O surgimento do tempo

“e o espaço sempre foi visto como o morto, o não dialético…”

M. Foucault

Essa história se passa não num tempo, mas num espaço. Passa-se longe de qualquer critério de ontem, hoje e amanhã. Algo em torno de um antitempo. Não se faz conjugando tempos verbais simplesmente (embora como se necessite da gramática para lha escrever não se possa prescindir das palavras e das estruturas). Por isso penso que essa história não se possa ser contada, mas apenas escrita, uma vez que as palavras estão desse modo postas em seus devidos lugares, em seus espaços. Não ficam perdidas em meio ao éter da fala (algo muito mais temporal do que espacial).

Deixo claro que qualquer tentativa de lha situar em um tempo será em vão, posto que a coisa se deu materialmente (e há uma pequena surpresa no final da história para aqueles que gostam tanto assim do tempo). Que me desculpem os historiadores, que me perdoem os físicos, mas a história é essa…

* * *

Há na periferia de um território materialmente imaginário um indivíduo chamado Labarcã.

Labarcã dedica sua vida a estudar o espaço. Suas formas, suas estruturas, seus modos, o seu ser. Estuda-o na busca de sua essência, sem cessar.

Em meio a tantos estudos acerca do espaço Labarcã encanta-se então com sua representação, encanta-se com a sua identificação, encanta-se assim com a cartografia. Observa com apuro as formas de se plotar num plano a realidade, de se projetar e transpor em papel o mundo circundante. Labarcã inicia-se na arte dos mapas. Começa a produzir compulsivamente mapas sobre tudo o que vê: mapas sobre o relevo, mapas sobre as águas, mapas sobre o clima, mapas sobre as cidades, mapas sobre as árvores, mapas sobre os animais… sem se cansar, faz mapas sobre tudo.

Labarcã se apaixona assim por transpor o mundo em imagens e se imiscui ainda mais nessa arte, entende que as representações dependem de suas escalas, da seleção de suas informações, dos tipos de legenda, dos matizes de cores… e em cada um desses ingredientes de produção dos mapas, um novo universo de possibilidades, uma nova gama de meios, um novo cabedal de formas… as combinações são assim infinitas. Labarcã começa então a conjugar informações em seus mapas, relaciona animal com clima e faz uma carta zooclimática, cidade e vegetação e faz um mapa fitourbano… novamente mais mapas, muitos, compulsivamente.

Labarcã mapeia tudo que existia. Labarcã sente a necessidade de criar a mapoteca de todos os mapas do mundo, o lugar em que tudo o que pudesse virar carta estivesse mapeado, estive seguramente representado. O lugar em que todas as variáveis pudessem ser combinadas de todas as formas possíveis e imagináveis (e até o que não pudesse ser mapeado, pois Labarcã faz então mapas sobre os sentimentos, sobre as emoções, sobre o trajeto irregular de um elétron, sobre a expansão do universo, sobre uma idéia, sobre um movimento, sobre os sonhos, sobre a alma, sobre o espírito… sobre tudo o que existisse).

Labarcã observa que cada carta depende da variável de sua representação, Labarcã assimila para si as noções de escala assim. Inicialmente faz um mapa de todo território em que vivia, em escala de representação geral de tudo, uma escala grande por assim dizer. Mas Labarcã não se sente satisfeito. Diminui sua escala e representa mais coisas em sua carta, mais relações, mais informações. Diminui cada vez mais sua escala, representa cada vez mais coisas e relações, mais informações. Labarcã sonha assim com a escala de 1:1, quer refazer todo o mundo num mapa definitivo e começa assim sua empreitada.

Arranja todo o papel que fosse possível e inicia seu projeto audacioso, faz cálculos, projeções, estabelece coordenadas, faz medições. Não pára um segundo, tal tarefa não pode ser feita de qualquer jeito, ele precisa representar o mundo, ele precisa de todo o real referenciado e plotado em carta, na escala do real: um para um.

Labarcã termina seu projeto. Enfim feito o mapa do real em sua realidade. Labarcã contempla assim a cópia perfeita do seu mundo, de seu espaço, de seu lugar. Labarcã vê assim ele mesmo, sentado em frente a seu mapa, em escala real: um para um. Só que ele não entende, está tudo estático, parado. Ele vê seu mapa do tamanho do mundo, mas vê que ele não é o mundo, que há um vão entre o mundo e sua representação, ele fica furioso assim. “Maldito seja esse mapa parco e sem vida!”, grita Labarcã contra sua obra.

Outro plano fabuloso se passa assim em sua mente: criar um mapa que vá além da representação, que seja mais que a imagem do próprio mundo, que vá além do mundo, escolhe então sua escala: um pra um milionésimo. Assim começa: um centímetro em seu mapa seria equivalente a um milionésimo de centímetro no mundo real. E ele relaciona todas as informações com outras mais que possam existir e ele não pára um minuto: cria até um computador para lhe ajudar na tarefa, são cálculos, coordenadas, cores, representações, traços, medições… e ele busca ir além da representação, busca através dela a constatação da essência do espaço, busca traçar até os não-lugares e os vazios, os nadas. Ele não pára.

Mapeia os fluxos, os fixos, as formas, os processos, as funções, e em cada um destes mapeia também seus meta-fluxos, seus meta-fixos, suas meta-formas, seus meta-processos suas meta-funções, e em cada um destes seus para-meta-fluxos, seus para-meta-fixos, suas para-meta-formas, seus para-meta-processos, suas para-meta-funções, e em cada um desses um novo universo de informações, uma nova gama de possibilidades, um novo cabedal de essências. Em cada essência, outra mais e uma nova forma de a representar. E ele não pára, mapeia assim o infinito e todas as suas possibilidades na escala de um para um milionésimo.

Labarcã ao contemplar sua obra vê então plotado em papel toda a dinâmica de seu espaço, todo o seu território e suas possibilidades de acontecimento. Labarcã contempla assim sua nova criação e vê em seu mapa ele mesmo contemplando sua nova criação e vendo em seu mapa sua nova criação…

Labarcã mapeia assim seu próprio mapa, incessantemente. Um moto perpétuo cartográfico.

Labarcã não mais existe. Ele é só ele mesmo representando-se em um mapa maior que o próprio infinito.

Labarcã, não mais existindo, continua assim: eternamente na busca do mapa definitivo e sendo sua própria representação. Seu mapa engoliu ele mesmo e ele não consegue mais sair desse ciclo. Labarcã é então o próprio espaço e seu além.

Labarcã virou o tempo e a sua infinitude se sente até agora.

Qualquer semelhança entre Labarcã e qualquer deus é mera coincidência.

Diga

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.