Chovia. Chove.

Água quente. Era tudo o que Eliane queria. O martírio gélido do corpo molhado de chuva e lama não era algo que ela buscasse, preferia, sim, outras quenturas em se falando de água. Pelo menos naquele então. Queria a água de seu chuveiro queimando sua pele e adormecendo seu corpo. Ou então, água saindo de seus poros e escorrendo lânguida por um corpo outro, do seu já em dormência. Queria mesmo os líquidos efusivos de sua intimidade viscosamente impregnando o ambiente em brasa, saindo de seu corpo dormente e incrustando-se em outro corpo. Como alternativa não havia, foi-se ao seu banheiro.

A noite estava como toda noite chuvosa: plena. Noite em que dormita a vida e tudo parece estar acompanhado de um solo de guitarra crua. Plenamente noite e não dia vivido às altas horas da madrugada.

Seu corpo nu tremia. Era um frio que se espalhava e a abraçava. Envolvia, quase em braços, seu corpo e lhe arrepiava toda a pele, ouriçando ainda mais seu estado de espírito e desejando que os outros dois quereres que lhe percorriam a mente fossem mais do que feitos, fossem plenos.

O banheiro em seu pálido semblante entrava em contradição com a proposição do que lhe cobria: azulejos. Não eram azuis. Eram brancos. Uma impressão hospitalar que a repugnava lhe pedia para a apagar a luz, foi o que ela fez. O rádio ligado em uma FM qualquer conduzia aquela música triste, desesperançosa, antítese do verde, ou algo verde musgo iluminado pela Lua. Era um Tom que lhe dizia coisas Demais, um blues angélico que queria decair a noite plena inteira sobre suas costas. Ela queria calor.

A água do chuveiro caía devagar sobre seu corpo. Parecia que a simples trajetória entre o chuveiro e seu corpo era uma eternidade para a água que ansiava por manter a noite plena sobre Eliane. Ela relutava em crer que esse ímpeto de noite plena fosse se consumir realmente, continuava seu banho.

Lentamente, seu corpo relaxava.

Corpo. Palavra bonita, pensava Eliane. Corpo combinava com seu corpo. Seu corpo parecia realmente um corpo. Incorporava-se na palavra e esta ganhava corporeidade em seu corpo. Suas estrias, suas gorduras, suas celulites. Tudo corpo, tudo ela. Sentir o corpo com seu corpo, parecia algo plausível. O breu instalado no banheiro envolvia seu corpo, e este ganhava mais materialidade.

Água. Sentir. Corpo. Quente. Noite. Som. Querer.

Um corpo bastaria a si?

Lentamente, seu corpo percorria seu corpo. Tramas e entranhas. Seu querer era ser corpo. Sentir seu corpo o sendo. Sua mão, sendo seu corpo também, volvia e envolvia sua pele. Sua mão era pele também. A água quente dava mais ciência de si. Uma perna fora da água e a sensação de existir, a água caindo sobre os cabelos e a impressão de ser. A mão tocando o corpo em água quente e aquecendo mais a existência. Existir pode ser prazer também e que Buda se cale.

Eliane, em seu nirvana corpóreo, tinha a dimensão de que ser corpo era tudo o que ela precisava. A lentidão dava lugar ao frêmito e existir parecia depender de sua mão. De seu corpo.

Tudo envolvia: o calor da água, o vapor por todo o banheiro, a escuridão, o som, a plenitude da noite, seu próprio corpo. Tudo ardia.

Lá fora chovia, chove. A noite continuava plena e dormitando todos e todas em suas casas. Só Eliane existia em seu corpo.

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