você quer criar tensão
pra poder reacender
sou bom nessa profusão
de como se fazer
pego o que me resta de tesão
e freqüento outra freguesia
que não você
Meu nome é Guilherme, poeta , professor de geografia da Secretaria de Educação-DF e mestre em geografia (UnB). Tive AVC em maio de 2020 (isquêmico) não consigo falar ainda. Tenho apraxia e afasia. Apraxia é um distúrbio neurológico motor da fala, resultante de um deficit na consistência e precisão dos movimentos necessários à fala. Afasia é uma alteração na linguagem causada por lesão neurológica.
você quer criar tensão
pra poder reacender
sou bom nessa profusão
de como se fazer
pego o que me resta de tesão
e freqüento outra freguesia
que não você
vou sofrer por 13 horas depois do término
nas 24 depois vou ser péssimo
pra todas que quiserem me consolar de perto
vai ser assim
na base da indiferença?
tudo bem por mim
se essa é sua sentença
eu faço do in
e espero sua doença
que míngüe até o fim,
nem noto sua presença
mil é fácil pra você
que na cabeça não tem nada
mas o doido é que
que eu saiba
sua bolsa é furada
mil tem não
nem razão nem porquê
nem o que se saiba
meus olhos morreram para você
eu vejo
mas não você
anseio que morra
para minha vista sobreviver
estou cagando pra você
uma bosta fedida
que no esgoto
vai te florescer
sempre em estado de tensão
sem pretensão de que não exista
um buraco no estômago
um furo na traquéia
uma fuligem no pulmão
um ódio contra as harpas
uma cabeça em caspas
não há interlocução
não há a mínima condição
o que eu falo
ninguém
houve, senão
o que lhe der mais razão
talvez essa cara de nada vá me ser em completo
até que eu chegue a 1/3 de século
e depois dela venha aquela cara de nada com ar de cansado
até que depois dela só venha aquele ar de nada
de quem nada fez e nada vai fazer
e o nada passará a soar como meu sorriso e a minha dor
como uma palavra de duas letras
que carrega em si o desígnio
de uma condição
como se o mundo falasse a língua
da verdade
e nada mais restasse para se dizer
a não ser o que falta na certeza
como nada no mundo passa além
tanto quanto uma ilusão de companhia
tão sutil que se vê de longe
uma breve mudança de rumo numa brisa
aquela centelha que durou uma fração de segundo
ser apenas como a insignificância
não estar estando
ser mesmo não sendo
como o alvoroço do trânsito às 13:30
como o chacoalhar da britadeira incessante
como uma sombra ao meio dia
é estar no mundo e só se ter
é fato o fim
sem papo sim
só cacos de mim
Eu ainda tenho a flor pra te dar
Aproveita enquanto ela ainda é uma flor
Depois só restam vermes e bactérias
O que agride é esse sorriso
Esse suplício na boca
Que lá dentro oca
Me obriga a ser aflito
claro que são eles
que computam
que conectam
que controlam
claro que são arte
claro que a fazem
como fazem a si
e arte
“artistas fazem dinheiro”
Agora bolo
Como bolo e rebolo
Enrolo
Colo
E bolo
Depois, bolo…
nunca morta
a pala leva a mente
palavreia livre a mente
palas, veias lavam mentes
pululando sangue quente
paralisando um instante,
a palavra pára.
parágrafo
ou página
tonteia
o tom
tateia
a têmpora
Há algo no som
Que leva a fumaça
Deve ser um frisson
Timbre e fogo em graça
Percorro o ar
tão mesmo
como um
grito de socorro
por toda a goela
por toda a garganta
por todo o ar
a procurar
um lar que seja
mesmo um quasar
tão como um
ser que abarque
e salve e seja
De ir assim
percolando aí, aqui e lá
eu sigo
a me lançar
Juntar qualquer
como na trama
Ela vem e diz:
fiz
Feito, ele diz:
trato
Fato, eles fazem:
fardo
as imagens são modos,
particularidades de cada
que existe.
além do modo são modas,
partículas que quase
existem.
a forma diz,
a moldura fala:
um pente essencialmente,
o detalhe é o conjunto
que informa tanto
quanto o livro pendurado
debaixo do braço
Um rumo tido
entre o meio da mira
dentro de zero graus
vai tangente
pungente até ter
no alvo visto
o objetivo
o inter-texto
dentro do texto
discorre
sobre a correria
de se equilibrar
na trilha
Em volta,
a otária mente
Ela ia relutante,
ria a mente
Quase reluzente
ainda renitente
ia ela, a mente,
por si
só o que sente
é medíocre
o tom carregado com
um caqui ocre
não se apegue assim
dentro cabe no centro
o que há em mim
mas por que se ater
em pensar no que falar
quando basta ter
qual folha voa
toda voz chega em nós
um sopro a toa
a nuvem interna é
feita de teia
de alma aranha que é
a trama externa é
seita maleita
complô de razão e fé
há dias em que tudo
dado ao fado
resta só num som mudo
passava naquela ali
como tão logo
nada passa por aqui
Quando se parte
se parte o mundo
em antes
e depois
sempre que eu me lembro
daquele seu sonho
recheado de baunilha
lembro que o recheio
começa na realidade
de uma orquídea
de todos os tipos
parabólicas
camaradas
hits de verão
eternizadas
num refrão
em qualquer lugar
eu as vejo
Angular
o
Singular
ao
Plural
do
Infinito
asdurenas
apriaição
casemar
ésfremoução
Segunda a mente
se aguda em ente
singular mente.
Poema matemático
Poema temático
Poemamático
Poemático
Poético
Poco
Primeiro
Prêmio
Primo
Pro
Plural
Paralelo
Para além do elo
se nem um googol
elevado à centésima potência
pode chegar ao infinito
meio que é isto
eu googol ao googol
me engasgo com um
infinito travado na
garganta
As horas como foice
rasgam o dia em duas bandas
Uma que se traveste de esperança
Uma em que se espera a esperança
A luz avança
A falta se alcança
Ao meio-dia o mundo dança
Como se fosse mesmo metade
Eu sei que aflito
ainda tenta o peito
amigo amante
à mente minguante
Vai cadente
candeia caliente
ciente da gente
que ainda é
Sei que fito
ruindo em frente
de fronte ao combate
queda ao embate
em fé
Ruído passivo
espera diletante
dilata a mente
até que deletéria
a mente
dispõe-se ao fim
Tinha algo como escamas
que talhava o colchão
das camas
Mas tinha uma juba
e garras e presas
e pressa
e aquela moleza de dormir sempre
Mesmo lenta em seu casco
que também havia nela
tinha sempre pressa
E quando via sua presa
fazia-se de tartaruga de aquário
roçava como gata no cio
e depois devorava o otário
Feia como só ela
Feia e híbrida
Como uma leoa
meio hidra
Feia como bela
Eu paro
por onde passo
par-e-passo
alinhado
Eu par
perpendicular
abaixo
com minha sombra
Eu parto
para lá
com meu par
cá
sempre ao lado
ou abaixo
Por que ocupamos
o desejo de defender
a dureza atacada
se do alto do que dói
só nos resta a contemplação
de desejar que tudo se ocupe
devidamente
áspero que seja
na certa
Nem se todos houvesse
Caberia explicação tanta
para confusão tamanha
do que se passa cá
na indefinição de nome habitável
que pauta a lusa órbita
das vistas pronta: um nome ainda espera
Descrevo
para descrer
Vou desvendando
o que se vê
Desviando
o ego de se dizer
coisa como
se o dito escrito
fosse o olho
que tudo vê
Descrevo sim
despudoradamente
voyeur
colando cada visão
com a discrepância
de uma palavra
que para além
é um som