4110. Machine poeting

Falávamos ao vento
ninguém ouvia absolutamente nada
que não tivesse vindo
de um nó aplicativo

Nossa voz não reverberava
em ninguém, em nada
Comprimíamos o nosso próprio
atacanhado tamanho em nada

Sem adesões e sem gostares
e o mais enfadado: sem interlocução,
falávamos como araucária no meio da soja
ou pequizeiro no meio do pasto
Uma linguagem de outros modos
ao pé de ouvidos com fones

Não falávamos,
berrávamos para nós
e nem nós nos escutávamos

Apenas insistíamos em ponderar a loucura
de tentar falar uma língua morta-viva
para zumbis surdos

E os poemas pipocavam como
uma glossolalia sem anjos,
só ciborgues a assaltar todo significante
todo símbolo
qualquer signo
e todo significado

E olhávamos com pasmo
aquele blindado big data de figuras de linguagem
e um novo algoritmo poético
a despejar belas canções que jamais serão lembradas

4110. Machine poeting

4109. ciclotimia, ou tratado matinal das próprias cores, ou da travessia quando no mergulho, ou do despertar dor para que finde

logo mais haverá cores, sei
cada travessia do sol, cicla – re
e quando ele sair do ar da balança pendulária
e adentrar as águas do inferno,
profundo lamaçal de esfregar bicos
de seios e fazer unguentos,
o céu vai clarear pelas manhãs
em pequenos caleidoscópios fractais
dourados nas gotas dos dias,
feixe de raiar corpos

por enquanto, como a lua, como o céu,
eu cresço e minguo e eclipso,
como cá estou cinza – s
pronto a rebrotar desde as águas
até ser lenha para a fogueira
que há de arder bem no fim dessa
travessia pelo firmamento

mais uma vez

4109. ciclotimia, ou tratado matinal das próprias cores, ou da travessia quando no mergulho, ou do despertar dor para que finde

4108.

A fagulha só pega
quando há corpo a queimar
e calor pro ar passar
feito rastro de meteoro no peito

Todo fogo queima
de doer e até entender
tatuagem-queimadura
a estampar lições

A primeira passagem
é a das notas contidas
nos sinais de fumaça
no toque de tambores:
há que se saber os códigos
para decifrar epigramas de amor

Os sinais tem de ser claros
mesmo na escuridão:
por quais ruas deambulam
danças ou fugas
que farão o próximo passo

Do fogo a luz
que cadeia no céu
se faz sombras e lê-las
dá o enredo

Há encruzilhadas
que deságuam em todo o futuro
E o corpo sente

Amar-se as dores,
outra conta para as pagas da vida
E as lições do fogo continuam
ainda que em barco naufragado
mar livre do peso de se sustentar
a liberdade de ser os próprios sinais

Respira

Descobre o que assombra
Ali nos corais há habitação infinita
E nenhuma regra há de impor
quantas casas se erguerão no fundo abissal

Despede do que te veste de incerteza
fique nua, do avesso ao verso

Escuta o canto:
melodia pura de sensação ébria
um tritão ergue a voz
e chama,
no mar há fogo

Não respira, pira

Se despedaça em cada parte que alcançar
e se recompõe, regenera

de prazer

dê-se

4108.

4107.

A corredeira dos dias
anda tão farta
que o cimo das melhores horas
já se perdeu nas têmporas
e tempestades das cabeceiras
das manhãs,
rolaram trombas e águas e elefantes
erodindo a memória.

Nas depressões dos vales
que roubam terras das montanhas
é que se reflete:
e nesse horizonte de sol,
quais foram os melhores dias?

– Foram os dias.

4107.

4093.

Já avança a meia
da travessia
e até agora
o brilho não se
fez aos olhos,
como se o desarrumo
das lágrimas atmosféricas
tivessem virado
a luz para dentro
do Sol.

Mas o certo é que
a desesperança do amor
é que me tomou
as rédeas e não
arredou mais pé

até que o céu
de Marte se assomou.

4093.

4091. Vai lá, ama.

Cristais de nitroglicerina
em todo o beijo,
urânio enriquecido
os abraços,
um tiro e uma facada
ao toque dos sexos
e o algodão do doce encontro

– um domínio, dogma não declarado,
o amor É sinônimo de posse,
primordial o fato, o sobrenome dele no papel,
cavalos brancos e pétalas e plumas de príncipes
voando de helicópteros
e o primeiro tapa até o último soco.

Como a mágica frase
anteposta feito poema
no instagram
dos corações solitários,
pesa a tonelada
de transformar a notícia falsa
das sessões da tarde
e suas barrymores
em notícia quente e,
três tuítes depois,
requentada do jornal das oito:

mais um feminicídio computado.

4091. Vai lá, ama.