1887.

“Noite de hotel
ódio a Graham Bell…”

Com as pálpebras
semi-cerradas
e o aumento dos
tremores essenciais
eu constato um
arrepio que não
é do frio do ar
condicionado, mas
sim, da falta dos
teus cachos

Em algum lugar entre o Piauí e a Bahia, talvez em Pernambuco.

1868. Vagando pelo baixo meretrício

Quando a iconografia
do néon falha,
falha um parco
segundo – quase a
perda de um segundo,
o primeiro de vários
que se seguirão –
a célere lembrança,
mais vida que memória
em si vagando,
de que o véu
diáfano da noite,
continuação de um dia,
corra ao encontro
da carne exposta
na vitrine
Como se de um poste
a outro existisse
um vidro e cada
moça encerra em si
a cultura da
volúpia dúbia do
anacronismo hipócrita
de comprar sexo
Talvez Freud tenha sentido,
que o que pulsa não
é mera vida, mas sim,
o que se quer gozar dela

São Paulo, SP.

1865. Teus pés

Todavia há uma
hipótese
sei que não vai
haver prótese,
quiçá um hipopótamo
houvesse
Toda via há
uma hipótese
Mas sei que há
o desejo da prótese
quase a achar-se
um hipopótamo
ao ver-se

Teus pés me dão
muito mais que
hipóteses
e vias várias
são pés postos
em serem pés
sendo o que há

E eu não sou um podólatra

São Paulo, SP.

1866.

Três poemas construídos,
agora dos seus pares
possuídos, ao longo
de quem os achar
consumidos, o dela,
o dele e esse
Três conjugados de
versos, três apontamentos
discretos, eu mesmo
ainda não os vi
Três silêncios repletos
três saídas do
concreto
três que não sabem
de si
Cada poema se fala
de si para si
Até esse que fala
dos outros dois que eu não vi

São Paulo, SP.

1863.

Existe um pensamento
a definir
Poucas palavras para
um sentir
Não vou dar ouvidos
não
Uma palavra só
não existe
Delinear o meu sentir
Não vou dar
ouvidos não

Uma, ou mesmo duas,
mesmo algumas,
quiçá três
Não vou dizer,
aprisionar o nosso viver:
não palavras para eu e você.

1861.

Pra que estudar?
Pra que estudar?
Eu vou fazer
um supletivo
a distância

Em três meses
1º e 2º grau
Em três meses
Ensino básico e
fundamental

Ainda vou me
preparar para
o vestibular
e passar nas
Faculdades Esotéricas
Luteranas do Maná

Fazer curso de
Gestão da Engenharia
da Computação
Arborícola

E no fim
um emprego de
caixa na C&A
vou arranjar

E qualificado

1855.

Eu tinha cá pra mim
uma promessa
Marquei que não
iria mais amar
Grifei com tinta preta
na agenda
Uma data que hoje
é só um passará
Passaredo soprou
no meu ouvido
que o passado
já não há
Passei tranqüilo
pela gaveta
Em que a agenda
guardada lá está
Junto com algumas
fotos e bilhetes velhos
que só nessa gaveta
não vão ficar
Quebrei essa promessa
e num impulso
Resolvi a tudo libertar
Os beijos de batom
em guardanapos
e os pêsames por
já não mais estar
O origami todo amassado
Bilhetes de passagem
de viajar
Uma mandala
torta e quebrada
e uma flor branca
toda a mofar
Libertei vocês todas
num segundo
Do meu ato falho
de lhes pecar
Eu tinha que
quebrar essa promessa
Pra não ter que
nunca mais engavetar
outro sorriso
franco e sincero
Dessa que agora
vem se apresentar
Para que ela chegue
assim em casa aberta
e possa muito bem
se acomodar

1847.

Um dia a natureza
me disse: “não
me respeite por favor…”
Aí eu falei: “poxa,
mas eu te respeito
tanto… deixa eu
continuar, vai?”
Ela parou um instante,
pensou um pouco
e disse: “vocês
são mais idiotas
do que eu pensava”
Abracei-a fraternamente
e lhe dei um beijo
na testa