatas! Disse ela entornando de uma vez uma boa dose do bom e velho lubrificante social.

Iolanda, seu nome. Pobre Iolanda. Acorrentada durante oito anos num porão do Incra 8. Condoí-me por ela. Senti muito pesar por sua vida sofrida, mas ao mesmo tempo senti-me muito feliz por sua volta por cima.

Lá pelas tantas, vi que ela já estava mal um bocado. Não conseguia erguer a cara da mesa e balbuciava qualquer coisa sobre uma amiga. Perguntei para ela se não queria dormir um pouco em meu carro, afinal, seria mais confortável. Ela olhou-me com o ar ébrio e encantador de sempre e aquiesceu com a cabeça. Levamo-la para o carro e o coloquei mais perto de nossa mesa de modo que a pudéssemos observar. Continuamos nossa troça e nossa bebericagem. Foi neste preciso momento que Martin nos alertou:

– Ali diante, vejo uma deusa. Falou pausadamente enquanto tentava se atinar com a realidade em sua frente.

– Creio que anjos dominaram a terra. Ponderou Giosconni já de caneta em punho pronto a escrever apontamentos metafóricos sobre a beldade que se fazia presente.

– Queria muito fazer sexo. Completei.

Martin escreveu o seu apontamento e solicitou ao garçom que o entregasse até sua deusa. Bilhete entregue, riso fácil percorrendo a outra mesa, Martin sumindo atrás da laranjeira com sua deusa, ficamos eu e Giosconni ali bebericando um tanto mais. Giosconni falava qualquer coisa sobre a saudade de seu regaço tão quisto e distando quilômetros e sobre vontade e desejo e, eu já sob o efeito entorpecente do absinto, comecei a escutar pouco e observar a outra dama que até então acompanhara a deusa de Martin. Era uma moça simples, mas de feição marcante, morena da pele lisa, vestido florido solto, pernas torneadas, sorriso breve e tímido e cabelos lisos como de uma Iara. Imaginei-a numa praia: vestido branco, sem nada por baixo, lua cheia, ela entrando no mar e voltando tímida para mim: “a partir de agora, amo você”.

– Dom Giosconni, perdão pela falta, mas não te acompanho faz algum tempo, tenho de ir ali falar com uma sereia. Disse eu já me levantando e indo até a moça.

– Boa noite. Eu disse triscando-lhe suave os ombros nus.

– Melhor agora. Ela respondeu. Pensei que nunca fosse vir a meu encontro. Falou-me segurando minha mão e se levantando. Vamos sair daqui?

– Pra qualquer lugar… Disse enfático.

E partimos naquele mesmo instante. Levei-a até o carro sem ter a mínima idéia de onde ir, só queria mesmo possuí-la de qualquer forma. Quando entramos no carro ela beijou-me suavemente e eu correspondi inteiramente. Dei a partida e comecei a dirigir a esmo pensando que ela não merecia um hotel vagabundo qualquer. Quando passávamos perto de um matagal, ela não se conteve, segurou firme em mim e disse:

– Vira o carro e entra aí nessa estradinha que eu não posso mais esperar.

Não pensei duas vezes e entrei matagal adentro cantando pneu. Foi nessa hora que eu escutei um gemido vindo do banco de trás do carro. Freei o carro bruscamente e alguém caiu no assoalho. Lembrei-me que Iolanda dormia no banco de trás. Iara – ou a moça linda de vestido florido e ombros nus, a qual eu ainda não sabia o nome – perguntou-me quem era a moça. Disse-lhe imediatamente que era uma sobrevivente de um cativeiro terrível, que havia passado oito anos acorrentada num porão de uma chácara no Incra 8.

– Pobrezinha, disse Iara indo ao banco de trás, com um ar de profunda compaixão.

Levantou-a do chão, colocou-a em seu colo e começou a fazer cafuné em seus cabelos cacheados. Achei linda a cena. Liguei o carro novamente e continuei a empreitada em meio ao matagal. Quando chegamos em um pequeno descampado parei o carro. Tirei um vinho tinto do porta-malas – como se sabe, todos devem andar sempre com um bom tinto no porta-malas para ocasiões propícias – abri-o e me servi de uma boa golada. Quando dei por mim as duas saíram do carro, vieram em meu rumo e me abraçaram. Num piscar de olhos, estávamos nós já nus e nos beijando. Vi quando as duas se beijaram também. Não tive coragem de dizer para Iolanda que ela tinha fugido de uma mulher horas atrás, talvez ela gostasse também de mulher e só não havia se atinado com a que a tirara para dançar. Mas o que importa é que fizemos sexo os três ali mesmo, em meio ao descampado, debaixo da lua, selvagens, como bons herdeiros do pecado original. Mãos, pernas, seios, bundas, membro, encaixes, desencaixes, malabarismos e outras peripécias mais, como tem que ser.

Passado o fogo inicial, deitados estávamos eu e Iolanda sobre o colchão de ar de casal – posto que sempre se deve andar com um colchão de ar de casal no porta-malas para ocasiões necessárias –, fumando um cigarro e bebendo alguns goles do restante vinho, quando vimos Iara andando levemente em nossa frente. Ela dançava uma música que não se ouvia e o pior, dançava bem. Foi bem no momento em que ela fazia uma pirueta no ar que vimos uma coisa absurda: de repente asas saíram de suas costas e ela ganhou os ares. Fez umas duas ou três cambalhotas no ar, deu um rasante sobre nós, parou por cinco ou seis segundos em nossa frente e se despediu, sumiu em meio à amplidão da noite estrelada.

Fiquei embasbacado. O que havia sido aquilo? Eu estava completamente atônito, sem conseguir proferir palavra que fosse, quando vi Iolanda se levantando e começando a vestir sua roupa. Olhei para ela e fiz uma cara do tipo “você não vai querer conversar sobre isso?”. Ela me olhou calmamente enquanto vestia sua calcinha e disse:

– Nem era das melhores, já estive com anjos que tinham uma pegada melhor.

Não comentei nada. Devo ter feito uma cara pior ainda. Ela continuou:

– Sabe o que mais me deixa puta?

– Não, falei.

– Depois dizem que anjos não têm sexo… Eles estão é muito avançadinhos esses tempos. Acredita que um dia desses fiquei com um que era masoquista? Vê se pode…

Não entendi bulhufas do que estava rolando, só reparei que eu estava realmente atrasado no que se refere às questões sexuais pós-modernas. Tive apenas uma sacação: “ah foi por isso que ela a pegou também, no final, não era mulher, era um anjo… e eu que pensei que fosse uma sereia… que mané que eu fui…”.

Entramos no carro e ela me disse para deixá-la lá mesmo no bar onde nos encontramos, ainda tinha esperanças de encontrar a tal amiga. Fomos em silêncio. No meio do caminho liguei o rádio, tocava Miles Davis, ela aumentou bastante o som. Quando chegamos, ela desceu, foi até a minha janela e me deu um puta beijo na boca. Disse que não ia me dar seu número de telefone, pois que a gente devia se encontrar por acaso mesmo. Concordei com a cabeça, olhei para o bar e vi que nenhum dos meus dois amigos estava ainda lá. Lembrei que não tinha deixado um puto para a conta e a gente tinha bebido pelo menos uma garrafa de absinto, pensei comigo: “ah, da próxima vez pago uma água mineral, quem sabe até com gás…”. Dei a partida, aumentei o som e fui para casa flutuando no asfalto.

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