2824. Uma scania chamada todo anseio

Eu me faço edredom e esquento seu sono
E antes de toda cerveja no bar com os amigos
antes de saber tudo sempre igual,
esses beijos de hortelã,
passearei vagaroso com minha boca por suas costas
recompondo com a língua a pintura gravada no começo de sua nuca
na urgência de uma manhã de domingo eterna
Eu, com adereços, colares, brincos, aderência, calores, brônquios
lhe direi sem pudores que de ponta a cabeça e em pé é preciso
Eu me farei seta para o seu alvo
e pedirei tudo aquilo que sua feminina umidade quiser
Eu vigiarei seu sono e ansiarei a paga
de um doce de leite na ponta dos meus dedos do pé
Cúmplice de todo café e ressaca
Eu ficarei à espreita, esperando junto ao vapor de um banho quente
sua aguerrida figura incensando o ar com humores amazônicos
Eu não frearei sua busca,
mas estarei atento às táticas mais precisas para um xeque-mate
nesse caos não-clitoriano instaurado nas veias das lidas dos dias
Eu não serei seu sonho, mas invadirei todo sono
como nem mesmo Freud possa sublimar
Eu cortarei as cebolas e descascarei as batatas
e quando triste lhe entregarei quitutes em estrofes de açúcar e afeto
num pão de ló docemente coberto de calma e fé
Eu, de cima das nuvens, lhe entregarei um horizonte desabado
Eu, seu igual, farei procissões rumo ao possível, apontando o céu
no centro da Terra certo de que mesmo nas novelas
– quando descobrirmos a epistemologia delas e dos romances –
figura um mundo não imaginário
Eu lhe beijarei sempre, apalpando o todo de suas ancas
confidenciadas em rubras saias
enquanto caminhamos pela orla dos velhos tempos em Jacumã
Eu serei do tamanho exato para seu quarto de janelas miúdas
Eu, mesmo perdido no espaço e no tempo, sempre voltarei
Eu meio humano meio cavalo, seta em riste
carregando esse meu canídeo gene y
frequentarei mesmo saraus e batuques despropositados
em que sua presença for colorir
Eu serei ardor desaguado sobre você
Confusa equação que dará conta dos desejos e dos novelos
esses cômicos tropeços feitos em quadrinhos e desenhos
Eu serei a matéria para esse sentimento não traduzível e marcado
pela miscigenação do luso degredo, do negro sangue e da índia ausência
movendo-me pelo cume da noite em meio às suas linhas
Eu, lhe darei crisântemos, jasmins, lírios, orquídeas, margaridas, begônias, caliandras, marias-sem-vergonha, violetas e gerânios
porque você merece toda flor
Eu: sua scania desgovernada
seus olhos de ternura, seu banquete canibal…
Seu perigo, seu “me fudi”
seu extra-terrestre

2823.

a loucura se aproxima
parada em uma esquina
nem tão longe de onde
se perdeu as botas
nem tão perto de onde
o vento faz a volta

a loucura se aproxima
numa lucidez que alucina
nem tão pouca como
o que não se nota
nem tão tanta como
o que sempre lota

a loucura se aproxima
calma paz assassina
nem tão má feito
o diabo gosta
nem tão boa feito
um santo possa

2820. Porque está em tudo

Deixar-se fluir
pelos espaços
entre folhas e galhos
mirando a nuvem
alvo dissipada

Pairar por entre mangas
e quedar no reflexo
do vidro espelhado

Pousar o corpo entre
os vãos da grama
e silenciar todo caminho
esse momento humano
onde rodas pousam
e não nasce planta

Se dimensionar no
mesmo peso de pétalas
de espatódeas pelo barro molhado

Desmensurar toda a necessidade
como pedra ser

2818. Cri$e

quando mesmo o real
é apenas virtual
quando um dólar
não tem valor
quando bancos
centros do mundo
se deslocam no tempo
na ânsia por todo espaço
quando o lastro
é apenas um rastro
de algo que já houve
quando toda cifra
não existe no mundo
palpável
quando ouro é
todo o outro real
quando prata já
não se encontra
quando o bolo infla
mais do que as bocas
existentes e ainda
assim não alimenta

talvez

provavelmente talvez

seja a hora de
trocar as coisas
pelas próprias coisas

2817. Confesso

Ela era comercial processo
Ela era primeiro processo
Ela era duro processo
Ela era longe processo
Ela era quente processo
Ela era grande processo
Ela era primeiro processo
Ela era solto processo
Ela era desencadeado processo
Ela era afago processo
Ela era fofo processo
Ela era dissimulado processo
Elas eram todo o processo
Elas eram todo o processo
Ela era interstício e além de todo o processo
Ela era primeiro processo
Ela era igual processo
Ela era meio processo
Ela era algum processo
Ela era louco primeiro processo
Ela era meio ansiado processo
Ela era meigo processo
Ela era certo processo
Elas eram todo o processo
Ela era livre processo
Ela era doido processo
Ela era livre igual processo
Ela era alicerce e tropeço processo
Ela era meio ansiado todo processo
Ela era livre igual lá processo
Ela era imagem processo
Ela era primeiro processo
Ela era meio ansiado todo inatingível processo
Ela era aconchego processo

E dela eu me faço processo