romântico da segunda
geração até o talo,
eu só quero que
me indiquem onde
é o fundo do ralo
1752.
Várias cores
pintadas que repousam
sobre a tez do vento
a semântica se perde
para a realidade
da palavra
o sentimento se guarda
em duas mãos dadas
1751. Marina
esconde pelo sorriso
o sortido de se ir
a sorte ou o sacrifício
de não mais se estar
aqui
1750.
Daqui do alto o
teu cabelo toca
as nuvens.
Daqui do alto o
teu cabelo toca
o céu.
Daqui do alto
só o teu cabelo.
E quando o vento
toca o teu cabelo,
Iansã me afaga
em um beijo.
1749.
Tem essa imagem
borrada como uma
foto antiga,
gasta pelo tempo
e pelas traças,
não é preta e branca,
é colorida,
quase a se perder toda
Tem cor
mas tem a perda
dela mesma.
Imagem que se
solta em vários
fragmentos minúsculos
e repousam em
minha pele,
dentro dos poros,
imiscuem-se em
meu tom cinza.
Agora a imagem
compõe minha cor.
1748.
O vago vem envolvendo,
vagarosamente ocupa
toda a vaga, vem
virilmente vazio,
validando a vez
de não ver voz
que valha uma vitória,
vociferando a vastidão
do vão vivenciado.
1747. Ainda não sei teu nome
Ontem eu te vi
vagando as órbitas
pelas minhas
colocando o corpo
junto em si mirando
o meu.
O pé que apontava
teu anseio, condizia
ou conduzia a
mão frenética
arrumando o cabelo.
E da boca dos
outros falada
a intenção de
dois corpos contida
no envolvimento
de Eros, mexia
os segundos em
um sexo próximo
e distante.
1746.
Troquei minha calçada
pela mesa de bar,
fica na mesma,
contemplando tudo
à revelia ou
eventual, com
alguma companhia.
1745. Do amor e outros mitos
À primeira vista
aprimorada pista
de seguir outro prumo,
mas não, que é isso,
qual o quê e coisa
e tal, vai-se assim
mesmo com tanto
adjunto, crendo no
ad infinitum junto,
como de manga
com leite, como passar
por debaixo do arco-
íris, tudo por causa
de um mero tocar
de íris, como se além
de dois olhares apenas
algo ali houvesse,
Há. O avesso do que
se sente que acontece:
qualquer coisa alhures
desse tal amor.
1744. Sambaqui
Areia cobre o vão
da sua presença
e eu jogo sal.
Areia corre e encobre
a sua sentença
e eu jogo sal.
A concha constrói
o casulo da sua
ausência
e eu tão sem sal.
A concha dissolve
em calcário a
minha falência
e eu tão sem sal.
Aqui eu me enterro
Aqui eu me erro
Aqui no horizonte
tão vasto do mar
de água e sal.
Florianópolis, SC.
1743. Da minha boca
Desculpa, eu fiquei
entre eu e a culpa,
entre a voz e o
ser. Não abri
mão dos meus ouvidos
e fiz parte da maior
de todas só o que
ouvi.
Vozes outras, que
não se aproxima
da fortaleza,
eu fiz delas verdades
e esvaziei meu
casulo, reduto confortável
que sempre me guardou.
Perdi minhas vistas
nos olhos dos outros,
perdi o cruzeiro,
fiquei com a
insolvência da percepção
torpe de quem
não cabe em mim,
não sou, nunca fui
Don Juan. O que
me cabe é o véu
diáfano da timidez
revelada.
Essa palavra sim é
minha, a conquista quem
me deu foi outra boca.
Florianópolis, SC.
1742. Eu vi primeiro…
O senhor quase a
sentar-se sentencia
a máxima de Cristo,
como quase um fardo
o ato de amar,
como quase um brado
a ti o mesmo dos
outros.
A senhora quase
morta prenuncia
a do fatídica:
sempre o descompasso
entre a intensidade
e a intenção.
A garota faz
a trança bocejando
o anseio niilista
moreno, sair da
ética e desprovar
a liberdade, despovoar
a verdade.
E os anjos em cima
de seus carros
esperando o fálico
da cultura numa
linguagem para além
da Babel perdida.
Vou tentar arrancar
suas cabeças como
bom guerreiro jê
e pendurá-las nos
topos dos postes,
para que a luz
artífice seja mais
que cem mil sombras,
sobras do discurso
e da vontade.
Florianópolis, SC.
1741. Aéreo
Tanto porto, tanta
ponte, eu fico espalhado
por aí.
O pé sempre no horizonte
nada me segura, nada
seguro, tanta porta,
tanta ponta,
tanto tudo e eu
aqui, vivendo em
não-lugares.
Florianópolis, SC.
1740.
Por entre as
araucárias
o instante das
estrelas.
Por entre um
turbilhão,
fragmentos das
nossas cabeças.
Em algum lugar no meio de SC.
1739.
Com esses cabelos
escorridos pelo rosto
e os dedos ferozes
sobre o piano
e essa voz em francês
eu assim, patetic,
escorrendo solidão
pelos poros nesse
quarto de hotel.
Erechim, RS.
1738. fdldn
Deito, para que a
letra torta do
defeito de querer
mais que as linhas
se acalme bem
aqui dentro desse
peito: ansiar os
teus lábios-moinho-de-ventos
Tangará da Serra, MT.
1737. Ode à puta
Ai linda puta que
passa, fazendo quase
de graça o que te
falam em desgraça,
o fardo da força de
trabalho da tua
milenar profissão.
Lindas as tuas pernas
que pecam ao vender
o dito lindo ventre
materno, o teu digno
ganha pão.
Lindos os teus olhos
que viram aqueles
quase castos e tímidos
comprarem o prazer
no transar de uma
ilusão.
Linda a tua fantasia
de guerra que tapa
pouco os teus seios,
avantajadas forças
que contorcem a razão.
Linda você, dessa e
de outras esquinas
que embaralham as
retinas dos que passam
meia que seja das
horas da tua vida,
pagando o preço do
tesão.
Linda toda puta,
que se digna a vender
a maior obra da
criação!
Tangará da Serra, MT.
1736. Poética patética
Brota assim quase do
sono, como broto de
bambu com macarrão
chinês.
Brota assim quase num
sonho, como no broto
que é a garota, ou no
broto da rosa.
Brota assim quase real,
como a água sai
da grota.
Tangará da Serra, MT.
1735. Social
Me mostra o mote
da falta que aos
imberbes da cascata
dizem o segredo
de ser feliz.
Dia passa, noite
alta e àquele que
rasteja sobre o lixo
da lata mostra
o que se quis
quando ele pára
come o lixo e diz:
“ai de mim marvada,
que a tua lua me
condiz!”
E lá na beira da
cachoeira, os imberbes
se deleitam e seguem
naquela verve de:
“ai minha amada lá
da ribanceira, a ti todo
ouro, aos outros
a poeira”.
Tangará da Serra, MT.
1734. Quase tudo
Tudo tão distante das
causas, de fato o
“rock errou”, largado
como serpentinas sujas
do fim do carnaval.
Errou em sê-lo assim
mendicante, sem conseguir
ser causa, vasto campo
além da conseqüência.
O rock mor sou eu
e o rock morreu.
Tangará da Serra, MT.
1733. Lucinifircina
Ontem, enquanto eu
vagava com o lume
da paixão adormecido,
os vaga-lumes lumiavam
pequenos flashes na
escuridão, que era
minha alma,
calma, tão calma, que
quase cabia em qualquer
palma.
Tangará da Serra, MT.
1732. Quando acabou a energia e olhei o céu
Foi por um segundo
Aqui não, mas lá sim,
muitas, várias.
Aqui nesse segundo,
só por doze horas
e do outro lado
da Terra.
Tangará da Serra, MT.
1731.
Os músculos todos
tensos e relaxados,
um tipo de sexo,
solitário, mas ainda.
Nada que se pensar,
as mãos calejadas
do dia de trabalho,
a vingança a noite
de papo pro ar.
A cigarra, o grilo.
O cigarro, um pigarro.
Não se pensa.
Pensa talvez o que
pulsa a veia jê.
Esperas-se o próximo
ponto em que o
céu caiba no centro de
uma peneira.
Tangará da Serra, MT.
1730.
Por que ele não
fala nada?
Não tenta
qualquer coisa,
a noite vazia,
a breja finda
o caco no chão
refletindo a lua.
Ela sem graça,
cheia de graça
e tudo de graça,
mas ele parece
que antevê a
desgraça,
o não talvez,
quem sabe o talvez
mesmo.
E ele não faz
nada quando
ela passa a
língua pelos lábios
tentando dar
umidade nesse
mar de secura.
Ele nada, nessa
uma de não
dar mancada.
1729.
Podia ter jogado
aquela cantada
furada,
areia na massa
com minha
pá também
furada,
pra render,
mas pro alicerce
tem de ter
concreto e
ela passou,
pediu o cigarro
e foi fumando
como quem nem
percebeu nada.
1728. Taguá
Tenta-se entender
Aqui pulsa
A pedra rola
Um reduto
para além
dois viadutos
Para aqui
putos
Cerveja assim
posta sobre a
mesa
Um ar de
qualquer coisa
antiga, um
ar de mil
novecentos e
antigamente
Uma fachada
outra, um
bueiro aberto
A gente se olha,
se nota
E sempre vem
a nota
de tão grave
quase obtusa
O forró ao lado
e a gente se
afoga no álcool
Eu olho, ela
olha, tudo isso
em volta,
envolto em uma
explosão
É o pé frenético
de uma noite
perdida de
domingo
O cu seco que
passa ao lado,
o esteio,
o vão do decote,
quase inteiro
um seio
E a gente pesca
palavras no
vento
1727. Piriguete
Vem, com tuas calças
rosa, lycra tão
cor de algodão
doce
o perfume que
marca tudo como
foice
Quem me dera
me ir com seus
brincos dourados
de argola
bambolê
Barriguinha de
fora
pircing no
umbiguinho
o salto plataforma
no nariz
esse coraçãozinho
Vem, com teus cabelos
tão dourados,
escovados, cor de gira
sol
1726.
Você estourou todas as bolhas do plástico
Não deixou nenhuma pra mim
Acabou com todas as bolhas
Me viu com as mãos angustiadas
E não deixou nenhuma pra mim
Eu contorci algum papel e espremi
Até a caneta, mas você nada
Estourou todas as bolhas do plástico
1725. Ter gosto
É preciso ter gosto
Sentir gosto
Está ligado a sentir os cheiros
Pra gostar se precisa do gosto
E do aroma que vem junto
Tem gosto que vem com o cheiro
Tem cheiro que vem com o gosto
Tem essa coisa que se gosta
E vem por acaso
Ao se degustar frases num monitor
E o cheiro vem junto
De tarde junto
De noite junto
De manhã, rindo, junto
No fino das palavras resvaladas e desesperadas
No parque
No surreal
No dizer que não se quer mais
Na loucura da madrugada
Do telefonema infindo
Dos recados em flertes poéticos
Dos sustos patéticos
Dos surtos
O gosto que veio
Eu gosto
O aroma que veio
Falta
1724.
Será que a música chegou?
Será que o som sussurrou o que eu queria?
A carta, a letra, o som…
A música falando do amor
Como três quartos de tudo que se musicou
O amor, a panacéia do mundo
A carta, simples, nem escrita à mão
O veio d’água
A seca
No tempo se saca, o quanto falta
Todo tempo é ressaca
Pro embeber-se da falta
Daqui do avesso do tempo
O espaço se curva aspirando a uma notícia
Sua
Pode ser sem música
Pode ser assim, a imagem de uma begônia em flor
1723. Falta
Sentir que falta,
paradoxo da alma.
A falta é o avesso do sentir,
sinto então que quero a presença,
ou algo próximo a essa sentença.
1722. Explosões
Por toda parte
Da arte à catarse
Caos em todo canto
Do carste ao campo
Dor em todo peito
Das damas ao defeito
Sangue no mundo
Dos sãos aos suínos
O morro vai descer
Vai descer pro asfalto
Que morram eu e todos
Explodam lá do alto
Me matem por favor
Tirem tudo o que eu tenho
Desçam, sem disco voador
Tirem meu maior pertencimento
Me enterrem no cimento
Estrangulem meus amigos
Tornem caos suas libidos
O morro vai descer
Vai descer pro asfalto
Que morram eu e todos
Explodam lá do alto
Rajadas de PT
AR-15 em minhas fuças
Explodam o que aparecer
Que é isso que tipos como eu merecem
1721.
E no final ela ama o babaca
Podia falar filho da puta
Mas as putas não têm nada a ver com isso
Elas são muito legais pra serem mães de um merda como ele
Podia falar débil mental
Mas os loucos não precisam pagar o pato por ele
Podia dizer que no final ela ama o asno
Mas os asnos são tão gente boa
Deixa eles pastando tranqüilamente
Só sei que no final ela ama aquele porra
Idiota dos infernos
Mas só podia dar nisso mesmo
Ela é a mais idiota de todas
Imagina eu então que lamento
1720. Diferente
É assim a primeira intenção
A volta que não volta
Um azul pra você
Um anseio de Iemanjá
Um verde pra completar
Algo perdido
Entre o céu e a terra
A liberdade vem sutil
Por entre as frestas dos poros
Há sempre outros pelos
Há sempre poesia
Sempre
Sinais sempre vêm
Se vêem
Sem mais, só vêm
Diferentes, outras versões
Tudo novo
1719. Gabizinha
Fica assim feliz com um oi
Só um oi e já tá toda derretida
Gabizinha, quando quer
Deixa qualquer oi caído
Vem até buscá-la em casa
Sai pro cinema e come pipoca
Mas Gabizinha, faz assim não,
Que pra você não derreter toda com um simples oi
Eu te digo todos os ois possíveis
E ainda te faço um cafuné…
1718. Nada para além
Depois do advento da internet
E sua conseqüente popularização
Temos poetas por todos os lados
Fotógrafas em cada esquina do espaço virtual
Músicos pra cada ouvido do mundo
Artistas reinterpretando a realidade
Em cada comunidade do Orkut
Aos que ambicionam o projeto civilizatório
Aos amantes da erudição
Cada ímpeto disso tudo é uma arpada em seus corações
Conscientes da teoria da arte
Da metodologia das letras
Das epistemologias científicas
Maldizem a vulgarização
“A arte foi colocada ao mister da repetição!”
“As letras foram mortas num nonsense significativo!”
Bradam os revoltosos do alto de trio-elétricos
Quase sindicais
“Para onde foi a essência?!”
“Como se projetam essas existências?!”
São perguntas que não se calam diante desses
Eu os fito com o mesmo desprezo aos olhos
Que eles imputam aos chamados pseudo-artistas
Pseudo-escritores
Eu amo todos os pseudo-alguma-coisa!
Um viva à poesia pobre, rima sem estrutura e sem metáfora!
Um viva à arte indigente, sem nuances de tom e de luz!
Um viva ao conto confuso, sem ritmo, sem sintaxe gramatical!
Um viva à música sem fãs, ao som eclético e só referencial!
Um viva à performance da aparência!
Eu quero a lógica fragmentária do sample
Anseio o caos desordenado de manifestações ultra-sentimentais
Desejo a incompletude dos projetos artísticos maculados
Espero ardentemente a palavra medíocre clamando por uma leitura fácil
Viva os blogs, fotologs, mp3s, playlists e afins!
Que qualquer escreva poesias
Que se expressem de toda forma
Que a arte não seja exclusiva das elites e dos intelectuais
Eu quero a poética do caos de todos serem poetas
Eu fico com o torto e com a torta
Que morra a erudição
1717. Prometo
Tá bom, aí então eu faço uma poesia cheia
De esmero, falando até sobre Édipo Rei
Tudo bem, eu falo, é um pena que eu não sei
Aí eu floreio também com um pouco
De processo histórico e lutas de classes
Aí fica assim, redondinha a poesia
Cabe até numa antologia
Porque eu também vou colocar uma metáfora
Para a condição humana, como os mamutes da
América do Norte
Coisa grandiosa mesmo
Projeto para depois da vida
Imagem maior que a vida
Traduzível em todas as línguas
Transponível a todos sos corações do mundo
Poesia de verdade, né?
1716. Pra ela IV
Tem assim um crucifixo bem no meio
Pra dar essa coisa profana
A linguagem que codifica o gosto
Profana toda você
Profanar toda você
Provar com a língua a parte
Que você encobre com o crucifixo
As partes que minha língua quer
Entender a linguagem
1715. Pra ela III
Escorrem quebradiços sobre os ombros
Até as pontas dos seios
Os fios que eu percorreria
Como uma viagem entre o norte e o sul
Desvendando paisagens como esta
Do encontro entre o pescoço e o ombro
Essa curva que brilha nos verões de baixo Equador
Aí eu retirava esse fio teso no canto da boca
Uma corda esticada entre a beleza e a superação
Da beleza
E esse fio envolto na aureola do teu seio em frio
Eu o puxava milimetricamente com a ponta dos dedos
Tateando a linguagem em braile do
Que em você sobressai sendo mais do que em ser lindo
1714. Pra ela II
Tem o volume da sua cintura
Essa coisa que não se agüenta
Assim, minha cabeça pendendo
Na tua barriga, os pelos da minha barba
Roçando o incontido do teu umbigo
Uma coisa assim perfeita
As dobras quando se curva
Justapondo a perfeição num conceito
Para além do greco-romano
O tom moreno da coisa
Como as tardes de seca do planalto
Seria a umidade salgada do encontro do meu rosto
Na sua barriga e tudo moreno
1713. Pra ela I
São como olhos
Os teus olhos
Sabor de olhar
O teu olhar
Tão cabido assim
A tua órbita
Na minha órbita
São olhos tão olhos
Que cabem tanto
Que bastam tanto
Que chegam a ser
Como olhos
Os teus olhos
Deixa assim
Esses olhos tão olhos
Nos meus olhos
Pra ver se os meus
Viram mais os teus
1712. Poesia do amor reticente
É que sempre é uma invenção
Sempre é assim essa ânsia
De ser para
O seu ser para mim
Sempre completar
Eu invento e inverto tudo depois
Mas do que já feito
Eu me invento em você
O seu ser para mim
Dar-me assim, para a ânsia
Ser-te a ânsia
Assim, reticência…
1711. Ligo não
Um ano se faz
nem lembrava,
coisa que a memória
seleciona em prol
da integridade
de que fique o bem
e de que se fique bem.
Um ano se faz,
minha memória seletiva
no lapso nem se
recorda do número,
talvez do quadro,
do antes e do depois
do dia
do então.
Feliz ano pra ela
Feliz o ano pra mim
Felizes os anos
para o entre eu e você
E pra ela,
haviam muitas poesias
no livro
até hoje devem haver inéditos pra se ler…
Sem brinde,
sem chears,
sem lágrimas,
sem mágoas,
feliz sim, pra você.
1710. Reflexões
Ele é o rei da
coisa vaga,
da palavra vaga
que vaga de boca
em boca.
Ele é a coisa de
intermédio
entre uma boca
e outra, impreciso.
Ele é isso que
ama
a chama
de ser vago
e ama.
1709. Meu décimo cigarro
Acusticamente
Se degusta
E segue até o peito
A sonora
Tragada
Do som do décimo
Cigarro ao som
Do baixo acústico
1708.
Segundas são vagas
Nunca há vagas
Vagueio nas segundas
Em busca de segundas
Intenções, tensões
Mas nas segundas
Nunca há vagas
São apenas vagas
1707. Ser tesa
Tenho certeza
Que Teresa
Estava lá
Tesa
Tensa?
Num tesão…
E tendo que esperar…
1706. Uma prosa (sobre) boa
foi aí que eu vi aquele moço
o cara fazia umas músicas boas
antes de ter morrido no estrangeiro
resolvi puxar papo
tinha algo que eu queria saber
uma coisa quase pulga atrás da orelha
queria saber sobre a probabilidade de
saber da existência antes do contato
o problema todo era aquela música
que não saia das minhas músicas
aí eu perguntei:
– Quando você a conheceu?
– Não sei, talvez eu não tenha a conhecido, ou não…
– Ah sim… suspeitei…
– Ela é linda, não?
– É sim… Bastante…
fiquei a pensar então nela
no choque que não era do azul
mas do cinza
devia ser fruto da cidade, quase daquele
cruzamento que mexia com o cara
e ela é toda certa, assim, no sentido da coisa
e uma voz, uma voz que é qualquer outra coisa certa
– A voz é linda também, não?
– A voz? É sim, bem linda mesmo.
e há a força também que sobressai qualquer choro
e as letras e as músicas
uma onda que arrebata mesmo
um ritmo que cadencia os pés e dá vontade
de trocar energias entres os ventres
– Mais que demais?
– Ah, bem mais…
– Fiz até uma canção.
– Eu sei, queria tê-la feito antes, aquela coisa do seu amigo: “Certas canções que ouço, cabem tão dentro de mim que perguntar carece: como não fui eu que fiz?”.
– Pois é, meu nego… Previ ela antes.
– É, dei mole mesmo… Talvez ela queira bater em mim, sabe? Como a onda…
– Lindo.
queria ter
sentir
o íntimo
e são fontes de mel tão lindas…
1705.
De ponta a cabeça
Desponta o caber
Na cabeça
1704.
Uma mão quer tocar o céu
A outra agregar o inferno
Um pé quer o mundo
O outro não ser pé
Um olho anseia os seios
O outro se castra
Dois homens em mim