Demonstrar

Paulo não sabia muito bem o que o movia àqueles dias. Estava bem, estava feliz e nem se sentia vazio. Não tinha sensação de que lhe faltava algo, de que lhe prescindia algo sólido ou que necessitava de um sentido. Apenas sentia. Andava um tanto atarefado com coisas do cotidiano, andava como devem andar as pessoas que correm atrás do prejuízo, que adiantam seus lados. Paulo estava vivendo.

A escolha de ter se libertado de ambicionar Eliane, de a colocar como o eterno objeto do desejo, dava-lhe ainda mais impulso de viver. Paulo respirava vida. Paulo entendia agora plenamente que Eliane era música realmente, era algo a ser sentido, sem sentido algum, só sentir. Era um deleite que se fazia em suas notas auditivas memoriais.

Nesse dia em particular Paulo começava a tentar retomar sua vida sabendo que Eliane seria somente ele agora, somente o que lhe fazia ser o que era até então. Eliane era Paulo, da forma mais simples que se pode ser. Paulo entendia isso e sabia que aspirar a ela novamente era coisa que não lhe cabia, então, quis retomar algumas coisas que andavam perdidas. Começou escrevendo uma carta:

Iara,

Como vai sua vida? Almejo em todos os sentidos plenos que esta palavra possa ter, que esteja bem, em paz e em boa companhia. Eu ando bem, aliás, ando. Parei de ficar parado. Eu sei que esses tempos andei rotas tortuosas em que não lhe coube ocupar um assento. Sei que ocupei todos os assentos e foram apenas minhas pernas esticadas e uma bolsa qualquer, nem ao menos era uma pessoa de fato ao meu lado. Ímpeto egoísta de alguém que padece de transtorno bipolar e que só consegue lidar com isso sendo consigo mesmo.

Não quero invadir a tua privacidade construída sem minha presença – que nem sei a quantas anda –, só queria apenas lhe dizer que pensei em você agora e que você coube como uma luva na imagem que eu tinha a minha frente: uma begônia em flor.

Abraços infindos tentando fazer contato,

Paulo.

Realmente Paulo não queria algo mais que dizer aquilo para Iara. Não queria que fossem palavras tentando um arrombo de paixão – esta que Paulo não sentia mais por ela –, mas somente que fosse o carinho guardado que se manifestava ao léu, que se fazia presente. Paulo sabia que Iara poderia não entender nada, que poderia até ficar com raiva, afinal, as últimas vezes com que Paulo estivera com Iara não havia sido um momento muito proveitoso, teria sido o lapso de um definir-se que, com certeza, Iara não entendera.

Paulo desenhou uma das begônias na carta, guardou no envelope e saiu de casa na intenção de entregar a carta na casa de Iara. Enquanto percorria o caminho, várias imagens passavam por Paulo, as flores numa casa qualquer, o casal que se beijava num portão, um cachorro que seguia idiotamente uma cachorra no cio, enfim, um mundo que não lhe cabia inteiramente, mas ao mesmo tempo, lhe acolhia de braços abertos. Quase o conforto de um acalanto no frio. Paulo abraçava o mundo sem sentido.

Havia ainda um resquício de qualquer sensação de erro sobre seus ombros. De que Leminski lhe cabia inteiramente: “até aprender que só o erro tem vez”. Mas nada o demovia de sua condição de felicidade. Nem esse gosto de erro na boca e nem mesmo a idéia de que ele só erraria sempre. Paulo sentia.

Enfim, Paulo chegava até a casa de Iara. Olhou a janela aberta, o jardim com a kalanchoe amarela bem florida que ele lhe dera um dia, o fícus dando uma sombra boa e quebrando a calçada. Tudo ali, no mesmo lugar. Olhou a casa um pouco mais e sentiu um frio na barriga pensando que poderia vê-la a qualquer momento. Foi até a caixa de correio e depositou a carta. Saiu tranqüilo, sem pressa, acendeu um cigarro e pensou que a melhor coisa para ele seria se Iara estivesse escutando qualquer coisa de princesa quando lesse a carta e que sentisse – não entendesse – o que demovia suas palavras e que ficasse feliz. Que lhe escorresse pela face não uma lágrima de esperança ou de rancor, mas um sentimento bom de que se é querido, de que se é importante.

A noite chegava e Paulo andava por aquela rua que ele caminhara por algum tempo, as crianças na rua, os carros bloqueando a passagem, becos com flores. Deu outro abraço no mundo e foi embora desejando que a vida fosse sempre assim. Sentia que viver ainda era.

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