deixar o mundo entrar por instantes
carregado de partículas de poeira e memórias
permitir um pouco que o frio percorra a espinha e se instale nos pêlos
a vida sempre ocorre fora do que se pensa que ela é
a vida sempre pulsa lá fora
e é necessário deixar o lá fora entrar e se assentar minuto que seja
com a cara do mundo
que é sempre esse amontoado de arquétipos empoeirados já postos dentro de sua cabeça
Autor: Guilherme Carvalho
2102. O pior inferno astral de todos os tempos
lento
denso
tenso
tudo
indo com o vento
2101.
no vulto
do que penso
antes de ser
palavra
percorre em
sentimento
uma preposição
parada
num neurônio
em movimento
sendo carregada
talvez mesmo
só uma pala
2098.
Elas teimam
insistem
que em si têm
mais do que se
imagina
Que vão longe
além da meta
Que são meta,
para e pós
Mas são palavras,
facas,
sulcando pela
razão a alma
numa torrente
de sangue
2099. Poemedredon
Preciso costurar um poema
pois versos soltos em retalhos
de neurose foram postos
sobre a mesa
Tem um dia azul cinza
tornado transtornado a
cair feito viscose
Tem a cor da dor de tudo
em dó em tiras de cetim
O motor da saudade
censurada num corte de brim
Meu dolo no consolo pouco
do si estampado em seda chinesa
A lonjura que apura
o Campari em algodão cru
Tactel carcomido como um
corpo dolorido e não dormido
Há o espaço da vontade
que invade sem poder cortado
numa peça de linho
Pego tudo, junto um pouco
crio um padrão mínimo
costuro um tanto e pronto
está feito um abrigo contra o frio
2100. Negra
Tua pele de seda
que brilha preta
num avesso de estrela
num contorno de estrela
e que enseja
a mão nela
em cima de veias
que pulsam um
sangue de realeza
vermelho.
2095. Voar
só queria um sussurro
tipo
“Rue De Mes Souvenirs”
no ouvido
o som descendo até o pescoço
trançando as pernas cúmplices
trocando os sentidos, simples
algo que fosse inteligível
só a dois
como dois e dois sempre são dois
sussurro
ao pé do ouvido:
“Errant dans les rues de mes souvenirs”
mas vozes andam longe…
2096. Neura
o rio leva muito
coisa fina
matéria grossa
se a vida é um rio
que fossa…
2097.
uma paz basta
agressiva
ou mesmo sem graça
qualquer coisa que
seja,
mesmo breve,
quem dera leve
num algo que
não fosse possível
pensar
e que sentimentos
fossem apenas
notas sensoriais
sem nenhum ai
só paz
sete palmos talvez
cinzas ao mar quiçá
mas seria paz
derradeira
passageira
paz
2092. Pairando
Tava pirando
nessa de parecer
todo estranho
parei querer
martírio tanto
e com você
acabei pairando
2093. Findo I
O fio foi indo
fiando a fé
até que enfim
o inferno findou
2094. Findo
Depois de findo
o vinho há de vir
com um devir
posto no gole:
cem de mim vagam
em cada esquina
mil melhores
se avizinham
e eu, minguo.
2089. Como é que pessoas surgem?
não é num simples
fato consumado
em ato de cópula,
papai-e-mamãe
ou de quatro,
em que esse tal
de princípio vital
é ativado
pessoas surgem
é no laço
com outros e
dum fardo
de manter algo
eu em meio ao mundo
já armado
talvez seja só
num lapso
entre um gene casto
e a amplidão
do mundo situado,
talvez mesmo
num buraco,
no fundo do que
é significado
nesse vão pode ser
que pessoas surjam
2090. No fundo
Eu sou um romântico
pós-moderno
só quero que
todo amor dê certo
e que mesmo sem rima
sempre seja verso.
2091. Fertilidade
bastaria uma frase
para calar o quase
mas ela não veio
e um veio d’água
fez-se do peito aos olhos
caiu pra dentro
molhou a alma
brotou uma idéia
deixou uma certeza torta
um cultivo de carência
e uma impaciência
com o mundo
amanhã de manhã
tudo muda
a frase não vai vir
novamente
a certeza torta
vai ser miragem
como uma tatuagem
dentro
e uma cachoeira formada
não será derradeira
será rio
margem fértil de um Nilo
2086. Coisa certa
Foi um click
certeiro
Dexei Pessoa
pra depois
e levei
Martha Medeiros
Foi um ato
sorrateiro
Feito sem pensar
e deu no que deu
Provável levei
pelo prefácio
do Caio Fernando Abreu
Já estava lá
com um ovo apunhalado
e pensando o que
devia ser acompanhado
Passei o olho
num strip-tease
e bebi as letras no gargalo
Agora sim
todo faceiro
Eu digo que o
Mar tá
pra Medeiros
2087. Ode à-toa sobre ficar à toa
ai preguiça bendita
que me fita
me pega de jeito
e é sina
de me não fazer
europeu
ai preguiça bendita
que me faz um verso
a toa
que me beija a boca
e me diz que
eu sou eu
ai preguiça bendita
que me arde a tarde
e a noite
e que pela manhã
me é coice
e diz: fudeu!
ai preguiça bendita
nunca se corrija
e sempre poente
ao animo me anime
esquisita e diga:
você é meu!
2088. Música I
onde está você?
com suas garras e presas
com garrafas de cerveja
com ervas e eros
correto
onde anda você?
com sua calma e alma
com palmas ritmadas
com armas palavras
colorido
onde você se escondeu?
com seus astros e acasos
com sorrisos soluçados
com sins e fins
corolário
onde diabos você se meteu?
com seus tiques e trejeitos
com truques trágicos
com troças e sem troco
corpo
onde paira você?
com suas místicas e míticas
com razão a flor da pele
com fluir leve
convulso
onde você?
com meu eu
com dez eus
como eu
condizente
onde?
com você,
eu?
2083. Jazzcido III
Não é inveja
é só a descompostura
de que seja
o som além
da partitura
do que esteja
na cabeça
como um limão
de candura
2084.
Neurótico
uso
Narcóticos
como
Antibióticos
e
Metódico
2085.
nesse instante
falta tudo
num rompante
nem falta
a lágrima carrega
o estranho do
absurdo
falta algo dissonante
que me leve a soar
tudo como ante
2081. Metáfora
Inédito!
Descoberto um homem
só id sem ego ou superego
Tacou fogo em seu
próprio prédio
Inédito
Se não fosse patético
2082. Hai, quase…
Quase caí,
num haicai
kamikaze.
2080.
todos escondem algo
as marcas de seus podres
ocultam seus lados b, c e d
eu mesmo tento não ver
esse meu latente
lado Z
2077. Notícias das oito I
para a média
pasteurizada
homogeneizada
cidadão comum
homer simpson
que se apega
ao que mostra
e diz uma tela
como se fossem
as mensagens
de um profeta
o que merece
emoção, ímpeto,
choro e vela
não é a miséria
que na sua cara
se esfrega
que te pede um
troco no farol
e sua bolsa leva
que badaga na
praça sua cola
e que fuma atrás
do lixo seu
crack, sua merla
que cata os cacos
do seu lixo
e as latas de sua festa
o que comove
é o que o jornal
transforma em novela
que denuncia antes
dos gols e no meio
de coxas belas
com fundo musical
de teclado brega
com os brilhantes
comentários de um
casal de merda
demove o coração
o que meticulosamente
é planejado
em meio minuto
de matéria
2078. Notícias das oito II
no trágico visto nos jornais diários
o mundo é sempre do outro lado
a fome quando pede na rua
só é mais triste mesmo na tela
com aquele fundo musical brega de novela
2079. Para-meta-transparagens
a vontade é nula
potência nenhuma
super-nada
o anseio desmancha
com a quebra da onda
Oyá tenta ainda
insuflar querer
o Caçador lança a seta
e não acerta
na cultura
poder não há
não dá
o mar vem com o ar
com o tremor debaixo de si
com o fulgor de uma dorsal
quando as rochas se encontram
o ar vem consigo
e com rochas esmigalhadas
com resquícios de mar
quando a pressão é pouca
o fogo vem interno
pedras líquidas em brasa
de si resultam terras, bases
quando o ar e a água a tornam
o terra vem de dentro e é
vem com a dança das bases
nadando em labaredas
quando tudo se mexe
a vida vem daí
com tudo ligado
como tudo em separado
quando se tem um fim
equação nula
elevada a potência nenhuma
superando o nada
desmancha o anseio
quebra uma onda
Iansã já lança raios
depois quer torrentes
Oxossi com sua flecha
acerta
na natureza
poder sempre há
sempre dá
2076.
fato
fácil
o
fim
do
fardo:
face
a
face
feita,
faz-se
festa
findo
o
fato,
feito
feixes
flechando
o
fígado
2074. […]2
completamente descompassado
nada
nada mesmo ensaiado
tem um timing errado
tentado
texto tatuado
a força forjado
com forja de aço
na epiderme digital queimado
analfabetamente assinado
a gancho içado
pelo rabo
um freak show arrotado
dessas palas de noiado
muito
muito mesmo
mal acompanhado
um pequeno punhado
de gestos pré-calculados
geram a gesta desse fato
um neurótico premeditado
que enxerga pelo rabo
e caga pelo falo
dezenas
de dezenas
de centenas
de dejetos que desceram pelo talo
que na garganta enfiados
travaram num pobre peito censurado
que luta contra ser hipnotizado
toda hora tentado
por corpos suados
e por um leve e breve humor barato
envolto num fácil frágil tóxico inebriado
fruto desse consumir consumado
dum mal-gosto desgraçado
desses pedaços mal-colados
figurando num ciborgue recém montado
que se vê no espelho a frente colocado
imagens de idéias soltas ao acaso
possíveis a um fim alcançado
elas se agrupam no vasto
universo cunhado
numa moeda de infinitos lados
que gira
gira
gera
germina
esse texto todo mal-estruturado
lapso de mim perdido em tudo aqui digitado
ainda assim fica um ruído
que ecoa
ecoa se consumindo
texto auto-destrutivo
felino
peso vindo
pontuando e impelindo
à força partindo
todos os Quixotes e os moinhos
só restando letras a caminho
ao largo parindo
quase rindo
versos e estrofes de linho
num tapete em desalinho
pouco
pouco deveras
bem construído
fruto de um mundo caudilho
sem portos ou abrigos
só um asco fluindo
o rumo numa nau não tido
é esse texto bem quisto
em que invisto
milhares
de milhares
de milhões
de coisas que poderia estar repetindo
que me acertam no supino
como uma fincada de flecha de índio
no peito e este se abrindo
o sangue caindo
um humor quase canino
mesmo com esses olhos de menino
que teimam em o ser em terreno pútrido
coisa que valha além de ser signo
como com lixa carinho
como só com branco colorido
como mesmo anestesiado tudo dolorido
é uma oferenda em sangue de novilho
palavras postas nesse redemoinho
para ser comida ao faminto
de letras e munindo
arsenal mínimo
contra o fardo do tal destino
que destoa
destoa
degenera
descamba
nesse texto todo quase latido
lapso aqui digitado de tudo em mim perdido
2075. Pelas águas fez-se essa terra
Antes de naus, lemes e velas
desde já, avistavam-se canoas
deslizando sob veias de água
cada braço teso ao remo um pulsar
Degredados e em parca esperança
vinham com e sem intenções boas
deslizavam no mar suas faluas
para nesse mundo litoral aportar
Junto às galés, tambores rufavam
tantos mais chegavam com loas
acorrentados, saudosos em mágoa
cada fio de sangue à terra juntar
Para esse corpo-porto de terra tanta
cá vieram todos entre popa e proa
por esse Atlântico rio que cá deságua,
e ainda que em terra, sempre a navegar
2071. Tremores essenciais II
movimentos involuntários
o dedo pulsa milímetros
que não foram calculados
quiçá mesmo controlados
pequenos e leves espasmos
como se uma convulsão
se aproximasse e o descontrole
de todo o resto se apoderasse
frenética a perna vibra
em ondulações pouco ritmadas
como que violadas
da própria consciência
fruto factível do fumo
da fossa e do frisson
ondas que nas pernas
vêm e vão
mesmo relaxado tudo teima
em por si mexer
um belo de um auê
os nervos parecem qualquer
coisa entre um varal esticado
e um grave formado pelo
vibrar do vento
imperceptível pouco e breve
mas ainda movimento
involuntário momento
em que o corpo diz
que a mente não pode ser
sempre um unguento
2072.
a pior ilusão que esse mundo pós-mundo nos dá
é a de que tudo fica mais perto
mas de fato toda proximidade agora é um parto
é apenas um despedir-se à beira de um porto
é pouco, pois sempre, bem parco
todos barcos navegando sem proa ou popa
pra sempre indo e nunca parando
nunca
sempre
sem ter pra onde
2073.
eu nada
tu sempre
ele talvez
nós nunca
vós tais
eles tantos
2070.
o que resta ao fim do dia
é apenas um corpo inerte
cansado de lutar contra a loucura
uma mente em cacos
cada um em um lado da própria cabeça
fragmentos de quem tentou manter-se são
neurônios que não conseguem
mais distinguir onde dói fisicamente
uma mente que mente em ser uma
múltipla ela vê em cada caco
um médico e um monstro refletidos
o corpo paira imerso em dar
em dor e ar
é tudo o que resta ao fim do dia
uma mente a um corpo
tentando parca se doar
2068.
café forte
sempre tem razão
acorda-se
a tempo de
degustar-se
a solução
2069.
o dia dilata de forma inesperada
como se em cada hora várias auroras houvessem
e novo dia já despertasse
ao mero tic de um tac qualquer
pois que todo segundo nesse dia dilatado
é mais que qualquer fração de tempo
2067. Depois
quando se deixa tudo
é porque tudo que é
deve
quando tudo fica
se fica o que
é
quando se fica
porque
quer
quando se fica
fica
porque
é
2066.
pelas manhãs você deve ser mudo
durante todo o tempo um bom tanto surdo
e à noite cego
para que não te caiba
a carga pesada do ego
2064. A distância de um sorriso
parece algo como
se fosse possível,
à revelia de uma manhã muda
de uma tentativa parca de surdez
de uma cegueira non sense,
parece ficar ali quase a milímetros
apesar do mundo
poderiam apenas palavras
da cor do sol
com o eco do vento
e da textura de um toque sobre teu rosto
bastarem-se para trazer
à tona esse que te cabe tanto
acho que vou
dado que o mundo
não deixa medir a distância
em proporção certa
se anos-luz
se já próximo
talvez mesmo nunca mais
deve ser para que eu vá
pois que do ponto da partida
até teu sorriso novamente
hão de vir lágrimas entrementes
mas depois de mim
teu sorriso
ainda há de ser certamente
2065.
bastaria apenas uma frase
dita em sussurro ou aos berros
para que nada tivesse sido o que é
era só ter falado de amor
de verdade
de vontade
de desejo
mas nada foi dito
apenas insuflado o grito
que contido na imaginação
de que seria algo prudente
e feito de lógica composta por dois
não fruto do malogrado trabalho do ego apenas
bastou para que
uma crosta se formasse
uma dor insone
uma angústia diletante
quase uma raiva
queria não ir
mas não me cabe o querer
pois que do que quero
queria mesmo era escolher
ficar
mas isso não se pronuncia
frase alguma que permitisse foi dita
me proíbo assim
de escolher você
2063. De dentro de um depois para além
longe
perto
tudo lento
um aperto
lânguido
leve e
denso
o peito não cabe dentro
tudo cabe dentro
eu e você
assim
longe
perto
sem partir
ficando ao ir
indo sem ir
tudo assim
eu e você
e esse amor
leve
que leva
a gente
a ir sem ir
e ficar não ficando
mas, assim,
como pode?
tão
tão
gostando…
2061.
essa tensão que percorre
que vem a pé e que ocorre
no impulso de ser maior
que ela mesma
vem sempre que pode
vem e sacode
demove
fica ela mesma e
todo o resto foge
2062.
quando entenderem que isso não me pertence
não haverá mais o mundo para existir em cima dele
as pessoas serão só ossos esparsos no chão
e as baratas estarão dominando o mundo
2060. para michel
o poeta não recebe poesia
pois não corre o risco de
ver que na poesia
pode haver só poesia
além do umbigo
e das cifras
2058. Aparte
fim e
destarte
à parte
a parte
que parte
– você –
parto
em partes
partículas quase
partindo
tudo o que
me é parte
2059.
Antes que eu fique fora de área
queria lhe dizer agora
que eu mal posso ver a hora
em que você diga palavras
que destruam as eras
de cada fração de hora
em que passo ansiado sua aurora
2056. Coisa doida
coisa
doida
é
coisa
doída
essa
doideira
dolorida
demais
dá
dó
de
si
dá
nó
no
gogó
tudo
doido
tudo
doído
dói
doma
coisa
doida…
2057. Decide
vai
a porta está aberta
e
se quiser
vem
a porta aberta é certa
vai
a porta nunca fechou
e
se quiser
tenta
quem sabe você fecha
vai
a porta é ampla
e
se quiser
volta
a porta não é tanta
vai
a porta ainda é aberta
mas
sempre pode
ventar
e a porta é quem decide
2055. É preciso aportar
uma paz doida me espera
uma calmaria se avista no horizonte
praia, céu, sol, vento sul
algo ali me aguarda
é preciso só baixar a guarda
só determinar o prumo
içar as velas
e partir rumo à costa
que de mar, já deu
2053. Não estrangeiro, só estranho
Eu sou só
o que me sou,
sou tal
Mersault.