Impaciência, nervosismo e duas doses de preguiça

Marta esperava tranquilamente por Caio sentada junto ao balcão. Conversava com Tuco enquanto reparava na foto do Tim Maia que ficava emoldurada junto ao banheiro. Na foto, Tim olhava o bar meio de longe, meio de perto, parecendo que queria sacar o clima do boteco. Pensou longe que a sucessão dos tempos é uma coisa absurda. Esse mesmo bar, àquela época, as pessoas andando com precatas e meias, capangas dependuradas. Olhou ao redor, vários tinham capanga e precatas ainda. O tempo passa, mas a humanidade fica, pensou. E o espaço é só uma aglutinação de marcas humanas sujeitas a uma retroalimentação constante, completou.

Caio estava deveras atrasado. Marta já olhava com um ar de pouquíssimos amigos. De tanto cansaço resolveu pedir uma cerveja. Bebia tentando controlar a impaciência, o nervosismo e um pouco da preguiça. Esse cara nem é tanto assim, mas sei lá, parece ser razoável e tem uma barba boa, meditava enquanto dava uma ou outra olhada para o celular em cima da mesa procurando observar quantas horas seriam. Não tinha cara de quem faria a barba constantemente, Marta avaliava Caio mentalmente enquanto acendia um cigarro, buscando uma forma de estabelecer se tinha feito a escolha certa ao convidá-lo para o encontro.

Ainda fui eu a tomar a iniciativa. Que pelo menos tivesse sido ele. O mané deve estar se achando. Eram frases que pululavam à cabeça de Marta de quando em quando.

No meio do segundo cigarro, Caio chegou:

– Oi princesa, desculpe o atraso, falou Caio beijando o rosto de Marta.

– Tudo bem, nem estou aqui a tanto tempo. Mentiu Marta agora mais aliviada, mas um tanto ainda nervosa e com preguiça daquilo tudo. To aqui nessa, eu que me enfiei e ainda fico impaciente com a situação? Pensou enquanto pediu um outro copo para o Tuco. E o cara nem pede o seu próprio copo? Arrematou mentalmente.

Toda vez que Marta ficava nervosa sentia os nervos de suas mãos ficarem tensos e relaxados ao mesmo tempo. Era uma sensação estranha que lembrava um tremor, mas também parecia uma quentura, o problema era que começava a suar.

– Então, nem esquenta não que eu acho que vou tomar uma coca, disse Caio acendendo um cigarro.

– Você não bebe? Perguntou Marta.

– To dando um tempo. Tava bebendo demais, aí sabe como é, é melhor uma pausa e coisa e tal…

– Claro, claro. Mas você não se importa se eu continuar bebendo?

– Numa boa – Caio falou rindo um pouco – to dando uma pausa, mas não sou alcoólatra não. Não to em nenhum AA ou coisa parecida, se tivesse teria saído com você pra um restaurante, cinema e não para um bar…

– Claro, claro, repetiu Marta em conflito mental se o “oi princesa” inicial seria o mote da conversa ou se o papo ia se conduzir mais pra leveza do “não sou alcoólatra” final. Ela ainda estava com preguiça.

A conversa fluía razoavelmente, o cara no final era boa prosa mesmo, a cerveja descia fácil, o cigarro entrava e saia macio, as ideias se entrosavam. A barba dele era realmente boa, pensava Marta, já se sentindo sem preguiça alguma.

No meio da segunda cerveja, Caio resolveu tomar “só um uísque pra dar uma descolada na garganta”. Nesse mesmo momento vários conhecidos de Caio apareceram, o cara conhecia o bar inteiro na verdade, praticamente todo mundo. Não que aquilo fosse realmente incômodo para Marta, dava até um charme razoável ao sujeito, meio Don Juan, um certo arzinho vagabundo. Sempre aquela coisa das mulheres se encantarem por um anjo decaído, ela relativizava enquanto prestava atenção à conversa de Caio com o dono do bar.

A noite avançava, no amanhã ainda existia uma sexta-feira antes da redenção e o “só um uísque pra dar uma descolada na garganta” já tinha se transformado em cinco. A língua de Caio ficara num tal de grau de moleza que ela desacreditava um tanto, mas ainda assim um certo desejo pelo cara mantinha-se num alto grau de constância.

Ainda era cedo da noite, e o cara bebia bem, quando Marta reparou nas horas percebeu que se ela quisesse algo àquela noite com o maluco era melhor ela se arranjar logo, senão ela corria o sério risco de ficar sobrando na mesa, enquanto Caio trocava ideia com cada ser humano que adentrasse ao bar.

– Mas e então, esse bar tá ficando meio chato, não? Perguntou Marta com um olhar altamente desafiador para Caio e com as mãos pingando de suor.

– É, a gente pode ir pra algum outro lugar melhor mesmo… Concordou Caio.

– Tem um hotel meio vagabundo mas sem manchas estranhas nos lençóis ou nas paredes aqui perto…

– Nossa, esse convite eu aceito com toda a certeza, Caio disse com a língua parecendo o silvo de uma cascavel.

Pagaram as contas e foram ao hotel. O ambiente era bem decadente, ficava em cima de uma loja de tênis e a escada que dava acesso à recepção, que se constituía apenas de uma singela mesa, tinha uma luz parca que falhava. Quando chegaram à recepção o cara que cuidava dos quartos quase soltou um “Caio, a quanto tempo…”, mas se controlou assim que viu a cara de poucos amigos de Marta.

Entraram no quarto com um abrasador senso deslocalizado de não reparar em nada. O cara tem uma pegada boa pelo menos, Marta internalizava o processo querendo vencer o nervosismo ou a impaciência, afinal, preguiça naquele momento não havia. Rapidamente estavam nus, ela por cima dele, corpos arfavam num quarto vagabundo e desejavam um ao outro.

Puts, tava precisando mesmo disso hoje, Marta se agraciava enquanto percorria lentamente o corpo de Caio.

– Esse hotel só podia ter um isolamento acústico melhor, não preciso de forma alguma ficar escutando essa professora de orgasmos aí do lado, disse Marta esperando uma risada ou um “não esquenta com isso e presta atenção aqui”, vindo forte e bruto de Caio enquanto lhe agarrava. O estranho foi que nada aconteceu, o cara nem ao menos deu um sorrisinho. Ciente do que poderia ter acontecido, Marta olhou para o rosto do sujeito e viu a merda que acontecera: Caio estava dormindo.

– Puta que pariu, que merda, sentenciou Marta.

Marta ainda tentou em vão dar uma sacudida no cara, mas Caio apenas começava um ronco baixinho, meio tímido ainda. Com certeza aquilo viraria uma motosserra a qualquer hora, pensou.

Com a calma que Deus lhe deu, foi até o banheiro e tomou uma ducha enquanto resolveu algumas questões que haviam ficado em fulgor em seu corpo. Saiu do banho, fumou o último cigarro do maço de Caio olhando pela fresta do outdoor que tampava a visão da janela e maldizendo seu processo de escolhas, vestiu-se e saiu. Caminhou um bom tanto à esmo procurando internamente o seu processo bruto de novo. Sem autopiedade Marta, dizia de si para si.

Entrou no primeiro boteco que encontrou. Só tinha uma mesa com dois casais e um sujeito barbudo com um simpático ar de melancolia de fim de noite sentando junto ao bacão assistindo de rabo de olho o programa do Jô que começava. O sujeito passava freneticamente a mão na barba. O cara parece que tem piolho nessa barba, pensou Marta enquanto ficava de pé junto do balcão. Pediu uma cerveja. O cara que estava ao lado olhou para ela e disse:

– Sabe quando o que resta de uma noite é a sensação de que ela se resumiu a umas três míseras coisas?

– Quais seriam? Perguntou Marta fazendo com um sinal se poderia pegar um dos cigarros do maço que estava no balcão.

– Impaciência, nervosismo e duas doses de preguiça, disse o cara puxando um cigarro e entregando-o para Marta.

– Por que isso me parece tão familiar? Perguntou Marta enquanto acendia o cigarro e com um sorriso altamente controlado no canto da boca.

– Você poderia me explicar a sensação, que eu avalio se é algo próximo ou não, senhorita… Deixou no ar o cara, esperando que Marta completasse e passando os dedos no bigode.

– Marta.

– Muito prazer Marta, impaciente Paulo ao seu dispor, retrucou o cara enquanto servia Marta.

– Impaciente?

– Bom, desde já muito mais nervoso e com um pouquinho de preguiça, do que impaciente…

– Bom, Paulo, deixa só eu molhar o bico que eu te conto então, disse enquanto soltava um leve bocejo e sentia os nervos das mãos se contrair e relaxar ao mesmo tempo.

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