3717. Horóscopo Floral

Queria construir outras constelações
e a cada traço imaginário
unindo os pontos, as candeias,
reverter os destinos

rastrear o plasma arremessado
por estrelas passadas
ardendo eltro-magneticamente
a fagulha dos contornos

Não destruir os signos,
mas distrair os sentidos tidos
e recompor o firmamento

Faria em cada nova constelação
uma flor, ou seus cachos:

Quem nascesse sob o signo das Gerberas
seria solar, raiante
A quem pousasse a constelação de Gerânio
múltipla e ímpar se faria delicadamente
Quando no horizonte despontasse
em acensão as estrelas que compõem as Begônias
o eu de quem assim surgisse
irradiaria a suculência da vida
Sob os auspícios da Rosa
teria personalidade de quem
fere retinas dado o belo
O signo da Açucena
oposto complementar ao de Jasmim
traria a elegância opulenta
contrapondo-se à fineza discreta
E se Marte repousasse aplicativo
à constelação da Flor de Manacá
sua ação seria doce e leve
Pelo signo de Violeta, o mistério, o segredo
e a necessidade do velado
No trígono entre Vênus e Dama-da-noite
a suavidade e o perfume exalariam
da sorte desse encontro
Entre a Lua e Lírio
um ser de sentimento aberto e calmo
dado à emoção
Se no Meio do Céu se formasse
a constelação de Tulipa na hora do nascimento
trabalharia com o coração, abençoando todos
os frutos de seu labor
E quando na 12ª Casa, repousassem as candeias
no feitio da Orquídea, o mundo espiritual
seria contagiado pela plenitude
ciente da brevidade

dessa nossa matéria
feita de pó de estrelas

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3717. Horóscopo Floral

3193. a partir de cartas (a parte de ir das cartas) ou do apartheid às partes aprisionadas

a consciência crítica de todos nós
senta-se em uma prisão
bombardeada por conclusões milenares
perdida entre cartazes e comentários
travada entre os nós dos rizomas
derretendo e engrossando o caldo
de um capitalismo líquido
que percola cada meandro ainda virgem
que se infiltra nos terrenos mais compactos

essa consciência crítica nossa
tenta encontrar a dádiva de alguma economia
perdida em ilhas do pacífico
trocada por ouro e prata através dos séculos
de suores e sangues africanos, asiáticos, americanos

a consciência de todos nós, a crítica
vira acrítica, cega e cítrica
e transforma em heróis qualquer um com a capa do batman
e uma pena mágica que interpreta todas as leis

a nossa crítica consciência
atormentada e esquizofrênica
sabe onde reside o verdadeiro heroísmo
aquele da autocostura microscópica do tecido social
e da revanche à alta costura estampada no jornal

a tal consciência nossa e crítica
valoriza os limites estritos e o desafio
e incomensuravelmente vive essa causa
comum pela qual vale a pena lutar
a duras penas
apesar de injustas penas
após o ar do voo devido as penas
ainda apostar no pouco que dê apenas

3193. a partir de cartas (a parte de ir das cartas) ou do apartheid às partes aprisionadas

3058. Na hora oeste, jaz a luz

eu sentia
e não fazia sentido

bem na frente daquele
chumbo aquoso rasgado
em clarão partido
pendiam cachos roxos
dum ipê florido
nesse sítio improvável
para um junho já ido
um noroeste todo
a ser erguido

bairro bruto ornado
no barro ecológico
por fim construído
o sustentáculo
do chumbo que partirá
ares dos poucos
pulmões ali comprimidos
pelos tantos futuros
pés transeuntes automotivos

uma cilada à hora exata
em que pousa o ocaso
enternecido
resulta ali no meio
dos cachos, da chuva,
do roxo – tudo tão vívido
uma parte tanta
do meu ainda coração
já todo partido

3058. Na hora oeste, jaz a luz

3042. A casa dos mortos

preto
pobre
louco
ladrão

quem há de dizer quem existe?
só o segredo da salvação
apocalipse 16 ronda a boca
há interesse, há alma
o mundo esqueceu e a página é morta
cada vida louca assaz louca restando grade
grande emaranhado para a salvação
do tamanho do corpo moído

três anos de reclusão inconclusos
para todo o sempre
amém.

preto
pobre
louco
ladrão

mortos desde a sua fatídica construção.

pedra
pela cabeça
pela forca

preto
pobre
louco
ladrão

guardados a sete taças, trombetas e esquecimento.

3042. A casa dos mortos

2942. #EuSouGay

e o amor ocorre ao largo
do ódio que não se contrapõe
quiçá a antípoda houvesse
pois que indiferença mata menos
– e oxalá – há de vir! – nada matasse
anatomicamente igual
(e nem lembrem de tamanho, forma, cor…)
humanamente – sempre – diferente

igual assim quando ele diz:
“meu homem é lindo”,
tal qual se dá quando ela sussurra:
“quando com ela, não vejo o tempo passar”,
o amor ocorre não entre iguais
ao que nem gêmeos podem ser:
isso de iguais

isso de iguais não cola
(imã mostra, velcro prova,
mas a gente não é metáfora)
gentes são mesmo diferentes
e nunca – provem o contrário! –,
nunca mesmo, iguais

cada tudo é um único
e o amor se dá aí
entre diferentes
isso que se torna igual

me pergunto mesmo o que define:
é um membro, um órgão, uma condição, uma condução,
um cromossomo ou um status?
e o amor aí se dá, se doa e se faz
sem a definição precisa
ou mesmo a imprecisão cirúrgica das prisões simbólicas dos discursos

e nem mesmo só o amor,
se dá igual é o tesão
a passionalidade, a explosão
o toque ocorre entre essas diferentes
entre as únicas, exclusivas em si

entre, dentro e fora
no meio, no centro, na borda
amor igual nunca igual
amor apenas
sem pena, com penas, plumas e paetês
com barbas, pelos, bigodes
com peitos, bundas, coxas, com o que pode
paixão serena
e quando dê, tensa

porque único, diferente e cada qual
amor é – sempre – assim:
igual que nem,
igualzim…

#EuSouGay

2942. #EuSouGay

2937. Tenta³ (Um poema teórico sobre a práxis)

1. Introdesenconclusão

“Levante e dance como o Michael Jackson”¹
sabendo que
“viver é uma atividade irremediavelmente diletante e autodidata”²

2. Referências Bibliográficas

¹ SKOL. Jogo Redondo. Cervejaria do Baiano: Mesa de Plástico Amarela, bolota s/nº.
² CABRERA, Julio. Diário de um filósofo no Brasil. Ijuí: Unijuí, 2010, p. 62-63.
³ DE LAS TCHOLAS, D. Vitim. Discurso sobre a vida. Taguatinga: Edição do Autor, 2010, Antarctica nº 7.

2937. Tenta³ (Um poema teórico sobre a práxis)

2824. Uma scania chamada todo anseio

Eu me faço edredom e esquento seu sono
E antes de toda cerveja no bar com os amigos
antes de saber tudo sempre igual,
esses beijos de hortelã,
passearei vagaroso com minha boca por suas costas
recompondo com a língua a pintura gravada no começo de sua nuca
na urgência de uma manhã de domingo eterna
Eu, com adereços, colares, brincos, aderência, calores, brônquios
lhe direi sem pudores que de ponta a cabeça e em pé é preciso
Eu me farei seta para o seu alvo
e pedirei tudo aquilo que sua feminina umidade quiser
Eu vigiarei seu sono e ansiarei a paga
de um doce de leite na ponta dos meus dedos do pé
Cúmplice de todo café e ressaca
Eu ficarei à espreita, esperando junto ao vapor de um banho quente
sua aguerrida figura incensando o ar com humores amazônicos
Eu não frearei sua busca,
mas estarei atento às táticas mais precisas para um xeque-mate
nesse caos não-clitoriano instaurado nas veias das lidas dos dias
Eu não serei seu sonho, mas invadirei todo sono
como nem mesmo Freud possa sublimar
Eu cortarei as cebolas e descascarei as batatas
e quando triste lhe entregarei quitutes em estrofes de açúcar e afeto
num pão de ló docemente coberto de calma e fé
Eu, de cima das nuvens, lhe entregarei um horizonte desabado
Eu, seu igual, farei procissões rumo ao possível, apontando o céu
no centro da Terra certo de que mesmo nas novelas
– quando descobrirmos a epistemologia delas e dos romances –
figura um mundo não imaginário
Eu lhe beijarei sempre, apalpando o todo de suas ancas
confidenciadas em rubras saias
enquanto caminhamos pela orla dos velhos tempos em Jacumã
Eu serei do tamanho exato para seu quarto de janelas miúdas
Eu, mesmo perdido no espaço e no tempo, sempre voltarei
Eu meio humano meio cavalo, seta em riste
carregando esse meu canídeo gene y
frequentarei mesmo saraus e batuques despropositados
em que sua presença for colorir
Eu serei ardor desaguado sobre você
Confusa equação que dará conta dos desejos e dos novelos
esses cômicos tropeços feitos em quadrinhos e desenhos
Eu serei a matéria para esse sentimento não traduzível e marcado
pela miscigenação do luso degredo, do negro sangue e da índia ausência
movendo-me pelo cume da noite em meio às suas linhas
Eu, lhe darei crisântemos, jasmins, lírios, orquídeas, margaridas, begônias, caliandras, marias-sem-vergonha, violetas e gerânios
porque você merece toda flor
Eu: sua scania desgovernada
seus olhos de ternura, seu banquete canibal…
Seu perigo, seu “me fudi”
seu extra-terrestre

2824. Uma scania chamada todo anseio

2761. “Porque te amo, NÃO nascerás”

Ninguém nos deu a possibilidade de escolher
não querer viver numa cidade.
Ninguém nos deixou optar por não
ter energia elétrica.
Ninguém nos permitiu não compactuar
com o julgo da propriedade.
Ninguém deixou noites escuras
sem postes denunciadores
de vergonhas corruptoras de estrelas.
Ninguém permitiu que olhássemos
para os céus, esse momento-movimento
do universo, para que surgisse
um momento de criar deuses e
descobrir a fé numa candeia vermelha
ou numa metamórfica luz branca passante
pelo firmamento.
Nos deram um mundo já em palco e plateia.

De ^s encanto.

2761. “Porque te amo, NÃO nascerás”