2048. Balada dorida

dor doída
quase a dilacerar tudo
fazendo da alma
uma imensa ferida

ela quer fugir de você
como se fosse um monstro
um crápula
uma coisa sem ser

você a ama e pira
e ela quer que a decisão
saia da sua boca
ou do que você transpira

sofrer por antecipação
antes de tudo findo
antevendo a desgraça
e pior ainda, à prestação

você se sente um lixo
um louco, lerdo, lento
sem nada que valha
só um sentimento prolixo

ela quer a liberdade
essa que você pensou
sempre existir entre ambos
mas talvez seja só vaidade

e no fim você é o monstro
nada ameaçador
pouco, quase nada mesmo,
o idiota de um ogro

e você vira só um bosta
pensando que tudo
o vivido às duras penas
serve só como peso às costas

no final nem reticências
apenas um gosto
sem qualquer gosto
e uma eterna impaciência

2045.

perturba né?
conturba o cérebro
a imagem turva
da horda em turba
perturbando
a ordem e ordenando
com a desorganização
fortificando
o corte entre
o morro e o asfalto
ardendo o asfalto
corroendo o resto
da ordem mundial

perturba né?
confunde a mente
a informação infunda
da fazenda em fúria
fundando
um campo e afundando
com os latifúndios
encontrando
o mundo num
lampejo entre alma
e massa com calma
metendo a foice fundo
na festa mundial

perturba né?

2033. Só

como uma palavra de duas letras
que carrega em si o desígnio
de uma condição

como se o mundo falasse a língua
da verdade
e nada mais restasse para se dizer
a não ser o que falta na certeza

como nada no mundo passa além

tanto quanto uma ilusão de companhia

tão sutil que se vê de longe

uma breve mudança de rumo numa brisa
aquela centelha que durou uma fração de segundo
ser apenas como a insignificância
não estar estando
ser mesmo não sendo

como o alvoroço do trânsito às 13:30
como o chacoalhar da britadeira incessante
como uma sombra ao meio dia

é estar no mundo e só se ter