1703. Seol

“Quanto mais se envelhece
mais os mortos se aproximam…”

Devo sair dessa toca
E procurar túmulo por túmulo
A minha morada
Meu corpo tenso pelas frestas de luz
Saindo do telhado e manchando
O chão de luzes empoeiradas
No Livro de Jô eu tive
O que saber

Talvez eu deva me guardar no
Mais ermo da Terra
No mais obtuso

Há de ser o que deve
Hades chamando para fugir do corpo
Uma condição em que moro
Num lugar em que matéria
É pouco para o desespero

Guardar minha memória
As mais intensas profusões
Ter consciência e não conhecimento
Do que ocorre no mundo dos vivos

Mas, ainda, uma dose me cabe antes…

1702. Tremores essenciais

e eu não sou nada erudito
pouco sei do que é o ocaso do ser humano
pouco sei o que se passa entre Eros e Tânatos
abaixo da curva retilínea da emancipação do umbigo
eu que só quis trocar as energias do ventre
e fazer do ecce homo apenas mais uma dentre tantas possibilidades de ser
eu que estou no meio de dEUs e zEUs
acobertado pela medíocre mendicância de ser
eu que produzo a natureza com meus sentidos
eu que natural sou-a apenas para conseguir se perceber
eu, cultura, que num ardiloso abrir da caixa e do pulo para fora do rio,
só consegui ser rio
e me ver sobre a inconfundível visão do outro
em si aos olhos de Narciso debruçado sobre a ribanceira
quase uma vitória-régia a se entregar à lua
eu, que apenas saí de mim para me ver

o grande drama da natureza e dos deuses

pouco

eu

e quando no céu brilhou aquela vista torpe de que o mundo poderia caber além de si
não vi nada
ou isso mesmo, nada
pois que depois da erudição eu não entendi nada
e tampouco senti
eu, que entre os encargos do medo e da manutenção dos genes
abdiquei do ser num fenômeno
ou fiquei no fenômeno do que existe para si
eu, que potencializei a vontade, hermético

que destruí a ponte e armei uma cancela

esse eu aí que desbunda a potência no fálico de um cigarro queimado
vontade ainda

1699. Mês que vem eu me caso

Eu disse “eu te amo”?
Foi um lapso que ocorreu
Ato falho
Obsessão por algo não ocorrido
Obsessão por algo por ocorrer
Eu disse “eu te amo”, né?
Mas foi isso de dizer
Coisa que a boca não controla
Diz por dizer
Pra falhar mesmo
Eu disse, não há como desdizer
Mas só pra acalmar sua euforia,
Eu disse “eu te amo”
Com a cabeça lá na China
Lá mora o que deve ocorrer
O desejo equacionado da pulsão
Não me venha com as suas pulsões
Cada um carrega o fardo de seu próprio trauma
Eu carrego o superego tonto
De tentar me conter em dizer
Isso de “eu te amo” pra qualquer

“Eu te amo”, diz o que eu quero do desejo
E não o desejo

1698. Lili Telefonista

Carnaval acabado
Meu estandarte já todo esburacado
A haste torta
O fim do som
A banda morta
Fantasias ao chão

Seguindo à praia
Eu e Lili
Queimar fantasmas
Bem logo ali

Queimar as fantasias
Nós fomos só queimar
As fantasias
Jogar ao mar as cinzas

Despimos tudo o que poderia
Se despir
Queimamos as fantasias
Nus, nós ali
Eu, o mar e Lili

1697.

A disputa é essa mesmo entre sonhadores e guerreiros
E qual surpresa não foi a de constatar que os
Sonhadores ganharam dos guerreiros
Aprisionaram-nos no mundo das idéias
E fizeram do sonho a realidade
E a realidade a se travestir depois da disputa
Sobre o épico da técnica
Apenas mais um sonho em meio aos outros
A idéia vencendo o ato e tornando o ato idéia

1694. Down

Is that’s all right
I’m feeling down tonight

That’s all right
This greasy sky

That’s all right
I don’t know that is I
Because I’m feeling down tonight

That’s all right
I’m flying high
In a flower butterfly

That’s all right
I’m alone without I tonight
I’m feel so quit
I’m feeling so down to a night

I don’t go cry
Because are dry
My empty eyes
But really is just because
I’m feeling down tonight

1692. Dança

Deixa o som rolar
Deixa o groove
Encaixa seu corpo
Com o que sai da caixa
Deixa cair
Sente o flow
Entra na luz do estrobo
Vê o flash
Um
Outro
Outra
Uma
Sente o peso
Sente o drama
Cai no soul
Deixa o corpo
Na pegada da batida
Macio
Os passos lentos
No compasso da música
Brasa
Tudo em
Entra na pancada
Leva a alma com a pick-up
Ouve o sample
“É impossível ser feliz sozinho”
Deixa o som rolar
Deixa o groove

1690. Ruth

No começo foi difícil
Eu queria correr contra o tempo
Mas ela pensava que eu queria só sexo mesmo
Talvez o problema foi que eu falei em correr
E ela se voltou agressivamente argentina:
“Los chicos del Brasil son muy apresados”
Quem me salvou foi Soda Stereo
E “las películas que yo miré”
Meu portunhol mal falado
E o espanhaguês dela
Pero no final, las línguas
Estavam tan entremeadas
Que poco importava el significado delas
E si as lenguas simplesmente

1689. Daisy

Ela dizia coisas de português
E tinha aquele sotaque engraçado
Que todos do mundo lusófono têm, menos a gente
Falava como que procurando figuras de linguagem
Para abraçar esse mundo
E eu nem ria do sotaque dela
Achava lindo, cabia
E ela sempre tentava achar as palavras:
“Ai, como dizes por aqui?”
E eu acariciava seu cabelo crespo:
“Em Moçambique eu não sei, mas aqui é flerte mesmo…”

1686. Capim

Um reinado qualquer
Bastaria pra ter a lucidez
E o xeque-mate dado
Destruiu as possibilidades do rei sair
A morada dos loucos
Sei que o quatro de paus não está no jogo
Ele está dentro do bolso da minha camisa
Escondendo o reino da alegria
Ali no meio de todos você me beijou
Poderia ter sido um beijo doce
Acre que fosse
Mas o reinado não teve vez
Talvez voz
O castelo de mato seco que eu erigi
Desabou ao toque do fogo
Faltou uma carta possível para que o peão não ficasse só
E eu jogo xadrez como se fosse truco

1683.

O braço teso
O músculo que dilata
O peito aberto sob o sol
A pá no seio da terra
A picareta que não erra
A enxada, o chão
A pedra que desponta
O caco, a peça,
Fragmentos que eu
Componho o passado
Em uma visão
Peneiro, a lasca surge
Um instante que urge
Alguma explicação.

1680.

Tio Irã costura a barra
Uma bainha bem feita
na máquina velha
Cada ponto um palavrão,
desses cabeludos que não
se colocam em poesias
que pintam quadros ensolarados
Um gatinho na varanda
Vovó fritando lingüiças
Pai com o jogo na tv
e seu sono sempre acordado
Alguém compra dim-dim
Debaixo do pequizeiro,
a sombra e ao lado do
Araguaia e dentro da sombra,
eu