2491. Epigrama d’Ouro II

O que nos move a guardarmos
as coisas?
O que nos fascina com o que
se passou?
Será que é pelo fato de ter
ficado ou será que ficou
pelo fato de que fascinou?
Quem somos nós que mantemos
estruturas, pedra e cal?
Lembramos tantas cruzes
e olvidamos tanto açoite.
Elegemos o magnífico, o belo,
o necessário do ontem para
o agora.
Mantemos dores, tijolos e argamassa.
E assim fica isso tudo que
passou, assim preso nisso
que não passa.

Ouro Preto/MG

2483. Jenny I

Talvez seja essa
sua composição
estrangeira,
seu deboche
francês que eu
não compreendo,
pode ser mesmo
que seja até
essa pinta na
sua coxa que
eu não consigo
abstrair como
mera aglutinação
de pigmentos.
Talvez sejam
tantas coisas
que se somam
e que dão a tônica.
Olha só, pois, você,
francesa que seja.

Rio de Janeiro/RJ

2463. ( )

nunca parênteses foram tão esperados
nunca foram tão quistos
antes de ser uma intervenção explicativa
eles têm sido uma intervenção poética
nesses dia de prosas ácidas e ásperas
(lírios do lado de uma passarela)
(uma gata louca por uma borboleta)
(mensagens criptografadas num monitor)
(um desejo falado nas entrelinhas)

2460. ( )

chove aí
chove aqui
essa água fina
abençoando os
desejos

insistente durante
o dia
querendo lavar
à força o mal
do mundo
essa chuva nos
encontra

se debruça em
cima de nós
cai em nossas
costas para
lhas aliviar
levemente
pesando o peso
de ser água

nosso encontro
possível carregado
pelas nuvens

nosso beijo suave
feito de
gotas miúdas

2459. Para que em 10 não pare

que o novo
venha a todos nós
como aquele nó que faltava
para alinhavar a costura

que se escreva mais
e se pense um tanto menos
e se sinta esse tanto que é mais
que se saiba e sinta pensar sentir
e sentir pensar

que se música plena
boa onda vibrada pelo ar
até tremer a alma

que se leia o que for bom
para saciar a fome
e que se coma o que for necessário
para que ninguém sofra

que se seja

que assim seja

que se beije
e se beija

que se ame e entre e adentre
e se deixe adentrar
e trema como música vibrada
que se goze

que se sue o que não alienar
que se estude o que ainda valorizar

que se goste e se gaste
se desgaste pelo tempo
deixe as erosões e intempéries gastar
deixe o rosto amofinar pela idade

que se envelheça

que se corpo
que se outro
que se todos
e todas que puder enfiar em si

que percorra o mundo e as vidas
e se deixe percorrer

que se corra para onde
e se pare pelo quando

que se necessite
que se precise

que queira e consiga
e convide quem quiser também
e compartilhe e não se ilhe
além do medido

que se desmeda
e se desemenda
e perca o medo de se cortar
e se colcha de retalhos quando precisar

que se seja

que assim seja

que não pare

2457.

A justa medida do tempo
é uma veste de espera
vestido vermelho de lamê
bem ajustado
guardado no fundo do armário
ansiado aguardo para o
usufruto

tira-se de quando em quando
para uma postura ao sol
e retirar mofos e manchas

cuidado com carinho
embalado em plástico
admirado no momento em
que se vai procurar uma
saia diária
e suspirado todos os dias
sabendo que em algum
deles existirá a ocasião
em que o caiba.

2456. Mapa para uma mina

saia de seu casulo
adentre um sol sertão
trafegue entre egos
siga até um olhar perdido
conte cinco passos
rumo à impossibilidade
se desoriente com o pôr-do-sol
ande rumo ao nascimento da lua
fuja léguas pelo ar
corra por linhas cálidas
quando uma lágrima brotar
é ali mesmo
cave fundo até encontrar
esse baú enterrado
abra-o somente quando
enfim o sorriso couber fácil
na sua cara

2455. saber cuidar

não pode ser mais da obsessão
tem que ser do contato
do tato
transpor a onda do imediato
do amor instantâneo
maturar as coisas
esperar
afagar com palavras elétricas
lembrar e querer

encontrar num sonho
ansiar a queda da distância
lançar-se de todo modo
esquecer-se um tanto
esperar

ela lá
eu cá
um dia onde

2451. Dezembros

dias loucos e insuficientes
para se aprender o faltante
e arremessar o vindouro

dias de chuvas e de sóis
desse calor tão frio das manhãs
de pavor e esperança

dias verdes e noites azuis
esperas infinitas e carinhos
ansiosos e distantes

seres perambulando pelo
aconchego da piedade
e margeando alguma frustração

vontade de virar as páginas
de começar novos livros
pulando até o último parágrafo

dezembros podem enlouquecer
mas sempre levam o mundo
a chorar pelo novo

2449. perder palavras

as perco uma a uma
não tenho idéia de onde
foram dar as caras
no meio do caminho
podem ter ficado
no vale do encantamento
despedaçado
no desperdício da
água à face derramada
no tiro de uma arma
não-letal
no momento de puxar
o gatilho

foram ficando pela trilha
uma após a outra
algumas ficaram encontradas
no desencontro da partida
todas não me acompanham mais

2444. Do luso encontro tupinambá

A luz feita veio de velas vibrantes pelo vento
vindas de rincões distantes de além-mar
a sinuosidade do mar lumiava
o bege mareado do cânhamo
por esse sol de equador ardente
imenso ubá reluzente chegante
de paragens ocidentes
seres em fedentina ditos deuses
e eles aqui no ritmo de uma cultura
que se sente natureza
no balanço de canoas e redes
e rezas e cantos e paricás
senhores dos reinados dos sonhos
antropofágicos mágicos da guerra

Encontro de morte e de genes
selando para o agora o ímpeto de mar
ao movimento de selva
mudando a posse o título e o nome
criando à força a herança de quem
hoje é brasil