0852. Beijo

o avesso do dia em seu estado pleno
obrigava o abraço e o aconchego
abrigava braços sobre braços e coxas,
pés, pernas e até os cotovelos
o arfar do peito próximo acalentava
mais o infinito sonho do desejo
fazia frio e cobertas não bastavam
mesmo porque o importante fosse
ao final de tudo um simples beijo

0849.

se eu não fosse apenas um menininho perdido
entre o tentar se entender e o procurar ser
diria coisas singelas como tomar um sorvete
e olhar o pôr-do-sol contigo
mas remeto-me ao que me confunde e não
deixa que me torne um estado de estabilidade
tal ao ponto de dizer-te algo mais direto
do que isso

0848. Contemplações de algo insone

este que parece ser outro
não é nada mais que o desejo
que está alicerçado sobre o poente
do que não se há de ser
mas que queremos veementemente

este que passa desapercebido
pelo imã entre nossos pólos
é aquele que não diz nada mais que o óbvio
e que fingimos não ver
como se fosse só uma sombra no escuro

mas hoje foi visto sentado em meio a nós
puxava meus pelos aos seus pelos
e minha pele à sua pele e queria o imponderável
da sobriedade num afã de bocas:
mostras de que o desejo é mais do que a existência

0846.

um inside de fora pra dentro
traz-me o momento
em que nos conhecemos
foi um dia azul com certeza
e as coisas aconteciam
à revelia do que aconteceria
faz-se alguns anos então
e você hoje também
não muitos, mas mais um
e essas recordações
sem nexo, são só pra
dar um prefácio razoável
ao dizer-te: feliz translação!

0838. Todos precisam de um vício destrutivo

Acordou bem
no horário
disposto
fez seu alongamento
correu trinta e cinco minutos
comeu seu desjejum
tomou seu banho
escovou seus dentes
chegou em ponto no trabalho
ligou pra namorada
disse que a amava
(e a amava)
marcou no almoço
saiu na hora
almoçou com sua linda
voltou no horário
trabalhou com eficiência
cometeu um lapso ao
final do dia: saiu 10 minutos
adiantado: tinha de pegar
sua fofa para ir ao cinema
assistiram num shopping
deixou-a em casa
foi-se para a sua
ligou quando chegou:
“te amo”
(e a amava realmente)
tirou suas roupas
guardou-as no cesto
arrumou as da manhã seguinte
tomou um copo de leite
escovou seus dentes
dormiu

não há de se maldizer nada
mas e a vida, para onde foi?

0835.

Olhar para os lados sem ter motivo
Virar um estado de contemplação
Querer nada mais que o nada
Amar tudo, todos e ninguém
Ser triste sem medo
Ser feliz quando há tempo
Ouvir blues às 3:00 da manhã
Sonhar com sua ex-namorada
Admirar a beleza daquele rapaz
Passar o dia sem comer
Comer tudo o que ver pela frente
Encher a cara com qualquer um
Acender um cigarro após seis anos
Voltar sozinho pra casa
Dormir com qualquer um
Ter dinheiro no bolso
Perder um pouco de si
Ficar consigo e se bastar
Mesmo que seja outra prisão

0833.

Eu grito agora o
que nem sei se escrevo,
é algo que sai entre
o risco ao papel e
a certeza de que algo
há de ser dito, e digo.
Embora a um olhar
atento nem pareça
ser qualquer coisa.
Talvez sejam essas
notas tão rápidas
que inibem o que
quer dizer minha
alma, mas o choro
ao som comove
meus sentidos a
serem mais que
palavras estas aqui:
dou-te a liberdade.

Alto Paraíso, GO.

0823. 1º movimento: a morte

surfava por entre os carros
deslizava no encontro da borracha
com o asfalto. fazia um barulho
imenso, devido ao rolamento
falho. pigarreava os excessos
da noite finda.
o corpo cansado, a canela
esfolada do último tombo.
pensava em nada,
vivia um grande nada
e por isso era feliz. no dia
em que cresceu e tirou a
barba e penteou os cabelos,
passou a viver sua morte:
significou sua vida e
acabou-se a poesia.

0816. Ah se eu não fosse agnóstico…

O ônibus como sempre
A mesma fila à frente
O distúrbio da buzina
O descompasso da vida
A fala infinda ao lado
O sono justo e suado
A trepidação da via
O sonho da alternativa

E no meio do engarrafamento
o sol se pondo ao poente
num vermelho de tudo,
em meio a um azul já negro
e bem no meio desse sol
um ipê florindo, despontando
seu amarelo, contrastando
com a vida… parei, respirei
e ouvi meu coração:
as coisas ainda cabem no mundo