Constatações

Era uma garota diferente. Não se atinha a certas afetações de uma possível generalização da condição feminina. Não possuía o mínimo sexto sentido, não tinha tensão pré-menstrual e o pior (ou melhor, talvez), havia passado toda a sua infância normalmente: boneca, casinha, papai e mamãe, unidunitê… Não faltava graça nela, de fato, era até jeitosa, tinha o seu quê de beleza e de feiúra, tinha enfim, sua humanidade.

Apreciava a companhia de pombos (e isso é uma coisa rara). Todos os dias sentava-se nos bancos perto da fonte de um shopping, em plena perpendicularidade solar e olhava os pombos banharem-se na fonte. Invejava-os um bom tanto e almejava a condição de suas liberdades.

Nunca pensara em ter filhos, mas sempre que via os pombos, imaginava o “quão bom deveria ser imiscuir meus genes com o deles”. Não era um intento zoofílico ou qualquer outra perversão congênere, era apenas uma constatação, como todos os seus sentimentos, afinal, não sentia: constatava coisas em seu corpo.

Os pombos na fonte eram uma de suas constatações particulares de seu dia. Não era mensurável em bom ou mau, apenas verificável. Uma perda dos segundos que era imperceptível. Não como o resto de seu dia, conquanto a viagem de ônibus de volta à sua casa fosse uma impercepção constatável um tanto próxima.

Sempre pensava em trazer pedaços de pão para jogar aos pombos e vê-los euforicamente digladiando-se do mesmo modo que faziam quando lhes jogavam as sobras das marmitas, mas nunca se lembrava. Todos os dias de pombos eram a mesma coisa: só o devir da imagem da luta colomba se fazia e o fato sempre fato não se produzia.

Certa vez sentara um moço estranho no banco ao seu lado e se aproximou: “te vejo todo dia aqui, você gosta de pombos?”. Ela nada respondera, somente constatara para si: “gostar… é eu devo gostar de pombos” e se levantou bruscamente sem dizer palavra, deixando ao moço atônito somente a impressão de algo estranho.

Nesse dia ficou confusa. Até sua segunda maior constatação do dia não foi a mesma. Mal viu a paisagem pela janela do ônibus. Estava com a idéia “gostar” em sua cabeça, ou mesmo em seu corpo, mas não entendia: “onde deve começar isso?”. Tentou lembrar o rosto do moço que perguntara acerca dos pombos, mas não conseguia se recordar. Só conseguia ver pombos no rosto dele. Nesta noite em seu sonho viu algo bem nítido e colorido (sempre sonhava tons de cinza): pombos.

No outro dia, em seu horário de almoço, preferiu não ir ver os pombos, foi passear pelos labirintos do shopping. Constatou que se perdera cinco vezes. Quando viu luz fora, saiu e de cara encontrou os pombos. Olhou-os com ar diferente e decidiu: “não gosto de pombos”. Passou perto da fonte sem olhar pombo algum e, desde então, nunca mais pensou neles.

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