1153. Espelhar

no espelho nossas imagens
braços, ombros, afagos
enlaces e encaixes contínuos

no espelho nossas liberdades
que se abrem ao infinito
das possibilidades do prazer

no espelho dos seus versos
meus versos espelham o
amor que se expande por tudo

no espelho do meu quarto
janelas que dão visão ao
desejo do eterno (nosso amor)

1151. FLUIR

Fluía por entre opacos pedaços de cidade
pensando que o ocaso de meu dia
chegaria a qualquer momento.
Fluí por entre becos escuros e vielas turvas
crendo que a aurora de minha noite
viria não num raiar, mas em minha morte.

Fluí até teu encontro, quando aurora e ocaso
deram-me a tez de meu sorrir puro
e crivaram em meu ser ardor esperançante.
Fluímos nós pelos pedaços acres da cidade
pintando de açúcar os muros e as grades
que encarceravam nossa felicidade.

Fluímos, assim, pelo amor.

1147. Invasão

Dou-te um pouco de poesia
crendo o ato ser mais que
ele mesmo, ser algo que vai
além de sua forma.
Crendo que sua existência
possa chegar aos limites
de tua existência e a formar um
algo que seja, bom ou mau,
não importa.
Crendo que meu ser se
perpetue pelos ares de
qualquer lugar, já que
filho e filha não almejo mais ter.
Não espalho meus genes
tolos por entre os vazios da humanidade
perpasso a própria humanidade a
quem desejar.
A mísera humanidade que me coube
ter contato e que me cabe dentro
do meu ser.
Invado-te com esse poema,
sabendo que o encontro com ele
a(o) fará ser diferente, já não mais
a(o) mesma(o) de dois segundos atrás.
Apresento-me aqui assim então,
nesse ato de terrorismo poético
crendo, como um Cristo,
no poder da palavra.
Crendo que cada palavra é
a própria construção do ser,
que cada idéia solta nalgum lugar
de si é o que constrói o ser.

Palavras.

Dou-te palavras para o reflexo,
dou-te este poema espelho,
dou-te este narciso,
dou-me em palavras possíveis
para me caber em si.
Perpetuar poesia em cada
ser que possa.