2243.

Já pensei ser
feliz certa feita
como se felicidade
fosse substantivo
a se vestir conforme
a exigência social
da circunstância
Mas não,
das poucas vestes
que para todas as
ocasiões há de
sempre haver motivo
a única é a tristeza

Sou triste
e isso sempre há
de caber
como um traje
colocado na porta
do guarda-roupas
para todo o amanhecer
e em vários momentos
mesmo ser como
um pijama

Ji-Paraná, RO.

2242. O artifício de carregar pedras

Uma a uma em cima das costas
carrego-as como filhos:
amor, carinho, alimentação
pouso-as rente aos ombros
com consternação
Cada uma é a marca
do alicerce de uma coisa qualquer
que merece ser ali posta
Cada pedra tem o seu motivo
tem a sua necessidade
Existem algumas cuja
função é somente a de
adornar o dorso
dessas que a dor tem cor
e forma e que se expõe numa
mesa de bar
Algumas não têm porquês
apenas ficaram como provas de vida
mas todas eu carrego
posto que apenas essas pedras
são o que podem
me dar a impressão de ainda ser

Ji-Paraná, RO.

2235. Anjo avesso

Não precisa ir ao fundo
na superfície mesmo
se percebe que ele não tinha
culpa de ser assim tão reticente

Nascera assim mesmo
feito tão de improviso
e com tão pouco amor
que até nos genes
incrustou-se um devir
e não um ser

Ficou preso nesse quase
que o marca
como o que…

Ele é isso que não falta
e nem sobra
sem culpa e sem sombra de dúvida

Ji-Paraná, RO.

2232.

Preguiça de conhecer gente
de contar todas essas histórias
com máculas de vitórias
Perceber que esse punhado
de cacos mal conectados,
lembranças desse tudo
já não guardado,
são no fundo tão interessantes
quanto os domingos a tarde

Preguiça de conhecer gente
de se fazer presente
presumivelmente
não indigente
Como se para além disso tudo
não fosse só isso
impermanente

Ji-Paraná, RO.

2216. Poemedredon

preciso costurar um poema
pois versos soltos em retalhos
de neurose foram postos
sobre a mesa
tem um dia azul cinza
tornado transtornado a
cair feito viscose
tem a cor da dor de tudo
em dó em tiras de cetim
o motor rouco da saudade
censurada num corte de brim
meu dolo no consolo pouco
de si estampado em seda chinesa
a lonjura que apura
o campari em algodão cru
tactel carcomido como um
corpo dolorido e não dormido
há o espaço da vontade que
invade sem poder ser cortado
numa peça de linho

pego tudo junto um pouco
crio um padrão mínimo
costuro um tanto e pronto
está feito um abrigo contra o frio

2211.

de tudo provar
um grão de açúcar
depois da overdose
de suco de limão
na ponta da língua
entremeando dentes
e se perdendo na
saliva acre

lá no estômago,
talvez, o doce
encontre a velha
azia e diga coisa
do gênero de
carinho e traição
bem escondida
um afago gelado
no oceano gástrico
em polvorosa

o doce em
micro-partícula
falando a língua
de um talvez
ainda bravio

em toda gastrite
resta ainda
um rasgo vívido
de esperança

2205. Mistério das aeromoças

um porte
uma postura
quase um poste
mesmo a em
miniatura
um olho que
nunca flutua
uma meia-calça
perna nua
sorriso velado
“alguma bebida?”
um comando
suave
te obrigando
pelo sexy
não por um poder
institucional
caminha como
que inconsciente
da existência
uma firmeza
quase a se
derreter
um quê de…
além do…
uma pressa
contida, retida
e suave
um quase
um rebolado torto
pelo estreito corredor
cansaço
absorto

imagino-as de chicote
calcinha de couro
e sutiã de colegial
uma ausência
que existe
uma presença
que falta
uma aeromoça

2202. Não há nada encoberto

Eu gosto de desvendar belezas
descobrir não
posto que a lindeza não se revela
o bonito é algo de mistério
é algo que se desvenda
a resposta ao enigma
Beleza é uma charada
É um ponto que se percebe
é aquele lugar que se atina
é mais que forma
e para além de conteúdo

Um tique visualizado
Um estalar dos saltos
Uma franja meio torta
Qualquer coisa que vai
de encontro ao padrão
até mesmo um palavrão
pode mesmo uma idéia
mas sempre é aquela
velha pergunta:
será que foi o mordomo?

2201.

Você pensa que eu não ligo
mas esquece que eu sou distraído
Quando acontece sou o último a saber
que eu fui traído

Não é desamor não
é só vacilação
Todo dia o leite
derrama no fogão
e eu nem bebo leite não

Arrumo a pia todo dia
e esqueço de limpar o chão
É só distração
distração
desatenção

Me passou até mesmo
meu aniversário
mas que otário
sempre caio no conto
do vigário
do vigarista e
do salafrário
Todo mês tomo tombo
no meu pouco salário

Mas liga não
é só distração
distração
desatenção

2200. Sem foda

Quando chego bem
na hora ta passando
a das seis
Quando penso em
me mexer já se
passaram três
No final do Nacional
eu penso em atacar
Eu me movo, chego
perto, tento na
nuca encostar
Mas aí vem a das oito
e já se passa das nove
Tento um pouco
lanço um beijo
mas ninguém se move
Um programa variado
um riso frouxo abafado
uma atração derradeira
E o único ataque agora
é o da geladeira

2196. Trajetória de músicas

Como um samba japonês tupiniquim
um quadro possível
o azul e o verde
irradiando e imiscuindo tudo
afaga afaga afaga afaga afaga
afoga afoga
fogo fogo
fumanchê
ojo
e tudo em volta verde e azul
é uma consciência que vagueia
é um corpo que cadencia até a exaustão
é o que se relaxar
azul e verde
mergulhando tudo
I remember Fela
tudo é pra se perder sim
tempo tudo
e verde e azul ainda
se entra no reino banto
uma ilha que reúne o mundo
mania essa mesma
mas sigo tranqüilo
sem grilo
sem glória
simplório
simples
sem
tudo
só o verde e azul,
mas,
“não, não sou eu quem vai ficar no porto chorando, não”

2194.

O céu sustenta a Terra,
a carrega,
ela gira em si revolta
contra a amplidão,
servindo escrava da
manutenção gravitacional
do Sol

A Terra planeja
em segredo com Marte
e sua fiel escudeira Lua,
dominar algures de tudo
que a mantém inteira

O primeiro passo foi
domesticar as existências
em sons e formas,
o próximo passo é
uma bomba mais
forte que a de hidrogênio

Tangará da Serra, MT.