Doce julho

Naquela época o ápice mesmo era fazer carrinho de rolimã. Silas dominava uma técnica apurada de produção. Vivia mentalizando projetos. Sempre perambulava em meio aos montes de entulhos detrás do colégio e da igreja, atrás de matéria-prima para a fabricação de seus carros, disputando espaço com vários moleques e algumas ratazanas em mamonais imensos. Um resto de velocípede era sempre valioso, pedaços de madeirites ou compensado só precisavam de uma lixada, banquetas quebradas podiam ser serradas, um pedaço de plástico podia se reverter em um bom aerofólio, tudo, enfim, podia ser utilizável de algum modo.

A época era julho, todos os moleques de férias, o céu azul muito louco, vento, pipas, cerol escondido da mãe, lâmpadas queimadas disputadas a tapa, passeios pelos bambuzais da erosão pra pegar vareta, mesada em papel de seda e linha 10, goma de polvilho pra selar.

Julho sempre representava uma redenção de algum modo: no meio do ano, enquanto todos trabalhavam, apenas os moleques dominavam as ruas. Jogo de bete em várias, golzinho com sandália, queimada e sua invariável aproximação inter-gêneros.

Vários redemoinhos iam e vinham lançando uma névoa castanha nos olhos. Sempre passava o tiozinho levando algumas vacas e bezerros pras chácaras atrás do asilo, onde, nessa mesma época reuniam-se várias crianças para roubar cana ou jaca.

Junto a julho ainda tinha aquele gosto bom das festas juninas que naquela época se realizavam apenas em junho: bombinha, traque, quentão escondido, correio elegante, cadeia do amor, sair vagando de quadra em quadra, conjunto em conjunto, atrás de uma festa junina displicente. E quando julho chegava sempre havia em quem se pensar: a doce flor de ipê da escola que só veria daqui um mês ou a rosa vermelha que quis lhe conhecer na quadra do colégio durante a grande festa junina – a da igreja.

Julhos: quentes de dia e frios de noite. Vento na medida. Batata na fogueira. As noites em volta das fogueiras eram sempre diferenciais. Os mais velhos deixavam os mais novos ficarem ali, enquanto diversos ensinamentos eram disseminados: a arte de ver prima pelada no banheiro, a dose de traçado pra espantar o frio, como zoar bem zoado um amigo, um cigarro estranho que rolava de mão em mão, um partilhar de mundo calmo num beco qualquer.

Silas amava os julhos, era apaixonado por Helen e Karen – “seria o ‘hein’ do final?”, ele se questionava –, e gostava mesmo de fazer carrinhos de rolimã. Seu melhor amigo Wesley – Nego, como preferia – estava sempre junto nas incursões que fazia aos entulhos e aos lixões. Cada viagem era uma aventura botânica (guerra de mamona), zoológica (guerra de tanajura), geológica (guerra de pedra), geográfica (polícia e ladrão, que sempre acabava em alguma dessas guerras).

Certo julho Silas e Nego resolveram fazer “o melhor carrinho”. O objetivo era levar “o melhor carrinho” para a corrida de carrinhos de rolimã, cujo trajeto se iniciava no início da quadra, ao lado da Banca do Seu Toinho e acabava na pista do colégio, totalizando quase 800 metros. A construção do carrinho foi primorosa, foram necessárias mais de seis incursões aos entulhos e lixões e ainda algumas invasões às obras do hospital em construção para conseguir toda a matéria-prima.

Depois de uma semana intensa de trabalho, “o melhor carrinho” estava pronto para testes. Nego e Silas brincaram o dia inteiro e concluíram que “o melhor carrinho” estava pronto para a competição. Na sexta-feira marcada estavam lá os dois, prontos a provar que eram os melhores projetistas de carrinhos de rolimã. Nego com uma blusa de goleiro do Botafogo, calça de moletom e uma joelheira que ele tinha achado no lixão colocada no joelho esquerdo. Ele seria a força-motriz do carrinho, ou o cara que dá o empurrão inicial. Silas usava um penico na cabeça – que encontrara no lixão e ao qual insistia haver lavado bem antes de usar – e resolvera ir sem camiseta “porque estava muito calor” no dia. Ele seria o piloto d’“o melhor carrinho”.

Havia seis carrinhos na disputa mais um patinete de rolimã – novidade na competição àquele ano. Quando foi dada a largada Nego empurrou com toda a velocidade possível seu amigo Silas dentro do carrinho, e “o melhor carrinho” logo tomou a dianteira. A direção de Silas com os pés era perfeita, desviara das britas no meio do caminho, escapara da cratera na pista do lado do colégio, já vislumbrava a vitória certa. Nos metros finais escutou um “Vai Silas!” muito forte e doce vindo do conjunto “E” da quadra. Ao olhar pra trás viu que era Karen que acenava e torcia. Naquele momento se sentiu o rei, com a vitória na corrida e o coração de Karen nas mãos. Perfeição maior só se conseguisse dar finalmente um beijo de língua naquele dia. O problema foi que a virada pra olhar Karen impossibilitou que visse a segunda cratera que havia na pista, do lado do armarinho Big Amor e que o prostrou ferozmente com a cara no asfalto, possibilitando apenas que ele visse a dupla da quadra 22 ganhar a corrida. Todo estatelado no chão, Silas pensou apenas que tudo doía pra caralho. À sua frente estava “o melhor carrinho” destruído e seu amigo Nego falando “porra, que diabo foi isso?!”.

“Tudo bem com você?” a voz doce veio de novo, “tudo” Silas respondeu. Era Karen que lhe ajudava a levantar. “Se apoia em mim que seu pé ta bem machucado”, ela disse. Saiu dali mancando e apoiado em Karen, enquanto Nego resgatava os pedaços do carrinho e dizia “a gente não ganhou a corrida véio, mas tu voou bonito, hehehe”.

Depois daquele dia as coisas mudaram um tanto. Na mesma noite, já de pé enfaixado, Silas foi até a quadra atrás do colégio encontrar Karen. Não deu seu primeiro beijo de língua, mas ficou a noite toda conversando com ela. Foi naquele julho que Silas compreendeu que havia feito uma escolha, no outro julho já não fez mais carrinho de rolimã, passou quase que todo o mês com a alma pós-festas juninas e rosas, margaridas, crisântemos, jasmins, flores de laranjeira, começaram a lhe subir cotidianamente à cabeça.

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