3950.

a morte é uma coisa azul. não que eu tenha morrido esses tempos, mas sei. ela é azul e sem temperatura. não é morna, nem quente, nem fria. é um azul profundo, inteiro. dá pra se ver lá em todo o azul. e não é um azul, são todos. é o pleno azul.

3948.

no mundo inteiro as mesmas palavras
na mesma ordem
no mesmo compasso
e quando eu falo sobre seres da lua
já me cospem teoremas e tédios
e minha boca fica perdida
aprisionando alegrias
dado o monotônico do mundo

minhas palavras não
são possíveis nem passadas
nem tem poder
são bardos que se liquefazem
por dentro do sangue

e nenhuma montanha
retornou minha voz
nenhum eco se fez
nem no alto nem na foz

desaguada sem sair
cada palavra lago barragem represa
em mim solavanca
tromba d’água e me afoga
cachoeira negativa
meu dentro

e essas palavras
as mesmas todas
rasgando minha pele
açoitam minha face
e o mundo gosta disso

3947.

eu não silencio as manhãs
eu as calo
cadafalso parece chão
mas é buraco.
eu dia me intrometo
nos seus sonhos
vomito a urgência
de se por de pé
limite para a noite
onde tudo foge ao controle.
eu controlo e invado
de luz todas as retinas.
eu dia quero o fogo
do céu queimando corpos
e dispensando a loucura.

3945.

o peito pensa
é uma massa densa
que se consolida ao redor
vai da garganta
ao umbigo,
podia não se ater,
antever o início do
momento mágico
em que a massa
viraria leveza
nunca travestida de
outro ser
(o que sai de mim
é de mim, vê-se
com outros átomos)
se eu dissesse meias
verdades, falasse
com as pontas dos pés
o que diriam as células
e os cigarros?
o que diriam as mãos?
como o rio que me
atravessa peitos e
plumas meus
ouriçado entre os
entes
e como espasmos
encontro outros alicerces.
meu problema é
diagnosticar angústias
como se fossem solavancos
amaldiçoados dentro de mim.
meu Exu capta dores
e farsas e desavisado
riso franco, maligno
não me avisa:
todo o visto vem de mim,
não dali ou daí.

3942. acalma coração

nada mais há de se esperar a não ser o ar
o céu firme como azul
nas têmporas temperam os olhos
nuvens espraiadas
a cuca infusa n’água aerada

nada mais há que se esperar
como os elefantes negros enluados
as sombras mortas viventes
das pegadas dos elefantes
aquele uivo na esquina dos anos

se for embora sem esperar
nada mais há que se esperar a não ser o ar de se espraiar
até tocar os uivos e os elefantes
que se espraiam dentro
da lua que se espraia dentro de si
diluído como o azul

morada de lobos e sombras
essa espera que no tengo mas

3937.

guardei teu nome para
depois de amanhã
quem sabe um dia
seus passos se silenciem
pelo corredor e eu
possa dormir mais
que três horas numa
noite e seu pulso
não se sinta nem
aqui nem no quarto sem
nenhuma decoração
ou decore um mural
com frases para se
decorar no topo dos
sentidos: “a lua sussurra
o eco do silêncio”
“qual o barulho da terra
girando?” “de que lado
de dentro vive o sol?”
“quantos vazios se
orientam pelo
coração do universo?”
“a morte existe no
azimute de marte”
“vênus desfibrilou a
garganta de júpiter”
“viveremos lençóis”
“violentar o nada é
auto-expiação”
guardei teu medo
para depois de amanhã
e o vivi hoje
aroma de dama da
noite na segunda
aurora
não esperei,

3936.

cármica rodoviária
fluidez asfáltica
parasitária
carne exposta vísceras
e veias abertas
fratura óssea
a rodoviária
num dia morto
a vida urra
na rodoviária
uma dor a cada tapa
semântica do medo
dois dedos de jurubeba
perdida
alguém está perdido
pedidos
faca amolada
o ônibus vaza
a fila some
a lokura aflige
e não tomba
tromba os parceria

os loki

3935.

as filas se formam
não sei onde olho
onde moro
moro nas filas
que se formam
nas faces que formam
as filas
que me formam
moro
onde olho
não sei
onde moro
nas filas que folham
nas folhas que
não sei onde
moro
nas formas que
não sei
moro
as firmas que
não foram
as folhas que
não olho
molho
onde moro
não sei

3932.

o egoísmo dela
o que eu queria ser
sua indiferença
minha flecha

tudo o que lhe depositei
da paixão que havia em mim:

                   espelho estilhaçado
                   só vi o fino pó
                   voltando a ser areia
                   fragmento carreado
                   em meio a água e sal

amei-a
meia
a projeção dos meus medos

3930.

supunha que seria comovente
mas como todo ser semovente
pouco contemplável muito complacente
viveu até o fim aprisionando as lágrimas
por dentro era barragem não rio corrente
por debaixo um tanto pântano
por de fora passando rente
brejo de lama perene

talvez fosse a nascente

3929. admirador de fissuras

essa é a história do admirador de fissuras. buracos. rasgos. vãos. daqueles seres que futucam ferida. arrancam casquinhas. passam a unha. até fissura abrir. um sujeito desses nasceu em qualquer dia e viveu qualquer vida. mas o que lhe conferiu a diferença é apenas e tão somente o ato mágico de observar as fissuras. admirá-las. as frestas também lhe encantam. qualquer veio por onde se aviste uma parte. um pedaço. um enlace. não o todo. a forma. silhueta. quando imerso na totalidade de dentro da fissura tudo o incomoda. causa pasmo. aflição. o quase é mais poético. mais humano. mais saboroso. mas o admirador de fissuras morreu um dia. apenas e tão somente. nada mais. até o fim. observando fissuras.

3928.

esse há de ser um poema bonito
uma implosão concreto esfacelado
poeira fumaça blocos
estado de alerta
estado de alerta

isolamento da área
perigo de alta combustão
chamas labaredas e a vontade

soterrada

porque tudo é triste no meio do eito dos dias de chuva
tudo é belo

a calma é só um ponto médio

entre o tudo desabar e o desabado

lindo

3926.

ela olhava com atenção sua angústia
uma angústia lapuda
uma lapa de angústia
uma lapada
gostaria de lhe aplicar eletrochoques
até a agulha do discernimento
se enfiar na medula óssea do não querer

um budismo carnívoro assomava o corpo dele
ela olhava
alicates nas unhas pensava nas bolas
adestrar e admoestar-lhe as estruturas
nirvana em fúria

sua mente babava

3925. a cultura me fodeu

escolho a falta. o mundo transita em ser mais um merda. é o trânsito do fim de novembro. a lua entrando lá. transa. imaginária transa. afogar-se num mar de bucetas. num mar de cus. num mar de paus. a falta. eterna falta. escolhe-se o medo. afogar-se apenas. talvez sejam os traslados. trans. atravessar a fronteira do avesso para chegar de novo a si. a culpa já se instala. quantos sonhos? a custa de que? o amor quando chega desalinha o karma. os chakras. os xakras. sem chá. rodopio de estações. ela já faz falta. poucas horas. a pira há de ser longa. postais sem selo. cartas anônimas para mim mesmo. mais um merda no mundo transitando. é o inferno astral avesso. o paraíso terrenal instalado. um mar de gozos ilusórios. um olho que não para. o choque do futuro visto nas imagens da segunda infância. a cultura me fodeu.

3924.

nada se ouve
a pia a escova a moto
nada se houve
minha respiração a pira a escora o morto
nada se ouve
o mar a milhas ainda agora seu sorriso
nada se houve
como esse fato de agora não se estar bem
nada se ouve
se eu choro é o paralelo dos mundos
nada se houve
você agora aqui onde há

3923.

de manhã olhava o dia
como se fosse possível ostentar
a vida a ser erguida junto ao coração
envolto em sangue mas com o aroma vivo da exasperação

de noite olhava o umbigo
como se a esofagite fosse sair pelo buraco da barriga
e desaguar caudalosamente ventre afora
desmerecendo o odor de morte que apodrecia as entranhas em consternação

3922.

sombras
a mente escura
cem mil decibéis de negrume
sobras
a alma negra
mil graus centígrados de trevas
cercas
o espírito claro
o gosto da luz pelas papilas

arame farpado
ferro grilhões
farpas na língua e nos tímpanos e nos poros

arde ensurdece sangra
toda luz gera trevas
e se movem dentro delas
olhos em tato pelos vãos da claridade

o segredo da sua seiva e saliva
o que você não supôs e suprimiu
sombras
sobras

teu rastro mais secreto

3921.

quando o fio do carregador merecia ser atentamente observado. e um interesse desavisado pousava sobre os seres que sangram. do alto. décimo andar. a queda é alta. enrola-se em fios até a descida. nuvens baixas carregadas. dentro do peito. chovia fino. dentro do peito. as alterações emocionais carregadas pelos fios. elementais de água que sangram. um salto alto. baque seco na cama. imprevisões. o peito é formado por imprevisões. parco interesse. desinteresse. fios de carregadores. décimo andar em taguatinga. nada além de ceilândia e samambaia. fios e mais fios distribuindo a diluição. chove torrentes dentro dos fios. dentro do peito. décimo andar. a loucura caminha par e passo. avançado.

3919.

as horas seriam dadas ao calor
como se desencostar de tudo
fosse mais que necessidade
fosse apelo para denudar-se

mas contrariando as expectativas
havia uma harpa e um xilofone
sem frio ou formas mas volume tangente

o verde começava diáfano
eu queria olhar mas o calor desprendia
descolei na pressão leve
quente subi
a comoção de qualquer frio
me levaria inevitavelmente
a derreter

mas o som que vibravava
solidificava tudo
feito estátua feito fonte
mármore bem polido

pelado

3915.

era uma dor que começava na junção
do indicador com a mão
acho que isso se chama articulação,
a parte, não a dor
ou talvez a dor também fosse
articulada

ali começava e se irradiava
de dentro da parte esquerda
da senda canhota

quando a dor pulsava era melodia
intento e instinto
de vazar ferrugem
dor de deus

antes de decepar,
o dedo, não a dor,
acariciei-a por alguns segundos
e ela passou
férrea

cortei dedo fora
o sangue ferruginoso escorreu

                  a dor era agora etérea e no todo

                              e do dedo nasceu mais um deus

3914.

foi lá na lombrada
dos malucos
das doidas
já que não era quebrada
ao passo que tudo derretia
da sorte que dali
salvador não se via
caia caos kaya
cascalha de amaciar dureza

bem lá onde perdi um dedo
e encontrei uma mão

tudo saudoso como se não houvesse hoje

só há

3913. boiadeiro

ainda me lembro das manhãs molhadas
prontas ao resfolego do sol em manto orvalhado
se dar ao carpir ao cergir ao bater ao cavar

o barulho do sol na pele morena vermelha índia da terra
com seus regos verdes de sangue d’água
e seus pelos verdes de copas e pastos
tudo refugo da chuva brava que se abria dentro da noite lenta

e um frio invernal brumoso de tanta umidade
lesma caracol visgo de espuma
de bicho no toco do pau queimado
agora que nem fogo pegava

ainda me lembro que era depois da seca
a manhã de café feito para martelar os pregos
da vida nos mourões das cercas a serem enfincados

gosto de nuvem cinza planando baixando por cima
do chapadão com a quentura da infusão negra
a percolar gargantas como a água a entranhar
terras e ventres e vãos e peitos
vazios de angústias e cheios do próprio conteúdo da vida

ainda me lembro desses dias que se iniciavam assim
feito espera e esperança no batidão do sol subindo
e da água espatifando que nem ela própria só consegue

o buraco no chão se enchia d’água
um boi pastava ao lado
e eu bolava um porronco numa folha de embrulho
amolava os dentes no papel queimado
para sorrir melhor ao que viria

naquele dia que ainda lembro

3910.

não se assusta
o próximo passo é a novela
não se assusta
o próximo passo é a conduta
a sua
vai sem medo
só medo
gosta desgosta
sem desgosto
há um lindo esgoto
por onde nossos barcos hão de navegar

não se assusta
nada te remove
do lamaçal
você anda
não se assusta
não repudia faz uma nota um artigo
textão alguns caracteres
um dístico meme
reclama da intolerância
declama um poema                   esse
tolera
um tolete na sua goela

não se assusta
é a democracia
que demoniza
não se assusta
amanhã seu pescoço na forca
a forma emoldurada
cem mil poemas métricos
esperançosas três linhas
sobre ela na sua garganta

não se assusta
é só um sussurro
nada grita berra
não se assusta
não se assusta
isso é um eco
fantasia póstuma
textão
amanhã assassinaram sua liberdade
hoje
tudo enclausurado

3909. eixo mono-mental

mexerica na redinha
jeep renegade
saco preto dez real
hyundai ix36 (?)
jk em seu mausoléu
num giro sinfônico
de metas e metas

maluco explodindo
os cofre pega nada
o cano na boca
renegado
o cano do escape
renegade
catalizadores de consciência ambiental
quatro por quatro
três ponto oito
quarenta e quatro
coronha na cabeça
milicos descamuflados
bunda exposta na janela
e uma preguiça intertropical

o sol esquenta a mente
em labaredas de sinais

                   infernais

3908.

há uma lição
ainda a ser compreendida
nas imagens borradas
instaladas atrás das transversais

três gerações atrás
pra mais
no lusco-fusco das
memórias não apreendidas
                   tá no corpo
                   honra & desonra
                   catarse de movimento
                   incompreensivelmente
                   voluntários à vontade
                   dos músculos dos ossos
                   dos nervos

há essa lição que são várias
despercebidas porque
desensinadas
                   ninguém aprendeu
                   não houve silêncio
                   dentro do fogo
                   dentro da’scuridão
                   vozes ritmadamente
                   guiando os movimentos
                   dos corpos a compreenderem
                   os enredos dos seus
                   motivos de fluírem
                   dentro do espaço
                   tal e qual são

essa lição é dessa terra
subsolo e sub-versa
reverso da voz temerária
atemporal da pátria
                   é teu corpo quem fala
                   células de tatarás

a desobediência se viu
desde as auroras transatlânticas
até os ocasos pacíficos
                   corporificada
a cordialidade foi forjada
obediência servil
letra por letra nas páginas
oficiais
                   enfiada

3906. folha da física

folha da física
esculpe teu percurso entre
o galho e o chão
imagens absurdas
escondidas no fim do céu
no começo das abóbodas
               o fractal               os raios que te alimentam
esculpe os contornos do vento
               no espaço               grave de ondas
esculpe o pó que desgoverna
               o arfar seco
entre as ranhuras dos
                              lábios sangrentos
nos lábios sangrentos                o teor
                                             quase a tocar
a futura folha da
física

3905.

nos enredos redes ramos ramas rumos
d’água d’ar d’areia d’alma
dançamos enredadas
enlaçados
espalhadas por entre
               ao nos entrarmos

baby
sem rédeas arreios esporas
e na rede nos raiamos
barcos beira rio
nossos remos               respiração

3904. frankenstein astral

como recompor as partes
até se ajustarem?

fast bem estar colaborativo
start up down
aberto o capital
rumo ao dharma

a receita é fácil
água morna com limão
e linhaça
três vezes por dia
uma fatia de mamão
para meditar antes do sono

desapega do dinheiro
passa no crédito
debita a transcendência

ioga aos sábados
maconha de boa qualidade
aos domingos nos parques

é só desoprimir os músculos
terapia transpersonal
personal líder coach
e massagem plúmica

argila salgada vietnamita

doe desdoa

diz doo ainda que dor

dietas macro-solares

geofagia

relacionamentos orgânicos
com múltiplas afeições
instantâneas

monogamia iridescente

uma vida sem riscos

arriscar e viajar pelo mundo
jogar tudo fora
ao som do new age

capitaliza o momento
terreiro high tech
jezuis loiro saradão vegano

um teco de pó de palma
pirlimpimpim

tudo colado
super bonder espiritual

                     frankastral