0693.

a fila do box 9 da rodoviária era grande
a maioria mulher, a maioria negra
a maioria com saia abaixo do joelho
a maioria com uma sacola no meio das pernas
sacolas do Tatico, Caprichoso, Espírito Santo
Cada um e uma na fila se excluindo mais um pouco
são todos reais e também estatísticas
ah, chega! perdi a poesia
isso tudo era só mais um dia de visita

0692.

será que a palavra em mim morreu? e só sou agora esse amontoado de materialidades superpostas sem conexão alguma com uma alma? a folha que cai do flamboyant não mais me toca nada? ou será mais uma máscara que ponho não ver minha verdadeira face? e esconder-me ao ponto de desconhecer minha face de simplicidade? será que isso tudo sou eu ou será se sou o próprio mundo? sinto cá nesta quase poesia, mais diário de adolescente doidão que qualquer outra arte, que mais uma máscara cai, ou mais uma (outra) máscara se acomoda. Não faço rima, não faço verso, pontuo mal e parcamente minhas idéias. Ao que tentarei mostrar isto a alguém (o ego sempre tenta fazer-se ser aos olhos de outrem) e certamente em nada como verá qualquer um sobre o além e aquém dessas minhas palavras. esses signos todos jogados sem nexo, sem alma, sem norte… essas informações aplainadas pelo vento, essas elucubrações desditas pelo tempo (e enfim uma rima neste momento). e outras idéias podadas pelas máscara infinita. mais um nada produzido e minha morta alma alimentada.

0670. Canto a esses existires

Existe um instante em que
as janelas da alma se abrem
descerram-se cortinas, deixam
luz entrar em todos os cantos
e pulsam não mais o segredado.

Existem momentos em que a
beleza surge no desnudar-se
arborícola de um outono
e vê-se a beleza não no ser nu
mas no momento da queda das folhas.

Existe um lapso que é como
um cafuné da vida: parece
nem existir e pessoalmente,
cá entre nós, surge no limbo
de uma caótica turbulência.

Existem esses existires.
Alegremo-nos pois.

0665.

o riso da flora
floresce entre o fétido
o riso na flora
vem das rizomas
e da luz que numa
reação enzimática
ri do universo
o riso da flora
floresce das fezes
da fauna e fornece
gargalhadas lá fora
e as fezes podem
ser restos da flora
e nos mangues
em meio à lama
e ao fétido
brotam risos
através da rizoflora

0666. Topofilia II

a claridade dilui-se na abóbada infinda
resquícios irmãos, réstias até mortas:
os pontos que permeiam agora
a mortalha que repousa sobre Gaia
cá nesse seu hemisfério, são os
únicos indícios naturais da luz.
artefatos e técnicas dão à luz
a empiria do tempo: são os
indícios desnaturalizados da herança
do domínio do fogo
mas cá entre nós, aqui mesmo
no antimeridiano de nossas almas,
o espetáculo da cornubação
à noite é uma beleza!

0664.

Neste então, não mais cachos há
Como eu tempos atrás
Neste então, luz outra sobre a noite anterior
Embora não tão escura noite assim
Nova face neste então,
mas por debaixo deste então
há a mesma luz linda de sempre,
a mesma luz que me iluminou
e ilumina, da cor afável do amor.

0656.

os carros esquiam por sobre o asfalto
como se desse parco atrito brotasse
a energia que move os universos
pequenos big-bangs sincronizados
para não chocar energia e energia,
para daí não brotar novo universo
criam mais energia desejando
mais nenhum universo (universismo,
para não cair no clichê do ego).