Amor, o problema é esse singular
Amores – plurais – isso sim
eu entendo.
0852. Beijo
o avesso do dia em seu estado pleno
obrigava o abraço e o aconchego
abrigava braços sobre braços e coxas,
pés, pernas e até os cotovelos
o arfar do peito próximo acalentava
mais o infinito sonho do desejo
fazia frio e cobertas não bastavam
mesmo porque o importante fosse
ao final de tudo um simples beijo
0851. Sexo
o peso do desejo
sobre o corpo outro
pesa o fato de
fazer-se peso
até a leveza
0850. O amor
num momento contraditório
o ego completa-se no outro
num movimento ilusório
preenche-se o que já é todo
0849.
se eu não fosse apenas um menininho perdido
entre o tentar se entender e o procurar ser
diria coisas singelas como tomar um sorvete
e olhar o pôr-do-sol contigo
mas remeto-me ao que me confunde e não
deixa que me torne um estado de estabilidade
tal ao ponto de dizer-te algo mais direto
do que isso
0848. Contemplações de algo insone
este que parece ser outro
não é nada mais que o desejo
que está alicerçado sobre o poente
do que não se há de ser
mas que queremos veementemente
este que passa desapercebido
pelo imã entre nossos pólos
é aquele que não diz nada mais que o óbvio
e que fingimos não ver
como se fosse só uma sombra no escuro
mas hoje foi visto sentado em meio a nós
puxava meus pelos aos seus pelos
e minha pele à sua pele e queria o imponderável
da sobriedade num afã de bocas:
mostras de que o desejo é mais do que a existência
0847.
era uma vontade de pegar na sua mão
de afastar o cabelo do seu rosto
de verificar o ferimento de sua boca
de só estar ao seu lado sem mais
que eu nem sabia se poderia te dizer
0846.
um inside de fora pra dentro
traz-me o momento
em que nos conhecemos
foi um dia azul com certeza
e as coisas aconteciam
à revelia do que aconteceria
faz-se alguns anos então
e você hoje também
não muitos, mas mais um
e essas recordações
sem nexo, são só pra
dar um prefácio razoável
ao dizer-te: feliz translação!
0845. Sementeira
Passo ao lado de um cemitério
e uma vez ouvi de um índio: sementeira
e se plantam corpos
um ao lado do outro
e há toda essa paz,
que até me passa a idéia
de crer no dito do
descanso.
0844. Relação
Volta-se uma, duas, três
vezes com o vazio por companhia
que você até se acostuma
com ele.
“Como vai tua falta?” Pergunto.
“É companheiro, te preencho
cada vez mais…” Me responde.
Faço-o um afago e prostro
meu semblante novamente nele.
Até quando esta relação
há de durar?
0843.
a androgenia de uma
super mulher passa
a poucos metros
meus ombros sentem uma
indiferença tal
que eu noto que meu
pró-feminismo me ajudou
a me livrar desse
papo metrosssexual
0842.
Bom é o que não é visto
o que não se apercebe
logo de cara.
Belo é o guardado a
sete chaves bem dentro,
escondido, visível só
com as pontas dos dedos
da alma.
O melhor é o avesso
do que é visto.
0841.
tem vezes que uma
manhã nasce morte
o dia parece que
não vai se sustentar
aí vem um riso
inocente, uma questão
sul-real e parece
que o sentido surge
0840.
Poeta?
Eu não…
sou apenas um cronista metafórico
de sentimentos, sensações, fatos e imagens.
0839.
Eu que tantas
vezes o escutei
não sabia que
o segredo da
vida podia vir
assim tão fácil,
em meio ao
sexto copo de
cerveja num
boteco pé-sujo
escutando Raul.
0838. Todos precisam de um vício destrutivo
Acordou bem
no horário
disposto
fez seu alongamento
correu trinta e cinco minutos
comeu seu desjejum
tomou seu banho
escovou seus dentes
chegou em ponto no trabalho
ligou pra namorada
disse que a amava
(e a amava)
marcou no almoço
saiu na hora
almoçou com sua linda
voltou no horário
trabalhou com eficiência
cometeu um lapso ao
final do dia: saiu 10 minutos
adiantado: tinha de pegar
sua fofa para ir ao cinema
assistiram num shopping
deixou-a em casa
foi-se para a sua
ligou quando chegou:
“te amo”
(e a amava realmente)
tirou suas roupas
guardou-as no cesto
arrumou as da manhã seguinte
tomou um copo de leite
escovou seus dentes
dormiu
não há de se maldizer nada
mas e a vida, para onde foi?
0837.
Um beijo, um ato
algo findo e outro
começado. Principiado
já no fim, findado
em seu início
o poder do estalar
de lábios…
0836.
Achar nesse momento
esse tom do céu
em palavras.
É aí que eu vejo a
realidade do impossível
0835.
Olhar para os lados sem ter motivo
Virar um estado de contemplação
Querer nada mais que o nada
Amar tudo, todos e ninguém
Ser triste sem medo
Ser feliz quando há tempo
Ouvir blues às 3:00 da manhã
Sonhar com sua ex-namorada
Admirar a beleza daquele rapaz
Passar o dia sem comer
Comer tudo o que ver pela frente
Encher a cara com qualquer um
Acender um cigarro após seis anos
Voltar sozinho pra casa
Dormir com qualquer um
Ter dinheiro no bolso
Perder um pouco de si
Ficar consigo e se bastar
Mesmo que seja outra prisão
0834.
Há esse fogo, e uma
vontade de jogar
o celular nele que
parece incontrolável.
Mas no fim das
contas, hei de me
controlar e dar
boas risadas disso
tudo…
Alto Paraíso, GO.
0833.
Eu grito agora o
que nem sei se escrevo,
é algo que sai entre
o risco ao papel e
a certeza de que algo
há de ser dito, e digo.
Embora a um olhar
atento nem pareça
ser qualquer coisa.
Talvez sejam essas
notas tão rápidas
que inibem o que
quer dizer minha
alma, mas o choro
ao som comove
meus sentidos a
serem mais que
palavras estas aqui:
dou-te a liberdade.
Alto Paraíso, GO.
0832. Dividir o nada
Prefiro o vazio ao lado
do que a sensação
medíocre do ciúme.
Alto Paraíso, GO.
0831. A lentidão
O que surge é só o que
se tem: uma légua de
nada às costas , outro
tanto de nada ao lado
e mais um punhado de
nada aos pés.
Isso tudo não representa
nada, a não ser essa
lentidão.
Alto Paraíso, GO.
0830. Tango nº 1
O passo não acompanha
o que se passa nas mãos
virtuosas do descompasso.
Piazzola é só mais um
em meio ao que não sabe
nem o que fazer com a
viola em punhos.
Trágico, como o tango
ele faz assim…
Alto Paraíso, GO.
0829.
Essa agora, antes,
só pra ver como
se faz depois
Queria ter visto
tua cara após
o poema, deve
ter ficado com
ares de quem o
pega, tira o
presente o põe
na primeira
gaveta que vier
pela frente, e
isso era pra ser
o antes, mas acaba
sendo o que
imagino depois.
0828.
Contigo, fui até homem,
paguei conta e até te
chamei de minha nega
Só te peço que não negues,
pois se não desanda
tudo e eu enterneço
0827. Compositions
Amei-te com ares de amor
penetrei-te uma condição
tão pura e bela, invadindo
tua opção.
Fui tua escolha e teu paraíso,
fui tua perdição.
E hoje sou só conjugações
de verbos no passado:
minha decisão.
0826. In theory…
The same way all day
and I don’t no your
name. I think that
your name is the
same that the sky.
0825.
A paz ia
e
apazigua
0824. Corolário
é nessas horas em que o
sol já morre e renasce
no outro hemisfério
que brota a profunda
contemplação de que o
amor não começa ou
acaba assim, de repente,
ele é esse que de
diversos modos se faz (e desfaz)
0823. 1º movimento: a morte
surfava por entre os carros
deslizava no encontro da borracha
com o asfalto. fazia um barulho
imenso, devido ao rolamento
falho. pigarreava os excessos
da noite finda.
o corpo cansado, a canela
esfolada do último tombo.
pensava em nada,
vivia um grande nada
e por isso era feliz. no dia
em que cresceu e tirou a
barba e penteou os cabelos,
passou a viver sua morte:
significou sua vida e
acabou-se a poesia.
0822.
Um desabafo de um assalariado
Um furto de um suco aguado
Uma história, um pedido segredado
0821. Seu
sol
céu
soul
som
são
sílabas
suas
0820. Quisesse
O barulho é conhecido
grafá-lo é quase impossível
seria algo próximo a tsiihh
ou até mesmo tssiihhsss,
faz-se após a ação da mão (pâuphh)
ou até mesmo só dos dedos (nkclohhh)
aí depois vem o mglu-mglu-mglu-mglu
e o arhhhh
no calor, então… nada melhor
0819. Um dia…
Um dia a paz de um fim de semana
há de ser tanta, terna e eterna.
Há de ser do gosto do pôr-do-sol,
da quentura de um abraço no frio
e do jeito que o coração manda,
como se tivéssemos sempre aquela
primavera nos pés.
0818. Pós-chapada
Andávamos sobre a natureza
e você com a primavera nos pés
dizia coisas sutis sobre a vida
eu, como sempre, falava sem
compromisso sobre mim e
pensando que falava sobre a vida
Dormimos juntos e foi bom
Estava frio e foi bom
Bebi um tanto e foi bom
Fui eu e foi melhor ainda
0817. O porquê
Como psicografia
sento: palavra sai
Como psicanálise
escrevo: alma vai
Como psicopatologia
invento: o eu se esvai
0816. Ah se eu não fosse agnóstico…
O ônibus como sempre
A mesma fila à frente
O distúrbio da buzina
O descompasso da vida
A fala infinda ao lado
O sono justo e suado
A trepidação da via
O sonho da alternativa
E no meio do engarrafamento
o sol se pondo ao poente
num vermelho de tudo,
em meio a um azul já negro
e bem no meio desse sol
um ipê florindo, despontando
seu amarelo, contrastando
com a vida… parei, respirei
e ouvi meu coração:
as coisas ainda cabem no mundo
0815. O 2º último poema para Lyvian Cristina
Neste que fica sendo seu
dou-te um beijo letrado
grafado nestas que se põem
assim, uma após a outra
e que relembram esse
que é seu: um após outro.
Gira a Terra e este fica
sendo seu, e por esse
dou-te estas, sem sentido,
ou todo o sentido, apenas
letras, umas após as outras,
mas já suas.
0814. O 1º último poema para Lyvian Cristina
Tenho brincos nos bolsos para te dar
mas há um medo que desanda em se dar
que me dou o descompasso de ter medo
de te dar os brincos que tenho nos bolsos
0813. Para Eliz
As palavras tem poder de corte
Tocam a pele e promovem o sangue
Palavras vistas, mais do que as
ouvidas, são mais afiadas ainda…
Cuidado, pois, com que seus
dedos produzem, ou até mesmo,
pensando direito e bem, cuidado não…
0812.
I forgot my name.
Because the name
it’s never the same,
like the rain:
water comes down
and end.
0811. Minha vida sem mim
Amanheceu neblina
de tudo hoje em mim
só sombras sem fim
neste eu qual rima
Amanheci muzak
hoje em Brasília
o horizonte sumiu
e sumi também eu
0810.
poesia?
é a cabeça da caceta
eu só sou
(a idéia vem da cabeça)
0809.
era um vento que
ensaiava ser vento
e era só vento mesmo
0808.
perder os pés
pô-los pelas
mãos, ser pés
0807.
alma vaga vem vindo
vôo alto, animal aéreo
alma vindo vem, vaga
0806.
o coração carrega
a cor da ação cá
regando as veias
0805.
o gosto do ar
é da cor dele
e movimento
0804.
o gosto do mar
é da cor dele
e reflete ondas