A noite, a cor e o poder

(ou “Você sabe com quem está falando?”)

Três e vinte e cinco da madrugada. Dalton acorda assustado com o choro de seu filho de apenas seis meses de idade. Eloísa, sua esposa, diz que a possibilidade de que o choro seja por efeito de uma dor de ouvido é grande – faz frio – e o eficaz remédio que sua mãe lhe dera já havia se findado. Dalton não questiona o sexto sentido de sua esposa e, mesmo cansado de sua última escala de serviço, sai em busca da solução para o choro de seu filho e para o seu sono.

A farmácia era próxima de sua casa, apenas um quarteirão à frente. Dalton sai em seus trajes de cama: bermuda furada, camiseta gasta pelo tempo (as melhores para o sono), meias de lã e chinelo de couro. Seu rosto cansado, com ares de poucas horas de descanso, estava triste naquela madrugada.

Dalton andava mecanicamente pela calçada quando o som de uma sirene se faz próximo. Dalton lembra de seu trabalho: “Que saco, até aqui a labuta me persegue…”, suspirando sua apertada última escala de serviço.

O camburão da polícia pára ao seu lado e um dos policiais grita a Dalton:

– Parado aí negão – Dalton era negro… –, mão na cabeça!

O policial inquisidor sai do carro e anda na direção de Dalton, que ainda grogue de seu sono incompleto, pensando em remédio, trabalho, esposa, cansaço e choro continua em busca da solução para o seu sono como um moto perpétuo inconsciente, sem notar que o policial falava consigo. Havia um ar de sonho em sua mente. Dalton continuava andando.

Nesse momento todos os policiais já se encontravam fora do camburão e o inquisidor primeiro, em sua raiva (fora ferido seu ego de autoridade), saca de sua arma e berra a Dalton:

– Ô negão, cê tá surdo porra?!! Mandei parar!!!

Dalton pára, se vira e começa a tomar conhecimento da situação, começa a despertar lentamente (seu ego de autoridade fora ferido – Dalton era tenente da polícia).

– É comigo? Questiona Dalton aos policiais.

– Tem outro negão chapado por aqui? Responde o inquisidor primeiro com aquele ar de questionamento e agressão típico dos policiais que fazem a ronda noturna.

– Você!! Ataca Dalton – o inquisidor também era negro…

– VOCÊ?!! – pergunta outro policial indo de encontro a Dalton – cadê o respeito negão, cê tá viajando né?!!

Dalton compreende o que acontece: a noite, sua cor e sua aparência não condizem com seu poder. Ele não é ninguém, ele é um cidadão com todos os direitos e deveres comuns a todos os de bem, mas ele sabe que não está com sua carteira de militar em mãos, apenas um talão de cheques e um cartão de banco, ele conhece bem o preconceito de seus companheiros de serviço – ele também é assim –, ele sabe que precisa se impor, mostrar que é alguém, que eles não sabem com quem estão falando.

– Vocês sabem com quem estão falando?! Pergunta Dalton com lágrimas de raiva aos olhos (ele sabe agora o que se passa na cabeça de quem ele aborda em uma batida).

– EU JÁ ESTRESSEI COM ISSO DE VOCÊ!!!! Grita um dos policiais e avança com um tapa na face de Dalton (seu ego de autoridade se rompe em mil pedaços) e este chora como há muito tempo não chorava (só não comparável à morte do Ayrton ou à final de 98).

– Ah negão deixa disso, cê deve tá muito loco… Zomba o inquisidor primeiro que nesse mesmo momento leva um soco de Dalton.

Aqui, as coisas se complicam para Dalton. Ele é xingado (como nem na infância), ele é chutado (como aquela bola que ele tanto estimara), ele apanha (como nem sua mãe o batera), ele chora e grita (como se fosse seu filho com dor de ouvido). Seu ego já não ousa se pronunciar, calou-se diante de tanta humilhação.

Os policiais colocam Dalton no camburão. Ele sangra, ele chora, ele se cala, já não há mais nada o que se fazer agora. Mas ele sabe que o poder ainda jaz em suas mãos, mesmo não tendo conseguido utilizá-lo quando necessário. Mesmo que seu sangue se misture a suas lágrimas nesse instante, ele tem plena consciência de que a vingança é um prato que se degusta frio. Ele é alguém, esses que lhe bateram, lhe xingaram, lhe humilharam não sabem com quem estão falando. Não tem a mínima noção.

Dalton sabe que ele pode mudar todas as regras que lhe foram impostas nesses últimos instantes. E à primeira oportunidade ele vai virar o jogo…

Seu ego renasce de seu sangue e de suas lágrimas.

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