A sombra da ignorância
não é um ato falho
Eu quero viver sobre a
luz do que eu não sei
Agora que aprendi o
peso de todos os atos
Eu quero é desaprender
o fardo das leis
Autor: Guilherme Carvalho
1443.
Eu não queria,
mas teu cheiro
no meu braço
fez eu querer,
mas eu não
queria
1441.
Se você quisesse
eu me entregaria
mas tua carne
nobre não se dá
com meu espírito
plebeu e a
vizinha de minha
dor já se foi
com o cobrador
da lotação e
aliança no dedo
Meu quase-amor
se suspende
entre a lua
que mancha a
sirene da polícia
aqui em Ceilândia
E certo é que você
não passe e eu
fique na turva
cova da não
definição
1440.
Hoje eu não durmo
porque hoje eu quero
o sangue
Hoje eu não durmo
porque hoje eu
apago a minha
cara
Hoje eu não durmo
porque hoje eu
mato o poeta
1438.
Falta pouco pra eu te cativar,
mas nem raposa, nem príncipe
o que resta é eu me mandar.
1439.
O que a gente precisa
é do peso
O que a gente precisa
é do cheiro de bacon
frito e só um vale-
transporte no bolso
O que a gente precisa
é que o último cigarro
caia na poça de lama
O que a gente precisa
é esquecer o amor
no celular desligado
O que a gente precisa
é tacar o celular na parede
O que a gente precisa
é doer mais
O que a gente precisa
é matar qualquer desejo
O que a gente precisa
é ser esquecido
O que a gente precisa
é faltar para si
O que a gente precisa
é esperar o beijo
e lamber a parede
O que a gente precisa
é não virar nem memória
O que a gente precisa
é saber que ela não
te sente
O que a gente precisa
é não precisar
O que a gente precisa
é ser passa-tempo e
não resposta a
qualquer intento
O que a gente precisa
é não ter grana
prum filme idiota
O que a gente precisa
é ser um idiota
O que a gente precisa
é se apaixonar
pelo impossível
O que a gente precisa
é ser vergonha
O que a gente precisa
é ser convite desdenhado
O que a gente precisa
é voltar ao éter
E eu nem sei mesmo
o que a gente precisa
1436.
Resta pouco ao sábado,
pois que a sexta é
esta euforia
consome-se o sábado
na sexta e
sabe-se lá a
quantas o sábado
andará.
1437.
Eu sou isso
que não cabe por ali
e que falta logo mais.
Só podia dar nisso
eu disperso por aí
fazendo o que a falta faz.
1435.
Falta a loira
porque a louca,
a leve,
a leviana,
a lenda,
a lenta,
a lúcida,
a lépida e
a lene já são.
1432.
Eu só precisava
de três dedos
tocando meu
antebraço sobre
o suor da
noite quente
Aos borbotões
me derretendo
eu lamberia
neles meu próprio
sal e não
contaria história
alguma, até
viver outra.
1433. Elas
A companhia
e a solidão,
ambas me
levam à
compulsão,
talvez,
inexistir, não.
1434.
Sangue, açúcar
sexo e mágica.
Queria ter escrito
isto,
e sem qualquer
diabetes metafísica,
transar depois.
1431.
Eu sou.
E dos acasos
fonéticos com
a língua inglesa,
esse é um dos
mais belos:
eu soul.
1430.
O sapo da lagoa
é o sol da vida dela
e Nossa Senhora o
ilumina
ali, bem ali no meio
cabe, assenta,
vive poesia.
1429.
Ela leu meus textos,
será que ela me testou
ou testemunhou?
1426.
E qual seria mesmo o
coletivo de palavra?
Texto?
Dicionário?
Poesia?
Linguagem?
Comunicação?
Frase?
Dadaísmo?
Cada vez mais néscio
temo que o coletivo
de palavra,
seja silêncio.
1427.
O que eu queria
dizer entre a
primeira pessoa e
a segunda do
singular?
Que não mais haveria
primeira pessoa
do plural?
Ou que se houvesse
seria essa coisa
singular, única,
sem par e sem igual?
1428.
… conforto
fato farto
disso
desconforto
… fardo
sinto
fato
Guilherme Carvalho e Nella Bueno
1424.
poesia ao meio-dia
sua e
soa
como prosa
1425.
Eu descobri o que quero
ser quando crescer.
Quero ser caixeiro-viajante
vendendo sonhos por
onde passar, dando
como brinde desilusões
e aprisionando almas
numa moldura de
retrato velha e
desgastada.
1422.
Talvez eu experimente
esse teu lance de
dor física pra ver
se eu esqueço o mundo
um pouco e me
agarro à beleza.
Pode ser que da dor
surja o que
é de se admirar.
1423.
E eu insisto em partos sem rumo
EU engravido de um absurdo
Eu compro meias e faço tricô
Quando o nada vier, estará bem guardado
Eu insisto no nada
Sinto os movimentos dos braços
Sinto que não tem sexo ou gênero
Enjôo fácil e quero comer tijolo
Se eu não comer, meu nada terá cara de parede
E eu crio o nada
Aqueço meu colo e estremeço em dores
A bolsa estourou e o líquido é verde
Eu sinto que estou parindo com fórceps
Deformo-me o nada em minha própria imagem
Eu sou meu rebento
1421.
tu és,
colha
teu ser
e seja
1418.
Sábias as palavras que falamos
aquele dia: “o livramor só
existe sem burguesia e
também sem poesia”.
1419.
O que intriga Raul,
não é uma cidade
de cabeça pra baixo
mas um céu
todo espelhado.
1420.
Chega mais perto e
sente
A chaga está em aberto
e sangra
E a chance é um deserto,
santo
1417.
Minha dúvida
é se eu viro
a imagem
ou crio outra
miragem
sei lá,
sem dúvida
eu sou só
imagem.
1415.
Amar é isso,
um compromisso
ético com a
falta de compromisso.
1416.
Aqui tá quente,
mas ainda
falta a gente.
1412.
A arte me toca
Um sorriso me toca
Viver me demove
e tantas vezes
até morrer,
também
1413.
Lembra dos nossos
ex-passos no espaço?
Faltava espaço
para o compasso
dos nossos passos
Faltava-nos ar
e flutuávamos
no espaço
1414. Cultura
Eu insisto,
está extinto
o meu instinto.
1411.
Nesses momentos
eu não sinto nenhuma
deus, só a vida
e a morte e
a paz num lampejo
que me abarca
e nesses eu entro
no horizonte
tão fácil que
difícil é voltar
a si e cessar
a comunhão.
1410. Pós-poesia
Uma pós-poesia
se faz com poesia,
mas sempre pela
última vez.
1408. Sacer fare II
Eu vivo perdido
entre o aqui e o
acolá
quando aqui lá me
quer quando lá
aqui me tem
quando não sim
talvez como
quando vou ou
como vêm.
1409.
Como eu findo uma
poesia com uma
poesia?
Uma metáfora de
desmerecimento
para calar a metáfora
cabe para o
fim da arte
e da linguagem?
Isso que dá
querer ser pós
qualquer coisa.
1406.
Descarte
Descartes
Nem cogite
o cogito,
para a primeira
pessoa:
uma paulada
na cabeça
1407. Memorando
sexo sem nexo:
em anexo prazer
1404.
Talvez a falta do cigarro
representasse a falta da
poesia:
a cada momento ganho
com um cigarro, várias
metáforas se aglutinam.
1405.
O amor que a gente construiu
sucumbiu a um mero vento
Hoje é paixão ao relento
eu dormindo sob o céu
Esse engodo que nos consumiu
deglutiu-nos tão lento
É sensação sem sentimento
são intenções jogadas ao léu
O espelho que nos refletiu
pediu-nos um intento
de virar história com o tempo
e se fechou destino cruel
1402.
A gente pega as palavras
e tenta espalhá-las
para descobrir qual
é a idade de uma flor.
1403. Me escuta
Não diga o que eu sinto
você sente e eu minto
você mente e eu finjo
que em você acredito
Não conte uma história
a histérica sou eu e você
fica com a glória
Não se sinta um deus
você me dá um adeus e
eu fico com os teus
teus sonhos fálicos
teus contos de Don Juan
teus fatos mágicos
as tuas lendas de Dartangne
E eu sou a louca
O misto da única,
da puta e da outra
Não feche essa porta
abra os ouvidos e
veja que não estou morta
Não me dê teu amor
ele não tem fulgor e
eu fico só com o horror
dos teus gostos quadrados
tuas culpas sãs
teus olhos parados
a tua intenção da maçã
E me vêem como a louca
Me enxergam como a única
e me sinto a puta ou a outra
1401.
Vou aproveitar esses
três minutos de paz
e me dar algo mais:
sentir o cheiro das
flores de laranjeira,
catar amora no quintal
e esperar pela abertura
do botão de gerânio
rosa.
1400. E odeio Pink Floyd
Vocês vão dizer
que é volúvel
o que sou,
mas ela me
deixa rock’n’roll
1398.
Há os casos,
há quem case,
há quem casualmente
se encarregue
do descaso
e há quem
se carrega
ao acaso.
1399.
Sincera
mente
sem cera
mente
sim, será
mente?
1396.
Hoje nós passaríamos
um de frente ao
outro na rua e
você nem me reconheceria
Eu iria te olhar
e meu corpo estremeceria
E da matéria formada
pelo desencontro
eu te esqueceria,
dentro de mim.
1397.
Não era outra,
era uma
Não havia “a”
havia a
memória do
meu nariz.
Meu fracasso foi
não sentir uma, mas
sentir
algo que havia
só
em meu nariz.
1393.
Qualquer palavra é só
uma conjunção de letras
Toda letra é só
a sombra de um som
Algum som é só
metáfora para um sentimento
é quase uma sensação
qualquer palavra chega
toda palavra não
1394.
Ela disse: “gostei da
sua voz” e imediatamente
eu gostei dela.