Poesias boas são aquelas
escritas em 3ª pessoa
e que nos passam uma verdade
Poesia em 1ª pessoa
não é poesia, é lamento
ou louvor estilizado
Autor: Guilherme Carvalho
0753. Obviedade XXVI (Respostas postas em poesias)
Que dizer ao se compreender versos?
Quando medida e pesos se fizeram então
Posto que quase sempre anda a alma
Em descompasso com a razão
Posto que quase sempre é a alma
Apenas um momento vão
Que dizer ao se compreender versos?
Dizer melodiosas redundâncias
Para se assegurar essa mesma alma
Em novos versos que ficarão na ânsia
De ser ou ao menos parecer
Possível solução de merecedora importância
Que dizer ao se compreender versos?
Será mesmo que são passíveis de compreensão
Que são até mesmo essas rimas pobres
Também uma outra e possível solução
Que dizem mesmo algo além do simplesmente dito
Essas palavras todas em vão (ou presas num vão)
Por fim, que dizer ao se compreender versos?
Notas, posfácios, teorias ou tratados…
Melhor não, melhor deixar o compreendido
Velado sobre novo poema adornado
De rimas pobres, pieguice e alma
Em prova dum sentimento contemplado
0750. Obviedade XXIII
Hoje eu acordei da ilusão
e vi que mesmo amando certos
o que me resta é a solidão
0751. Obviedade XXIV
Se pudesse já não
escreveria mais
palavras…
são todas tão
prenhes de essência
Mas qual um viciado
não resisto ao
momentâneo prazer
que estas me dão
É uma viagem única,
insignificante lombra,
mas me acomoda os nervos
0748. Obviedade XXI
Nesses dias em que a palavra quer ter vez
Às vezes tenho o lampejo de que a palavra não basta
E rasgo todas as folhas escritas
(como se o ato fosse mais que alguma coisa)
0749. Obviedade XXII
um dia tentei abraçar
o mundo com uma poesia
desde este então
nunca mais fui poeta
0746. Obviedade XIX
O amor tem uma linguagem
estranha à razão,
o ódio tem uma absurda.
Seus limites não
são uma antítese,
muito menos um paradoxo
0747. Obviedade XX
eu sempre fui um
garoto bom, perdido
entre um mundo sujo
já nasci em meio
à merda e à lama
não há de ser uma
dose de pinga que
vai destruir minha
herança
0746. Obviedade XVIII
Os anos são poucos sobre as costas
mas a práxis de levar a vida como
se fosse uma oração, deu a noção
de que nunca mais há de existir
a impressão da solidão
cada um carrega o mundo em si
cada um é o mundo em si.
0742. Obviedade XV
tirei hoje meus óculos
exceto ao sono e ao banho
(e de quando em vez nem neles)
pouco me recordo de os tê-lo
retirado da frente de minhas retinas
ah, qual surpresa descobri
quando os tirei hoje
quão maravilhado me vi!
há tempos não via o que vi,
vi tudo sobre outro diálogo
com os meus miolos
foi assim que vi que não era luzes
mas sim mandalas luminosas
destacando-se de um quadro
vi que não eram mais indivíduos
ou pessoas, eram todos iguais
uma massa amorfa de corpos
móveis à revelia da beleza ou
da feiúra
vi que não eram mais
nuvens, mas sim tons de
cinza rasgando o céu
vi que não eram mais automóveis
e sim caixas sonoras com duas
mandalas na frente e atrás
vi que não havia mais paisagem,
mas cores, luzes e formas numa
continuidade aparente
vi um mundo mais inteligível à
minha alma do que à minha
construção cultual do mundo
hoje meus amigos e amigas,
como fui feliz!
sem formas, sem informações,
sem conceitos
só um contínuo
só o infinito
só
e confesso amigos e amigas que tenho medo agora
de prosseguir o caminho com essa dura
realidade vítrea em minha face
que descortina o mundo em definições
0744. Obviedade XVI
todos falavam tão assiduamente de
sua qualidade que saltava aos
olhos a sua mediocridade
0745. Obviedade XVII
Reconheci-me hoje
como um típico
goiano. Não sei se
era o trato hábil
com o pequi ou
se o deleite com a
a guariroba, ou se
o sentido de interior
que se afigurava
em meu peito
era um tanto lá fundo
que em cada inspiração
mais interior eu
sentia.
Goiás Velho, GO
0740. Obviedade XIII
ontem à noite
rodávamos ou e Ébano
para a lua
eu o construía
com minha música
e com a roda
ele me construía
com sua risada boa
e seu alumbramento
com a lua
0741. Obviedade XIV
Era um rapaz sorridente
Sempre que a via, sorria
(Como sorria para todos)
Ela nada abstraia
(Como fazia com todos)
Um dia o sorriso foi embora
E então léguas de distância
Mostraram que no ato
De sorrir para todos
Era que ele dizia: te amo
(Não que isso importasse alguma coisa)
(Afinal… era só um sorriso)
(Afinal… era só amor mesmo)
0738. Obviedade XI
O silêncio que perturba
é o silêncio falado
aquele que cala verdades
que tora impróprio
o vislumbre claro,
apagando a intenção
daí a necessidade da volta:
“maldita é a boca
que pensa que diz e não diz”
0739. Obviedade XII (Dois pesos e duas medidas)
Ele furava a fila e ria
Quando desrespeitassem
A boa conduta,
As regras e as leis
E lhe dessem um tiro
No meio da boa
Creio que ele
Não iria gostar muito
0735. Obviedade VIII
eu vi um rapaz novo no cemitério
cabelos castanhos
um metro e oitenta
boa aparência
roupa da moda
eu vi esse rapaz meditando
olhando um túmulo
longe de qualquer terceira
geração do romantismo
nesse dia eu inferi que
o ser humano talvez seja
como a própria natureza
que o faz: uma concreta
abstração sem fim
0736. Obviedade IX
Punha as mãozinhas
para fora do carro
e resfriava suas bochechas
e se admirava do
contorno luminoso
do sol atrás das nuvens
nas mãos, na expressão,
na mente e nas bochechas
a maravilha de
descobrir o mundo…
0737. Obviedade X
seu Teófilo é que era feliz
não procurava entender as
coisas, as sentia
fazia jus nenhum ao seu
nome, apenas vivia
e quando perguntavam sobre
sua oração, não respondia
vivia e tentava fazer
desta, aquela
0733. Obviedade VI
E eu que buscava tão
incessantemente aquele tom
de azul de novo,
só descobri que o procurava
quando completamente ao
acaso o encontrei
e foram tantas as coisas
tais juntos ao tom que eu
desejei esquecer que o
procurava. E até já esqueci.
0734. Obviedade VII
No detalhe inscrito do gesto
mora o que não diz a palavra
No olhar acomodado
entre a intenção e o gesto
mora o segredo sentido
No corpo absorto posto
em se pôr ao chão
mora o que ele diz sem saber
No negar com veemência
o que “não” se sentiu
mora o óbvio
0732. Obviedade V
Dentro do espaço do entre as
nuvens o infinito do espaço
surge.
Dá-se um segundo e uma
nuvem dá um passo e o infinito
some.
E do cobrir todos os espaços
fica o molhado aqui e o infinito
lá do outro lado.
0729. Obviedade II
E nós que naquela
noite corríamos pela
relava selvagem
sequer nos conhecíamos
E o que assustava
não era o fato de eu
abraçar latas de lixo,
mas de compreender
a real intenção entre
o toque e o desejo
0730. Obviedade III
Era só olhar
não havia muita coisa
nunca houve muita coisa
É estranho como chamo
fatos de coisas
É estranho como chamo
sentimentos de olhar
E nem pensei metáforas…
0731. Obviedade IV
É sempre assim,
um dia se acorda
e o eu não cabe
mais no em mim
0728. Obviedade I
Desde o primeiro momento em
que falaram “vocês vão casar,
moleque!” eu já sabia que o fato
era menos amor do que invenção.
Era um pressentimento à toa
dum possível platonismo
Hoje é claro: tão mais real quanto
a inexistência desse amor
é a necessidade de negá-lo
0726. Shoppinganas II
é dessas armas de aço
dessa invisibilidade vítrea
dessas luzes azuis a refletir
no mármore frio da mesa
do silêncio de dividir
um sushi com o esposo
do último gole de cerveja
antes do filme
que há de brotar uma
nova poética?
será aí que mora o consolo
impronunciável da Arcádia?
0727. Shoppinganas III
Depois de um certo
tempo morre-se tudo
o amor, o ódio,
até a indiferença
Dessa morte sempre
nascem outras coisas
nascem às vezes
já mortas
São os partos
das possibilidades
sangue, dor, falta de ar:
mais um sentimento parido
0723.
Opções escusas
zoo serial killer
o maior brasileiro de todos os tempos
a descoberta de que a carne tem sentido
os carboidratos interferindo na dieta
esse aspecto londrino
que logo se torna torridamente tropical
aqui na Ceilândia…
Disso tudo, tento ficar com
o tudo e escolho a última opção.
0724.
fugir da primeira pessoa
é por vezes preciso
fugir da única precisão
plausível, é o primeiro passo
de fato não há nada mais
preciso que a primeira
pessoa, por isso a fuga
0725. Shoppinganas I
esse papel em que escrevo
parece o papel higiênico
em que limpei a bunda
algumas vezes
longe da maciez que
percorre a maioria
dos cus neste recinto
em que me encontro
0722. Como a mão é levada
o que conduz a mão
é o anseio de gravar
todo alumbramento
a mão é guiada por
este encanto do novo
olhar sobre o diário
uma perspectiva em
meio ao cotidiano,
uma vista do ponto
e a mão é levada
0719. Notas sobre a poesia perfeita II
se eu dissesse uma vez natureza
seria um poesia
se eu dissesse sete vezes transgênico
seria uma poesia
a poesia não está na aglomeração
a poesia se encontra na intenção
0720. Contemplações sobre o Plano
sobre estes traços leves que
percorro todas as feiras
repousa um algo que difere léguas
de minha morada
não fôssemos todos humanos
diria até que os
habitantes daqui
são só luz e movimento
e não a soma destes
com o barro que forma
eu e meus congêneres
são todos muito mais
macacos e muito menos adão
falta-lhes um quê de metáfora a mais
0721. Modos de existir
Imersos em pensamentos
em meio ao corpo estafado
por entre o suor da finda lida
todos só pensamentos
e neste ínterim se subverte
sensação e idéia
e o pensar ganha matéria
da feita que somos então
o que pensamos
e sem nenhuma pretensão
cartesiana, ninguém pode
alterar isso.
0717.
Quem se cala à poesia
cala-se à descoberta de um
redescobrimento
Em que a cada descrição
a cada metáfora
não se tem o próprio mundo
mas sim, sua recriação
0718.
cuidava das minhas plantas
quando fez o baque seco
não era do maracatu
não era o pancadão do rap
a multidão fez-se logo
o corpo, só corpo, no chão
um fulano ajoelhado ao lado
cuidava da vida naquele
não fui ver o corpo
agora era só um
à revelia de que vermes
fossem agora viver
0715.
Adianto o trabalho dos
arqueólogos e desde já
resgato todo o material que vejo
Junto peças de plástico a panelas
de aço, colo partes de esqueleto
a monitores de computador
crio informações pretéritas
sobre o futuro e desta feita
prospecciono o presente.
0716. A semente da vitória
Limpava as unhas com os dentes
e jogava o cabelo para trás
com as costas das mãos
e era um algo tão assim sem rumo
que o mundo já estava ganho.
0713.
Houve um dia em que
não distinguia uma sibipiruna
de uma canafístula. Hoje
que as distingo, as desconheço
tanto mais.
0714. Genérico
Na carência de luz, escuridão
posto que o princípio ativo
não são os olhos, mas o coração
antes de tudo.
0710.
Você de batinha branca
E fachinha azul na cabeça
Parece uma rainha nagô
Mesmo sendo branquinha
E eu seu negão fico aqui
Do outro lado porque daqui
dá pra te ver melhor…
0711.
Lavei bem os meu cabelos
Até enrolei os rebeldes
Botei a camisa pra dentro
Usei cinto e limpei o tênis
(Só não deu tempo de fazer a barba)
Vim num passo meio apressado
Peguei até lotação
(Quase morri cinco vezes)
Tinha medo da chuva desarrumar meus cabelos
E deixá-los um tanto lisos
Quis ficar bonito hoje
Pra você
Juro que tentei…
Mas aí agora eu já estou amassado
E os cabelos são só um fuá
Já suei a camisa
Sujei o tênis
Fiqui como sempre sou
Aí só resta o regozijar:
Quis ficar bonito hoje
Pra você
Juro que tentei…
0712.
Há tempos a copa dos eucaliptos
cobria o topo dos edifícios
Hoje só topos há
e toda copa, topo um dia há
de ser.
0708. Como o mar sela, eu também
um dia deitei no colo de Marcela e divaguei um pouco
ao longe o mar selava um encontro com a terra
as ondas eram como minhas divagações:
selavam muitas coisas em poucos instantes
(areia, sal, água…)
levantei-me do colo de Marcela e fui com(o) o mar
e ainda assim voltei diversas vezes, sutil
(sorriso, abraço, afago…)
0709. Da menina azul
Era uma menina azul,
embora mulher róseo-alba fosse
Tinha ares de lagoa
Não sei porque cargas d’água,
mas como ela tinha ares de lagoa
Por vezes parecia mais um açude,
mas sempre retornava à lagoa
Um dia dormi ao seu lado
E nesse dia o quarto pareceu um
imenso aquário
e meu sonho foi azul
E por mais que corrêssemos
pela relva selvagem
ela continuava a ser uma menina azul
0706.
certa feita disseram que
seria uma questão toponímica
(questão não, problema…)
careceria de uma raiz de
algo intrínseco e único
não só esse nome à revelia
de um projeto.
só depois descobriu-se que
não era o nome que trazia
a coisa consigo, mas sim
a coisa que se fazia nome
e quando se viu isto
a cidade já estava viva
0707. Verdades, e isto basta
das bolotas vermelhas na sua cabeça saem verdades indizíveis
e outras mais inaudíveis (nem eu as escutei!) que saem de outros lugares
mas o pudor de as dizer ou as escutar é maior que o bom senso de as deixar ser
só digo (e quase escuto) que ficam entremeadas na circunferência produzida
pela linha reta que vai do seu umbigo à sua boca
0704. Depois do mundo
Depois do mundo o mundo não é mais o mesmo
Depois do mesmo o mundo não é mais o mundo
Depois do mundo o mesmo não é mais o mesmo
Depois do mesmo o mesmo não é mais o mundo
Mas, depois o Osmundo te explica o mesmo…
0705. Segredo
Se da fresta da cortina
O mundo surge por instantes
Por instantes surge o mundo
Como se saísse da fresta de uma cortina