a fila do box 9 da rodoviária era grande
a maioria mulher, a maioria negra
a maioria com saia abaixo do joelho
a maioria com uma sacola no meio das pernas
sacolas do Tatico, Caprichoso, Espírito Santo
Cada um e uma na fila se excluindo mais um pouco
são todos reais e também estatísticas
ah, chega! perdi a poesia
isso tudo era só mais um dia de visita
Autor: Guilherme Carvalho
0692.
será que a palavra em mim morreu? e só sou agora esse amontoado de materialidades superpostas sem conexão alguma com uma alma? a folha que cai do flamboyant não mais me toca nada? ou será mais uma máscara que ponho não ver minha verdadeira face? e esconder-me ao ponto de desconhecer minha face de simplicidade? será que isso tudo sou eu ou será se sou o próprio mundo? sinto cá nesta quase poesia, mais diário de adolescente doidão que qualquer outra arte, que mais uma máscara cai, ou mais uma (outra) máscara se acomoda. Não faço rima, não faço verso, pontuo mal e parcamente minhas idéias. Ao que tentarei mostrar isto a alguém (o ego sempre tenta fazer-se ser aos olhos de outrem) e certamente em nada como verá qualquer um sobre o além e aquém dessas minhas palavras. esses signos todos jogados sem nexo, sem alma, sem norte… essas informações aplainadas pelo vento, essas elucubrações desditas pelo tempo (e enfim uma rima neste momento). e outras idéias podadas pelas máscara infinita. mais um nada produzido e minha morta alma alimentada.
0691.
Os fragmentos são tão velozes e tão dispersos
Quiçá lógica existisse
Se soubesse que seria desse jeito
Teria dedicado mais horas de
Minha infância a ser como
todos os outros
0689.
eu amei uma mulher
sem cabeça um dia
e foi tão boa
aquela época
que melhor ainda
foi quando acabou
0688.
Há tantas coisas para serem ditas
Tantas coisas inúteis ou boas demais
Que ao toque da realidade se caem
E em cada coisa que digo, vejo
Que das boas, há sempre uma
metáfora por trás: você (um norte).
0687.
e mesmo que cego eu fosse
em meio a qualquer multidão
a reconheceria sem mesmo
abrir os olhos da pele
0685.
e ele tinha feito um mapa
tão grande mas tão grande
mesmo, na busca da representação
perfeita do real que quando ele viu,
tinha feito todo o mundo.
0686.
você é tão pequenininha
mas não cabe em minhas mãos
quem dera eu pudesse ser
do tamanho do mundo
para abrigar tua imensa
delicadeza contra todo o mal
que existe
0690. Desses em brancos, tão papéis
o papel em branco é tão bonito
hoje me encantei por sua alvura uniforme
(tirando a mancha de gordura no canto)
uma folha de papel em branco é
tão linda, mas tão linda,
que não tenho o mínimo pudor
em lha desvirginar
0683.
alternativo sou eu, que sou monogâmico e heterossexual.
0684. Fantasmas
em cada expectativa
o espectro da desilusão
em cada espectro
um receio
em cada receio
um grão de centeio
de cada grão
uma plantação de medo
0681.
vou despencar do mundo
com o peso da gravidade
dos fatos sobre o dorso
e mesmo se a gravidade
fosse zero, o peso ainda seria
levitar: as impossibilidades
hereditárias do pecado original
0682.
há no mundo tantos signos
e em cada significado tantos mais
que desta feita o que mais me apraz
é não ser signo algum,
ser analfasigno simplesmente
0678. Morte ao latifúndio
Do alto de seus 3.800 hectares,
ele sonha em descansar o
suor de sua herança.
0679.
Direito de propriedade?
E o direito à vida?
0680.
se eu só te dissesse a verdade
serena lua, a mentira não existiria
e o mundo só teria uma cor
0676.
e eu que sou tão inconstante
continuo como sempre:
eternamente enamorado, tranqüilo,
calmo e pronto a quebrar
uma cadeira na cabeça de alguém.
0677. “Contra” “a” “prisão” “da” “idéia”
“Se” “eu” “acreditasse” “na” “propriedade” “intelectual” “só” “escreveria” “assim”.
0675.
e antes que tu digas alguma coisa
saibas que maldita é a boca
que pensa que diz e não diz
0673.
hahahaha!!!
o que me faz rir mesmo agora é saber que dei-te a liberdade na languidez das formas de uma mulher
0674.
são dois corpos um contra o outro
um de encontro ao outro
numa equação não geométrica
mas eis que me atento:
o convexo no poder das mãos
e outras formas rompem a
aparência (nova geometria)
0672.
caminhando a esmo
é que eu vejo
o limite de um passo dado:
um caminho trilhado
e a cada novo passo
lá atrás, um passado
0670. Canto a esses existires
Existe um instante em que
as janelas da alma se abrem
descerram-se cortinas, deixam
luz entrar em todos os cantos
e pulsam não mais o segredado.
Existem momentos em que a
beleza surge no desnudar-se
arborícola de um outono
e vê-se a beleza não no ser nu
mas no momento da queda das folhas.
Existe um lapso que é como
um cafuné da vida: parece
nem existir e pessoalmente,
cá entre nós, surge no limbo
de uma caótica turbulência.
Existem esses existires.
Alegremo-nos pois.
0671. Poema em que se só uma palavra pudesse ser a poesia a bastasse para lha ser
Linda.
0669.
um sopro e revolve-se a poeira
dos sentidos, daí para o surgimento
de um tufão basta findar-se
a máscara da razão
0667.
Existe alguém que dê a resposta
a um jogo de ladrões, que arbitre
concisamente e que não se corrompa
com a humanidade circundante?
0668.
e as metáforas? onde estão?
te chamo de caos então
sem juízo axiológico
sem essência epistemológica
apenas o outro lado da ponte
a negação da teoria do cosmos
a desconstrução necessária à liberdade
você: caos
eu: humano (ponte)
0665.
o riso da flora
floresce entre o fétido
o riso na flora
vem das rizomas
e da luz que numa
reação enzimática
ri do universo
o riso da flora
floresce das fezes
da fauna e fornece
gargalhadas lá fora
e as fezes podem
ser restos da flora
e nos mangues
em meio à lama
e ao fétido
brotam risos
através da rizoflora
0666. Topofilia II
a claridade dilui-se na abóbada infinda
resquícios irmãos, réstias até mortas:
os pontos que permeiam agora
a mortalha que repousa sobre Gaia
cá nesse seu hemisfério, são os
únicos indícios naturais da luz.
artefatos e técnicas dão à luz
a empiria do tempo: são os
indícios desnaturalizados da herança
do domínio do fogo
mas cá entre nós, aqui mesmo
no antimeridiano de nossas almas,
o espetáculo da cornubação
à noite é uma beleza!
0663.
Você, antes do solstício já me
era luz a mais.
Um conjunto de cálculos
incalculáveis à paz.
Você, sol se desenvolvendo.
Eu, órbita irregular.
0664.
Neste então, não mais cachos há
Como eu tempos atrás
Neste então, luz outra sobre a noite anterior
Embora não tão escura noite assim
Nova face neste então,
mas por debaixo deste então
há a mesma luz linda de sempre,
a mesma luz que me iluminou
e ilumina, da cor afável do amor.
0661. O jogo dos espelhos na manhã ao ônibus
um mundo reflete-se úmido de
minhas pupilas e se reflete nas lentes
dos meus óculos, que se refletem
nos vidros do ônibus
0662.
“Noites flebeis, outonais…”
A poesia do meio dia é diferente…
é dura, ácida, áspera como se
as palavras erodissem o véu das
metáforas e só existissem palavras
cruas, nuas – pura exiztence
0658. Notas para uma poesia concreta
como transpor todos os sons
em signos e letras?
e esse barulho do motor do ônibus…
como grafá-lo?
0659.
cada signo representa
o silêncio de algo
aquilo que a coisa não
conseguiu ser só sendo
0660. Pós-modernidade
daqui uns dias chegaremos ao asco
de termos 3 pessoas para cada 5 carros
0656.
os carros esquiam por sobre o asfalto
como se desse parco atrito brotasse
a energia que move os universos
pequenos big-bangs sincronizados
para não chocar energia e energia,
para daí não brotar novo universo
criam mais energia desejando
mais nenhum universo (universismo,
para não cair no clichê do ego).
0657. Paralelismo
Não sei porque pus primeiro o
título e só agora estou escrevendo
o que quero dizer com paralelismo
não tenho a mínima idéia
creio que não queira dizer
nada, creio que a poesia está
só lá no título: paralelismo.
0655.
hoje vou ler Drummond
e esquecer de vez o que
já esqueci um dia
0653.
ver melhor seria antes de tudo
apagar sua história pessoal e
se livrar da descrição que
já lhe fizeram de tudo.
a lente da inteligibilidade
sendo corroída, ver melhor
0654.
Naquela noite eu não via a chuva
escorrer pela janela do ônibus
só a via pelo contraste
de lâmpadas acesas.
Naquela noite, a chuva era luz.
0650.
A m o r t a l h a m a t a n d o
0651.
t o l a d o a l a d o d e l a
0652.
o r a l i d a d e d e b e b e g u d a g u d a
0649.
Aqui ca bem pala v r a s
0647. Carne e carnaval
já falei tempos atrás que
a promoção da carne, seria
um carnaval eterno, sem máscaras
– ou só com a imagem simbólica
delas –, mas hoje antes de tudo
miro o embate entre criador
e criatura, carne e carnaval.
0648.
Em que observo a humanidade
no charco, numa perniciosa
luta consigo mesma, não
sinto benevolência alguma
sobre até eu mesmo.
Meu desalento é só constatar
ser esta corda esticada
e que não consigo imiscuir-me
no alarido da superação.
0645. Freudiano
Quando menino, reprimiram minha
geofagia. hoje não ponho as mãos
na terra e ao menor sinal de
doença já estou morrendo.
0646.
sou versado em teorias sobre o
mal da humanidade
mas o que agora eu queria,
era descobrir sobre esta verdade
uma outra sabedoria
que me falasse sobre amizade
que mostrasse não ser só alegoria
o avesso da primeira nobre verdade
0643.
não seria apenas uma coleção
de sentidos, soltos à revelia
desse lugar, seriam os fragmentos
de uma percepção meta-sensorial,
uma concretude sensorial,
já que o lugar não foi abolido,
e a cada aurora, é revivido.
um amor que supera formas:
metamorfose.